Todos os Nomes (2021)

de Catarina Vasconcelos
produzido por Bruno S.
com Joaquim de Almeida e Isabél Zuaa
3 de abril de 2021 (1º Festival de Berlim)
🇵🇹 Portugal

Drama
Sinopse: Em meio à infinidade de nomes de todas as pessoas que existem e já existiram, o Sr. José, funcionário exemplar da Conservatória Geral de Registro Civil, apaixona-se por um nome específico — e inicia uma busca mirabolante para conhecer tudo sobre a vida da mulher dona daquele nome.

Vencedor de 11 prêmios, incluindo o Oscar de Melhor Filme Internacional.


Consenso da Crítica: Para além da história acalentadora e melancólica em iguais proporções, “Todos os Nomes” traz uma reflexão profunda sobre identidade e relações humanas — tudo ancorado na performance doce de Joaquim de Almeida e na direção sutil de Catarina Vasconcelos.

Média da crítica

86

Média do público

Tomatômetro

100%

Pipocômetro

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Ficha Técnica

Direção: Catarina Vasconcelos
Roteiro: Catarina Vasconcelos
Baseado em: “Todos os Nomes”, de José Saramago
Produção: Bruno S.
Fotografia: Walter Carvalho
Figurino: Luís Sequeira
Música: Fausto Bordalo Dias
Distribuição: O Som e a Fúria
Plataforma: Catflix

Elenco

Joaquim de Almeida como Sr. José
Isabél Zuaa
como a vizinha
Carloto Cotta como o chefe
Violante Saramago como a pastora


Proposta Estética

O cenário principal da narrativa — a Conservatória — contrasta seu trabalho monótono e repetitivo com uma aura levemente mágica, um degrau acima da realidade, para reforçar as simbologias de um lugar que representa a fronteira entre a vida e a morte. A edição é ritmada, com planos que se repetem periodicamente, e vários planos se repetem ao longo do tempo; a Conservatória, mesmo com toda a monotonia de um grande arquivo, é um ambiente razoavelmente colorido, com tons pastéis e predominância do rosa. Os planos são sempre abertos ou médios.

 É nas cenas fora da Conservatória, por outro lado, que Catarina Vasconcelos exibe sua veia documental: o filme ganha um tom mais realista, mais terroso; a edição torna-se mais relaxada e a câmera mais movimentada. Os close-ups em rostos são mais frequentes.


Narrativa

Numa cidade anônima, os acordes iniciais de “One” introduzem o nosso cenário principal: a Conservatória Geral de Registro Civil, onde são criados e mantidos os arquivos de todas as pessoas, vivas e mortas, daquele lugar.

“One”, Harry Nilsson – A canção que abre o filme dá o tom das sequências na Conservatória: seus acordes repetitivos (Harry Nilsson se inspirou no sinal de “ocupado” do telefone para o mote principal da música) combinam-se com a letra cheia de contrapontos binários (um, dois, sim, não) para ilustrar o trabalho mecânico, repetitivo, da repartição — ao mesmo tempo em que há, na música e no ambiente, um sutil tom de melancolia solitária dominando o ambiente.

Em uma cena quase wes-andersoniana, repetitiva como o trabalho dos servidores, conhecemos o lugar, com várias fileiras de guichês nos quais os escriturários recebem os cidadãos, preenchem fichas e registram os acontecimentos das vidas de todos: nascimentos, mortes, casamentos, filiações. Acima de todos, o chefe (Carloto Cotta) supervisiona, impassível, o balé de papéis e máquinas de escrever precisamente coreografado.

Atrás do chefe, uma parede enorme, com muitos metros de altura e largura, reúne o arquivo de todas as pessoas vivas. Os escriturários frequentemente precisam ir até o arquivo para, munidos de grandes escadas, coletarem e devolverem as fichas alteradas. As laterais da Conservatória, por sua vez, têm portas que dão para pequenos apartamentos funcionais, pensados para a moradia dos escriturários — e abandonados ao longo das décadas, com o avanço das leis trabalhistas. Apenas um dos apartamentos segue ocupado: o do Sr. José (Joaquim de Almeida). O Sr. José é um dos funcionários mais antigos da Conservatória e vive uma existência pouco marcante — todos os dias, ele veste seu terno humilde, bate o ponto antes dos colegas, atende os cidadãos com profissionalismo e simpatia. Nunca erra uma letra sequer. Nunca faltou um dia de trabalho. Não tem família ou amigos próximos. Ao fim do dia, o Sr. José volta ao apartamento, come alguma refeição pronta e lê até o sono chegar. Repete, repete, repete. O Sr. José não é triste ou frustrado, mas há uma sutil melancolia pairando sobre a sua solitude.

