de Nadine Labaki
produzido por Constância’s Haus of Bürger
com Vincent Cassel
7 de fevereiro de 2021 (4º Festival de Berlim)
🇱🇧 Líbano
Drama / Romance
Sinopse: A líbanesa Layle e o francês Antoine encontram uma paixão ao se unirem na busca por justiça pelas vítimas da explosão de 4 de Agosto de 2020 no Porto de Beirute.
Vencedor de 2 prêmios, incluindo o Grande Prêmio do Júri em Berlim.
Consenso da Crítica: Em “Beyrouth”, Nadine Labaki mistura seu olhar documental com uma forte veia dramática para trabalhar questões já presentes na sua filmografia a partir de uma nova visão. O resultado, ainda que demasiado fugaz, é efetivo.
Média da crítica
78
Média do público
–
Tomatômetro

100%
Pipocômetro

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Ficha Técnica
Direção: Nadine Labaki
Roteiro: Nadine Labaki
Produção: Constância’s Haus of Bürger
Fotografia: Christopher Aoun
Música: Khaled Mouzanar
Distribuição: Neon
Plataforma: Constant+
Elenco
Nadine Labaki como Layale
Vincent Cassel como Antoine
Yordanos Shiferaw como Rahil
Proposta Estética
Construído a partir da colaboração de Nadine Labaki com a equipe de atores e não-atores, pessoas da vida real, o filme se propõe como uma reflexão sobre os laços coloniais que ainda existem no mundo contemporâneo, e que foram colocados ainda mais em evidência pela pandemia da Covid-19 e, no caso do Líbano, pela explosão que ocorreu no dia 4 de Agosto de 2020 e a crise polítoca-economica que seguiu a mesma.
A fotografia do filme, assinada por Christopher Aoun, faz uso da experiência do fotógrafo em trabalhar diretamente no espaço urbano, pelo meio das ruas e prédios, deixando que a realidade influencie diretamente a cena. Apesar de contar com muitas cenas com uma encenação bem demarcada os enquadramentos buscam a espontaneidade nos pequenos detalhes e ações.
Khaled Mouzanar, esposo de Nadine Labaki e parceiro de trabalho de longa data, constrói a trilha sonora trazendo elementos da música erudita os combinando com as sonoridades populares e a cultura líbanesa. No figurino é importante demarcar a presença das máscaras de proteção, que só não estão presentes nas cenas dentro do quarto de hotel. Todos os protocólos sanitários foram seguidos para a gravação deste filme.
Narrativa
¹ O filme abre com uma sequencia de imagens de um casal, Layle (Nadine Labaki) e Antoine (Vicent Cassel), em um quarto de hotel. Temos imagens do casal separados em posições distintas dentro do quarto, sem uma ordem lógica, uma cena carregada de melancolia e solidão.
Layale: “Você não viu nada em Beirute. Nada.”
Antoine: “Eu vi tudo. Como eu poderia não ver?”
Layale: “Não há nada para ver em Beirute. Nada.”
Antoine: “Dezenas de vezes eu vi as imagens.”
Layale: “O que você viu?”
A partir de aqui passamos a ver planos detalhe das construções destruídas e afetadas pela explosão na cidade.
Antoine: “Dezenas de vezes eu vi as imagens. Os vídeos de celular eram o mais autênticos possível. A fumaça na falta de algo mais. As fotografias na falta de algo mais. As explicações na falta de algo mais. As fotografias eram o mais autênticas possível. A ilusão tão perfeita que eu chorava como se estivesse aqui.”
Layale: “Você não viu nada em Beirute. Nada.”
Antoine: “Eu choro todos os dias pelo destino de Beirute. Todos os dias.”
Layale: “Não. O que havia para fazer você chorar? Você não havia nada em Beirute. Nada.”
“Eu vi o hospital em Beirute. Ele existe, eu tenho certeza”
Layale: “Você não viu nada em Beirute. Nada.”
Antoine: “Eu vi a cratera no porto. O aço retorcido dos armazéns. Dois mil setecentos e 50 toneladas de nitrato de amônia. O povo protestando na Praça dos Mártires. A pedras destroçadas. O concreto feito pó. As equipes de regaste. Eu não inventei nada disso.”
Layale: “Você imaginou tudo.”
Antoine: “Nada. Eu vi os sobreviventes. A solidariedade dos vizinhos. Os que vieram de todas as partes do Lìbano e do Mundo para limpar as ruas e ajudar a reconstruir. Assim como eu vim. Assim como meus pais e avós limparam as ruas e reconstruíram suas casas.”