A cena introdutória se finda junto com a música, e passamos a nos concentrar em mais um dia de trabalho do Sr. José. Ao fim do expediente, é atribuída a ele a tarefa temida por todos os escriturários: levar as fichas dos recém-falecidos ao arquivo dos mortos. Com um carrinho cheio de fichas, o Sr. José amarra uma corda na cintura — o fio de Ariadne — e abre uma porta oculta no arquivo dos vivos. O arquivo dos mortos é tão alto quanto o dos vivos, mas cinquenta vezes maior e engolido pela escuridão; sua disposição labiríntica exige que a pessoa que lá entre vá munida de uma lanterna e do fio de Ariadne, para que possa encontrar o caminho de volta. O Sr. José engole em seco: ninguém sabe, mas ele morre de medo do escuro. Ele arrasta o carrinho ruidosamente pelos corredores mortalmente silenciosos e, depois de alguns minutos de caminhada, encontra o primeiro espaço disponível nas prateleiras. Deposita rapidamente as fichas e volta, seguindo o fio de Ariadne, para o mundo dos vivos. Ele respira aliviado.

O Sr. José fecha a Conservatória e recolhe-se no seu apartamento. Ao tirar seu paletó, ele percebe que uma ficha ficou presa à parte de trás das suas vestes. Sua reação é de horror — a primeira falha cometida em anos de trabalho. Como quem manuseia um objeto radioativo, ele coloca a ficha em cima da mesa e aproxima as mãos, hesitante; um aviso na capa o lembra que é ilegal abrir qualquer ficha sem uma razão oficial para isso. Ele abre. A ficha é de uma mulher (cujo nome nunca vemos) e traz poucas informações: trinta e poucos anos, um registro de casamento e outro de divórcio. Viva, pois não há registro de morte. O Sr. José tenta retomar sua rotina noturna, mas a ficha em cima da mesa parece olhar para ele com ar de reprovação.

No dia seguinte, o Sr. José aparece no trabalho com uma expressão cansada e o terno mal-ajambrado. O contraste com a sua absoluta constância nos bons modos chega a assustar os colegas. Em um dado momento, o Sr. José se aproxima do arquivo dos vivos e discretamente tira a ficha da mulher misteriosa das suas vestes, para devolvê-la. Sua mão, entretanto, detém o movimento no último instante: lá no fundo, o Sr. José não quer se despedir da mulher misteriosa. Respirando forte, ele guarda a ficha de volta nas vestes e pega outras três: a do pai, da mãe e do ex-marido da moça — os únicos nomes citados na ficha dela.

Os dias se passam, e o interesse do Sr. José por mapear toda a vida da mulher misteriosa vai se aprofundando — e fazendo com que ele cometa mais e mais delitos. Ligando parentescos e coletando cada vez mais fichas, ele consegue montar uma árvore genealógica completa da moça, indo várias gerações para trás. Quando todas as possibilidades de ligações se esgotam, ele precisa continuar sua busca, e o primeiro ímpeto é apanhar a lista telefônica. Não, ele nunca ligaria para ela: ouvir sua voz seria uma transgressão imperdoável para aquela relação sagrada. Em vez disso, o Sr. José liga para todos os nomes correspondentes ao do ex-marido da moça, apresentando-se como vendedor de seguros de vida. Depois de várias respostas negativas, ele encontra a pessoa que procura. Pergunta se o homem é casado. “Não, sou divorciado”, “E como foi?”, “O que?”, “O casamento”. Silêncio confuso. O homem do outro lado da linha desliga, deixando um ofegante Sr. José do outro lado.

Mais preparado, o Sr. José resolve tentar ligar para nomes correspondentes a parentes da moça. Agora, ele se passa por oficial da Conservatória e sua desculpa é a de que a ficha da mulher misteriosa foi perdida e a repartição está tentando entrar em contato com ela. Depois de várias ligações erradas, ele consegue estabelecer contato com um primo distante da moça que diz ter perdido contato com aquele lado da família há muitos anos. O senhor dá ao Sr. José o último endereço que sabe da mulher desconhecida, ainda de quando ela era criança e morava com os pais. O Sr. José olha para o pedaço de papel com o endereço como se fosse um tesouro amaldiçoado.

No sábado, o Sr. José forja uma credencial de oficial da Conservatória e sai. Pela primeira vez, o vemos fora das paredes da Conservatória — e, pelo seu ar desconcertado, parece que ele também não se vê de tal forma há muito tempo. Ao som de “A Travessia”, o Sr. José ganha o mundo: com passos cada vez mais decididos, ele atravessa ruas, avenidas, praças, largos, jardins, pontes e pessoas, muitas pessoas — mas não dá atenção a nenhuma delas.

“A Travessia”, Fausto Bordalo Dias – A suite do compositor Fausto Bordalo Dias preenche as (poucas) pontuações de trilha sonora realizadas durante o filme. Sua primeira aparição é na cena em que o Sr. José deixa a Conservatória pela primeira vez: o ritmo marcado dos seus minutos iniciais ajuda a guiar a montagem, enquanto a gaita de foles evoca a sensação de liberdade sentida não só pelo protagonista, mas também pelos espectadores. A canção também surge pontualmente em outros momentos durante o filme, como as interações do Sr. José com a vizinha e o final da cena no cemitério.

Ele chega ao seu destino: um conjunto habitacional numa área empobrecida da cidade. Suando frio, ele entra no prédio e chega na porta do apartamento indicado no endereço. Alguns segundos de dúvida. O Sr. José faz menção de bater, mas sua mão para a milímetros da porta: se for ela, o encanto se partirá. Em vez disso, ele dá um passo ao lado e bate na porta do apartamento vizinho. Quem abre é a vizinha (Isabél Zuaa). O Sr. José, respirando rápido, apresenta sua credencial falsa e fala da mulher que está procurando. Diz que o apartamento ao lado é o último endereço conhecido dela, mas que ninguém atendeu à porta. A vizinha suspira e o convida para entrar.

O apartamento da vizinha é simples, porém bem decorado. Não há sinal de haver outras pessoas ali. A vizinha diz que o Sr. José nunca encontrará ninguém no apartamento ao lado, pois ele está desocupado há décadas — ela, entretanto, conhece a mulher misteriosa. O Sr. José tenta disfarçar os olhos arregalados enquanto a vizinha conta que as duas eram amigas bem próximas na infância e adolescência, mas se afastaram quando seus pais tiveram uma briga. A família da mulher misteriosa se mudou, e a vizinha passou a ter um contato cada vez mais raro com sua amiga: na última vez que recebeu notícias, soube que ela estava trabalhando como professora numa escolinha da cidade. O Sr. José percebe que remexer aquelas memórias afetou a vizinha, e promete que lhe contará quaisquer informações que obtenha sobre a mulher misteriosa. A vizinha pergunta se aquilo não é ilegal. O Sr. José não responde. Antes que ele vá embora, a vizinha entrega ao Sr. José uma foto dela com a mulher misteriosa — ele tenta disfarçar o assombro de, pela primeira vez, ver as feições da moça que tem ocupado sua mente dia e noite. “Espero que possa ajudar”, diz a vizinha. No fundo, ela sabe que o Sr. José é algo além do que diz ser.

A chegada da segunda-feira obriga o Sr. José a interromper suas buscas. Ao bater seu ponto, entretanto, ele é abordado pessoalmente pelo chefe — um fato inédito em tantas décadas de serviço. O chefe, demonstrando uma empatia que nunca aparentou ter, diz que o Sr. José parece cansado e deveria tirar alguns dias de férias. O Sr. José, pasmo, mal é capaz de esboçar alguma reação: só agradece e dá meia volta.

A próxima parada da investigação do Sr. José é a escolinha na qual a mulher misteriosa trabalha (ou já trabalhou). Incapaz de usar seu subterfúgio como falso oficial da Conservatória (já que os funcionários de uma escola certamente perceberiam a mentira), ele adota outra estratégia: na calada da noite, pula o muro traseiro da instituição com alguma dificuldade — a idade já pesa nas suas articulações — e invade o pequeno prédio. Lá dentro, sua primeira parada é o arquivo: o Sr. José passa muito tempo vasculhando todas as milhares de fichas de funcionários, professores e alunos da escola, atuais e passados, até encontrar a pasta da mulher misteriosa. A ficha indica que ela ainda é professora da escola, e a pasta tem várias informações adicionais que fazem o coração do Sr. José disparar: seu endereço, telefone, diploma, avaliação psicológica e tantos outros dados que preenchem os vazios e constroem a imagem da moça na cabeça do nosso protagonista. O Sr. José toma nota do endereço atual da mulher e, depois de boas horas lendo e relendo tudo o que possa, resolve visitar a sala da turma em que ela leciona. Ele sorri ao admirar todos os pequenos detalhes da salinha de educação infantil: as fotos da mulher com seus alunos, os trabalhos realizados pelas crianças, as mesas sujas de tinta, a escrivaninha com alguns pertences pessoais dela.

O dia amanhece, e o Sr. José caminha de volta para casa, eufórico. Ao entrar na Conservatória, entretanto, ele é mais uma vez abordado pelo chefe, que lhe pede desculpas por interromper suas férias. O chefe diz que a repartição recebeu, no dia anterior, o atestado de óbito de uma mulher, mas que nenhum funcionário conseguiu encontrar a ficha dela. O chefe mostra o atestado. É ela. Vemos o coração do Sr. José se esfacelar pelos seus olhos que tentam disfarçar qualquer reação. O chefe continua, dizendo que talvez o Sr. José, como funcionário mais antigo e competente da Conservatória, possa ajudar. Ele só sacode a cabeça positivamente.

Enquanto o chefe se lamenta pela falha, a única em tantos séculos de Conservatória, o Sr. José se aproxima roboticamente do arquivo dos vivos e discretamente tira a ficha da mulher misteriosa de dentro das suas vestes. “Aqui está”, diz, com a voz falhando. O chefe dá um sorriso ao elogiar, mais uma vez, a eficiência do Sr. José. Pede que ele registre o óbito na ficha e a leve até o arquivo dos mortos, “se não for um grande incômodo”. O Sr. José assente, bate o registro de morte na ficha e caminha até o arquivo dos mortos com o fio de Ariadne amarrado na cintura — desta vez, sem medo. Caminha pelos longos corredores silenciosos no escuro, abraçado com a ficha no peito. Encontra um lugar especial para repousá-la — uma prateleira mais nova, mais limpa, ainda sem nenhuma ficha. Olhando longamente, o Sr. José despede-se da sua amada e deposita a ficha na estante, deixando-a para trás.

Os dias se passam e o Sr. José passa o resto das suas férias no apartamento, mantendo sua velha rotina. Sua habitual melancolia, agora, virou uma profunda tristeza. Eventualmente, ele dá atenção à foto, em cima da mesa, entregue pela vizinha — e resolve visitá-la.

A vizinha abre a porta do seu apartamento e recebe o Sr. José. Ele mantém sua fachada de oficial da Conservatória e informa, em tom solene, que a mulher morreu. A vizinha imediatamente tem os olhos tomados por lágrimas e gagueja, perguntando-se como. Ele diz que não sabe — pela primeira vez, não quis saber. A voz do Sr. José treme. A vizinha o convida para entrar e serve um café. Entristecida, lamenta-se sobre como queria ter tido mais uma chance de reatar a amizade com a mulher. O Sr. José, por sua vez, lamenta-se que aquilo seja tudo o que ele tem dela — fichas, nomes, informações, dados. E assim sempre será: apenas coisas sobre ela, mas nunca ela. Por medo, talvez. O Sr. José cala-se quando percebe que falou demais, mas a vizinha apenas sorri: “eu sabia que você não era oficial da Conservatória”. Ele dá um sorriso triste: “se ajuda em algo, eu sou da Conservatória”. “E o que mais?”, pergunta a vizinha. “O que mais o que?”, “O que mais você é?”, “Eu não sei”. A vizinha pergunta se ele tem alguém. Ele não tem. Ela também não. Silêncio. O Sr. José diz que precisa ir e estende a foto da vizinha com a mulher, para devolvê-la. Ela pede que ele fique com aquela — ela tem outras guardadas.

As férias acabam e o Sr. José volta a trabalhar como antes: constante, eficiente, melancólico, mas algum brilho que existia nos seus olhos não está mais lá. Em um dado momento, ele percebe que falta algo — sua busca ainda não terminou. No meio do expediente, ele se levanta do seu guichê, quebrando o preciso balé da Conservatória e atraindo olhares de todos os seus colegas. Olha para cima e vê o chefe olhando para ele. O chefe dá um sorriso quase imperceptível e faz que não viu. O Sr. José deixa a Conservatória no meio do trabalho, deixando todos estupefatos.

Checando o endereço da mulher misteriosa que obteve na escola, o Sr. José entra num prédio relativamente arrumado, de classe média — uma clara evolução em relação ao conjunto habitacional que ela morou quando criança. Em frente à porta do apartamento indicado no endereço, ele puxa um clipe de papel do bolso e se prepara para abrir a fechadura, mas para ao perceber que há alguém dentro do apartamento. Lívido, o Sr. José hesita, mas toca a campainha. Quem abre é uma senhora com semblante triste. “Você era amigo de minha filha?”, “Sim”. A senhora se prepara para dar as más notícias, mas o Sr. José se adianta: diz que já sabe e dá a desculpa de que foi ao apartamento buscar uns livros que ele tinha emprestado anos antes. A senhora diz que já está de saída, mas pede que ele fique à vontade e apenas bata a porta ao sair. Antes de sair, a senhora dá um sorriso triste para o Sr. José: “você sabe o porquê?”. O Sr. José não responde, e a senhora, com os olhos marejados, faz uma última pergunta: “ela não era feliz?”. O Sr. José tenta reunir toda a certeza no mundo na sua resposta: “ela era”. A senhora parece se confortar levemente. Antes que saia, o Sr. José a interpela: “por favor, senhora, não sei onde ela jaz”. A senhora dá mais um sorriso triste e entrega ao Sr. José uma nota com a localização do túmulo da mulher misteriosa. E sai.

O Sr. José, agora sozinho, analisa minuciosamente cada objeto, cada fotografia, cada detalhe do apartamento. Sorri ao ver a mulher misteriosa sorrindo nas fotos, lê notas que ela escreveu, conhece sua caligrafia, a forma como arrumava sua mesa de trabalho, seus gostos para a moda, seu senso de decoração e conforto. Uma vida — uma vida que não está mais lá, mas que foi vivida. O Sr. José deita-se na cama da mulher misteriosa e sente os últimos traços do cheiro dela, já desvanecendo. Lá ele fica por muitos instantes, absorvendo tudo.

Já é o fim da tarde quando o Sr. José deixa o apartamento rumo ao destino final da sua busca: o cemitério. Ele chega ao setor indicado pela mãe da mulher misteriosa: um pacífico campo gramado, grande a perder de vista, com lápides precisamente dispostas como pequenas placas de mármore no solo. O Sr. José aproveita os últimos raios de sol para encontrar o túmulo da mulher misteriosa, localizado próximo a uma frondosa árvore. Ele olha longamente para o túmulo e senta-se, recostando-se na árvore. Agora está completamente escuro, mas o Sr. José não tem mais medo — a presença de todos os nomes à sua volta, na verdade, o conforta. Ele adormece.

O dia amanhece e o Sr. José abre os olhos. Ele vê uma pastora (Violante Saramago) a andar pelo cemitério com suas ovelhas, levando-as para pastar. O Sr. José horroriza-se, entretanto, ao perceber que a pastora troca várias lápides de lugar. Corre até ela, gritando. Calma, ela explica que faz aquilo todos os dias — todas as lápides daquele cemitério já devem ter sido trocadas de lugar dezenas de vezes por ela. O Sr. José, exasperado, exclama que aquilo  é ilegal e pergunta a razão daquele disparate. A pastora sorri: “todos os dias alguns túmulos recebem visitas e são regados com lágrimas. Tantos outros não recebem ninguém, nunca. Talvez assim todos tenham algumas lágrimas e possam florescer”. O Sr. José olha, estupefato, a pastora seguir adiante com suas ovelhas e assim fica por um bom tempo. Eventualmente, ele dá um sorriso — e a câmera vai subindo conforme o próprio Sr. José começa a trocar algumas lápides de lugar.

De volta à Conservatória, o Sr. José é mais uma vez abordado pelo chefe e se prepara para ser demitido. O chefe, entretanto, sorri para ele. Diz que esteve acompanhando sua busca de perto desde o princípio e que nunca, na história daquela Conservatória, tinha visto alguém dar significado ao trabalho que eles faziam desde o início dos tempos. Diz que o Sr. José mostrou a ele que não há sentido em separar os vivos dos mortos: só é possível entender por completo um lugar e um povo se todos estão juntos. Diz, por fim, que quando todos os vivos e mortos se juntarem, a mulher misteriosa poderá, de uma certa maneira, viver para sempre. O chefe estende a lanterna ao Sr. José: “pronto para começar?”. O Sr. José, ainda processando, pega a lanterna nas mãos, mas parece se lembrar de alguma coisa. Devolve, então, a lanterna ao chefe: “os mortos terão todo o tempo do mundo para se juntar aos vivos, mas agora eu preciso fazer uma coisa. Se importa de começar por mim?”. O chefe pega a lanterna de volta e, sorridente, mergulha na escuridão do arquivo dos mortos, sem o fio de Ariadne.

O Sr. José ganha o mundo novamente, atravessando ruas, avenidas, praças, largos, jardins, pontes e pessoas, muitas pessoas — mas agora ele presta atenção a cada uma delas e até arrisca um sorriso aqui e ali. Ele chega ao velho conjunto habitacional. Bate na porta da vizinha. Ela abre e olha para ele, curiosa. “Eu…”. José hesita por alguns instantes antes de falar: “…eu nunca perguntei seu nome”.

Ela sorri. Ele sorri também. Ouvimos os acordes iniciais de “Amar Pelos Dois”. Fim.

“Amar Pelos Dois”, Paulina Czapla – Uma versão mais minimalista do sucesso de Salvador Sobral encerra o filme e a aventura do Sr. José — os primeiros acordes do piano são ouvidos quando a vizinha abre o seu sorriso, e o filme desmancha para a tela preta antes que possamos ouvir o primeiro verso da canção. A escolha da música também foi dada pela sua letra: a primeira palavra ouvida no filme inteiro é “One”, e a última é “dois” — simbolizando a amizade recém-descoberta entre aquelas duas almas solitárias.


Oscar Tapes

Joaquim de Almeida: O Sr. José é uma espécie de comeback para Joaquim, em vários sentidos: depois de décadas fazendo vilões coadjuvantes em Hollywood, aqui ele encara um protagonista humilde e benigno na sua terra natal.  Sua Oscar Tape é uma das cenas em que ele exibe com mais clareza essa versatilidade: a segunda visita à vizinha, quando ele inadvertidamente sai do “personagem” e começa a se lamentar pela morte da mulher misteriosa, com mil emoções transpassando seus olhos.

Isabél Zuaa: Mesmo com uma participação de poucas cenas, Isabél é o coração pulsante do filme: é ela que reacende no Sr. José a lembrança da humanidade depois de tantos anos lidando apenas com nomes. Sua Oscar Tape está na primeira visita do Sr. José ao seu apartamento, quando ela rememora a infância e a adolescência com a mulher desconhecida e parece remexer memórias dolorosas.

Carloto Cotta: Carloto interpreta um personagem que vai se metamorfoseando ao longo do filme. Inicialmente uma figura monolítica, inacessível, rigorosa, o chefe vai se revelando cada vez mais humano até chegar à sua Oscar Tape: a penúltima cena do filme, quando ele revela ao Sr. José que sabia de toda a busca e agradece ao escriturário.

Violante Saramago: Violante, filha de José Saramago, não é atriz — ela é uma renomada bióloga que aceitou fazer uma participação especial no filme em homenagem ao pai. Sua Oscar Tape é a explicação do motivo para a pastora trocar, todos os dias, o lugar das lápides no cemitério.


Trilha Sonora

“One”, Harry Nilsson: A canção que abre o filme dá o tom das sequências na Conservatória: seus acordes repetitivos (Harry Nilsson se inspirou no sinal de “ocupado” do telefone para o mote principal da música) combinam-se com a letra cheia de contrapontos binários (um, dois, sim, não) para ilustrar o trabalho mecânico, repetitivo, da repartição — ao mesmo tempo em que há, na música e no ambiente, um sutil tom de melancolia solitária dominando o ambiente.

“A Travessia”, Fausto Bordalo Dias: A suite do compositor Fausto Bordalo Dias preenche as (poucas) pontuações de trilha sonora realizadas durante o filme. Sua primeira aparição é na cena em que o Sr. José deixa a Conservatória pela primeira vez: o ritmo marcado dos seus minutos iniciais ajuda a guiar a montagem, enquanto a gaita de foles evoca a sensação de liberdade sentida não só pelo protagonista, mas também pelos espectadores. A canção também surge pontualmente em outros momentos durante o filme, como as interações do Sr. José com a vizinha e o final da cena no cemitério.

“Amar Pelos Dois”, Paulina Czapla: Uma versão mais minimalista do sucesso de Salvador Sobral encerra o filme e a aventura do Sr. José — os primeiros acordes do piano são ouvidos quando a vizinha abre o seu sorriso, e o filme desmancha para a tela preta antes que possamos ouvir o primeiro verso da canção. A escolha da música também foi dada pela sua letra: a primeira palavra ouvida no filme inteiro é “One”, e a última é “dois” — simbolizando a amizade recém-descoberta entre aquelas duas almas solitárias.


Fotografia

Figurino

O filme não enviou material para a prova de figurino.


Notícias e Imagens

Confira todas as notícias da temporada e imagens de campanha nas revistas Visions e That’s Gossip.


Prêmios

Total de 11 prêmios e 25 indicações. Clique aqui para ver todos os prêmios da 4ª temporada.

1º Festival de Berlim
  • Prêmio do Júri (venceu)
  • Urso de Prata de Roteiro, Catarina Vasconcelos (venceu)
  • Urso de Prata de Fotografia, Walter Carvalho (venceu)
1º MTV Movie Awards
  • Pôster (venceu)
4º Globo de Ouro
  • Filme Estrangeiro (venceu)
  • Ator de Drama, Joaquim de Almeida (indicado)
  • Direção, Catarina Vasconcelos (indicada)
  • Roteiro, Catarina Vasconcelos (indicada)
4º Screen Actors Guild Awards (SAG)
  • Atriz Coadjuvante, Isabél Zuaa (indicada)
4º BAFTA
  • Ator, Joaquim de Almeida (indicado)
  • Atriz Coadjuvante, Isabél Zuaa (indicada)
  • Roteiro Adaptado, Catarina Vasconcelos (indicada)
  • Fotografia, Walter Carvalho (indicado)
  • Filme em Língua Não-Inglesa (indicado)
4º Oscar
  • Filme Internacional (venceu)
  • Atriz Coadjuvante, Isabél Zuaa (indicada)
  • Roteiro Adaptado, Catarina Vasconcelos (indicada)
Premiações da Crítica
  • Filme Estrangeiro (3 prêmios)
  • Ator, Joaquim de Almeida (1 prêmio)
  • Atriz Coadjuvante, Isabél Zuaa (1 prêmio, 1 vice)
  • Filme (1 vice)
  • Roteiro, Catarina Vasconcelos (1 vice)
Temporadas Posteriores

Nota: prêmios e indicações recebidos em temporadas posteriores não são contabilizados no ranking da temporada de lançamento do filme.

1º Festival do Rio
  • Seleção Oficial
1º Grande Prêmio do Cinema Brasileiro
  • Melhor Filme Iberoamericano (indicado)

Críticas do Júri

100

Joseph Wilker Film Critics Association
Parece uma farofinha gostosa para assistir mas na verdade é um filme profundo e gostoso para assistir. “Todos os nomes” traz a história de Sr. José, um homem que se apaixonou por um nome e queria saber tudo sobre essa mulher que portava tal nome. Sobre o cenário consigo imaginar um lugar com história porém com uma vibe retrógrada – essa era a Conservatória. Tantos arquivos tantas histórias e vidas no meio do marasmo que é um cartório, tanto movimento e tão parado. Mas o romantismo não está morto, nem a curiosidade de José. Esse filme me fez pensar no quão é interessante ler sobre alguém e ter essa visão platônica sobre a pessoa, nada é mais puro que isso. Pensando no que José fez em busca da mulher, beira a loucura (e ao crime) no entanto foi o que deu vida a ele, trouxe sentido e emoção. Belo filme.

96

Associación de Críticos de Cine Pastuzo
“Todos os Nomes” é uma mistura de natural e fantástico que faz jus a Saramago. Joaquim de Almeida, com seus olhos caídos e sorriso suave, nos guia com leveza pela jornada peculiar do pacato Sr. José, um homem simples, de nome simples, que borra a linha do banal e do extraordinário e, tal qual a obra que protagoniza, nos entrega mágica. O esmero visto na composição da cena em que o Sr. José visita o arquivo dos mortos com a lanterna e o fio de Ariadne está presente em todos os detalhes do longa. Está na fotografia, nos cenários, nos diálogos (“E o casamento?”, “Como foi?”), na escolha de convidar Violante Saramago… Tudo na produção denuncia a sensibilidade por trás dela e permite que elementos delicados se convertam em sensações intensas diante dos olhos do espectador, completamente envolvido. Do início anônimo ao som de “One” até a iminência do nome com “Amar Pelos Dois”, é encantador.

89

Oz Film Critics Society
Um filme para aquecer o coração. Todos os Nomes nos apresenta um protagonista que consegue ser carismático em toda a sua simplicidade, um homem comum, aparentemente desinteressante, que ao ganhar um propósito a princípio esquisito se aventura a sair de sua bolha e descobre mais sobre si mesmo do que sobre a mulher que persegue. A direção de arte primorosa e a edição brilhante contribuem para uma agradável imersão nesse mundo.

88

Cinema Contestado – União Catarinense de Críticos de Cinema
Uma história kafkiana com um final otimista. Todos os Nomes parte das dicotomias ordem/desordem, burocracia/pessoalidade, massificação/individualidade para subvertêlos no fim. As metáforas aludidas na obra são compostas com atenção e cuidado aos detalhes. Destaca-se a Conservatória Geral como uma meta-realidade a julgar e registrar o mundo “ordinário”. A proposta artística de contrastar esses ambientes com cores e técnicas de filmagem específicas para cada um acrescenta vida à narrativa. Vale comentar a forma de apresentação e desenvolvimento de personagens. Há que se exaltar o modo que até personagens não-vivos – a Conservatória e a mulher da ficha, em especial – ganham forma e presença. O protagonista, entretanto, é o menos interessante deles todos. Sua personalidade é um tanto quanto errática: ele é vivo e ativo em alguns momentos, covarde e impotente em outros. Seu arco de desenvolvimento não se costura tão bem com suas motivações e seus objetivos nessa trama parecem incertos. Ficamos satisfeitos pelo seu final, mas nem tanto pela sua jornada. Atenuando as falhas do Sr. José, Todos os Nomes é uma obra explêndida de realismo fantástico capaz de dar vida e sabor a Kafka e Weber.

85

Rubens Ewald Son Film Critics Association
Em Todos os Nomes, Catarina Vasconcelos adapta o livro homônimo de Saramago com chame e delicadeza. O desenvolvimento do personagem de Joaquim de Almeida é bem pontuado tanto pela atuação como pela construção narrativa do filme. Catarina nos mostra a busca de José pela mulher misteriosa como reflexo da busca por si próprio com o objetivo inserir o espectador na mesma busca: somos o mistério que criamos para nós mesmos. As atuações codjuvantes aqui tem pouco destaque, mas não vejo como algo ruim e sim uma escolha consciente para provocar o protagonista em sua trajetória. A fotografia e trilha conversa de forma coesa com o filme nos insere ainda mais na narrativa. Por fim, Todos os Nomes é um forte candidato em filme estrangeiro e deve aparecer em várias listas de melhores da temporada.

80

Rio Film Critics Circle
Se eu fosse tentar comparar Todos os nomes a qualquer outra coisa, teria que ser alguns dos filmes mais poéticos dos anos 60 e 70. Mas ainda assim seria um pouco errado, a saga de Sr. José me deu um sentimento único. A trilha que acompanha algumas cenas são muito bem colocadas, ajuda a dar um charme a mais. Um filme é contado de forma curiosa, que chegam a causar um estranhamento em alguns momentos, como na cena entre o protagonista e sua vizinha. Porém a sua estética impressiona, apesar de simples tem uns toques de harmonia e fidelidade com a história que conseguem cativar o público. O filme perde um pouco seu potencial pelo fato de parecer que estamos vendo os personagens de longe, sinto falta da imersão, apesar de acompanharmos a rotina e busca de Sr. José, nunca parece que estamos próximos do personagem, talvez, uma limitação do roteiro. No entanto, continua a ser um filme muito bonito e bem construído, certamente vale a pena dar uma olhada, mesmo que apenas uma vez.

78

San City Film Critics Association
Se o Sr. Jose, protagonista de Todos os Nomes de Catarina Vasconcelos, fosse um adolescente prestes a se tornar adulto, poderíamos categorizar esse filme como um coming-of-age. Mas o que significa quando as situações são invertidas? Quando temos um personagem principal na terceira idade, que viveu uma vida simples, mas não marcante? Um dos pontos principais do roteiro é esse, como muitas vezes deixamos a vida passar em prol de uma rotina sem muitas emoções e ‘’segura’’ e esquecemos que passamos por esse mundo para deixar nossa marca. O protagonista vive uma vida melancólica e solitária, e apenas após cometer um erro—o primeiro depois de muitos anos no trabalho na Conservatória—tem esse momento de reflexão quando encontra uma ficha de uma mulher misteriosa. Sua busca embala grande parte do longa e Catarina consegue com sua direção fazer com o que o telespectador crie uma empatia pelo protagonista e torça por ele a cada passo de sua busca. Todos os Nomes é um filme que nos faz refletir sobre a efemeridade da vida, e a importância de não deixar ela apenas passar por nós.

75

Gotham City Film Critics Secret Society
Em “Todos os Nomes”, seguimos a melancólica jornada de Sr. José até à chegada do clímax que atinge não só o personagem, mas também o telespectador. Apesar de sua convicção meio problemática – mas ainda assim interessante -, não dá para não ter certa simpática pelo personagem, tão bem vivido por Joaquim. Os demais nomes de suporte não tem tanta força quanto o protagonista, contudo Isabél consegue brilhar ao dividir as cenas em seu apartamento. Também é interessante ver o confronto da estética da Conservatória e do mundo de fora tão bem dosados pela diretora.

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