Layale: “Você já sentiu a explosão de uma bomba? A explosão de uma centena de bombas? A explosão de uma bomba no seu nascimento. Quando dava seus primeiros passos. Em seu primeiro dia no jardim de infância. Depois de um beijo. O impacto do ar contra a sua pele. O medo percorrer a sua espinha de baixo à cima. O solo desaparecer debaixo dos seus pés…”
Layale está no jardim de uma casa nas montanhas cuidando de uma horta. Atrás dela se vê desenfocada a cidade de Beirute, a núvem de fumaça se levanta até o céu, quando ocorre a explosão. Ela permanece imóvel. Uma lágrima surge em seu olho.
Tela em negro. Silêncio.
As luzes da iluminação pública iluminam o interior do taxi, revelando e ocultando Antoine e Layale no banco de trás conforme o carro avança pela rua. Ele, um jornalista francês que deixou sua vida na Europa para se lançar no caos que havia se instalado no Líbano. Ela, uma ativista política que advoga por uma renovação do sistema político e social que rege o país. Seus olhares se cruzam durante a viagem, sentados lado a lado.
O taxi os leva até um edificio de apartamentos superpopulado nos subúrbios menos afetados da cidade. Layale apresenta Rahil (Yordanos Shiferaw) a Antoine: ela havia sido uma imigrante ilegal etíope, aprisionada pelo sistema de semi-escravidão de Kafala, e graças a ajuda de Layale pode se libertar e se tornar uma das principais vozes da organização que luta pelos direitos destes trabalhadores. O filho pequeno de Rahil brinca em uma piscina de plástico cheia apenas com brinquedos, enquanto os adultos debatem e planejam seus próximos passos no mesmo cômodo, que serve tanto como sala, quanto cozinha e quarto.
A energia elétrica é interrompida em determinado momento, algo que estava se tornando cada vez mais recorrente. Rahil acende uma vela para eles e outra para o menino. Ela informa Layale e Antoine que através da organização tinha entrado em contato com um informante que afirmava ter informações e provas importantes contra um dos políticos mais importantes do país e seu envolvimento com a explosão, a demora nas investigações, a repressão de protestos e corrupção.
De volta ao hotel, Layale e Antoine estão deitados na cama, com seus corpos iluminados pela luz da lua. Eles permanecem em silêncio, evitando falar sobre o que tinham de fazer no dia seguinte. Se observam por alguns instantes como se fossem se beijar, mas não se beijam. Ele a pergunta se estava em Beirute quando aconteceu. Ela lhe responde que não, estava isolada nas montanhas na casa de sua mãe com as filhas, mas que seu marido sim, era um dos bombeiros que morreram na explosão.
² Dia das Mães. Um grupo de mulheres vestidas de negro caminha com passos calculados pelas ruas do centro de Beirute, numa cena que remete à abertura de “E Agora, Aonde Vamos?”. Elas carregam imagens de seus familiares mortos, Layale e Rahil estão junto ao grupo. Em paralelo vemos Antoine caminhando por uma rua de um subúrbio pobre da cidade, para encontrarse com o informante. O climax da cena acontece quando o grupo que protesta é dispersado violentamente pelos militares, e Antoine descobre que caiu em uma emboscada, sendo preso pela polícia.
³ Antoine se vê preso em uma cela lotada. A situação sanitária dos presos é preocupante. Logo ele é levado para a sala de interrogatórios. É interrogado por militares, e ameaçado se não colaborar. Ele se nega enquanto não tiver um advogado. Do lado de fora, Rahil está com advogados em busca da soltura de Antoine. Eles passam a noite nessa disputa com as autoridades militares, até que pelo amanhecer o jornalista é liberto.
4 Layale e Antoine se encontram no quarto de hotel. Ela está sentada na cama, tem ataduras pelas feridas do protesto e esteve acordada durante toda a noite, segura uma foto das filhas contra o peito. Ele a observa desde a porta, ela retorna o olhar. Eles se lançam em direçõ um ao outro e se abraçam. Enquanto se abraçam e beijam suas faces desesperadamente recitam o diálogo:
Antoine: “Eu te encontrei. Eu sempre lembrarei de ti. Quem é você?”
Layale: “Você está me destruíndo. Você é bom para mim”
Antoine: “Como eu poderia saber que essa cidade é perfeita para o amor?”
Layale: “Você é bom para mim. Você está me destruindo.”
Antoine: “Eu já estou te esquecendo. Olhe para mim, me faça lembrar de ti. Beyrouth… Meu amor, esse é o seu nome.”
Layale: “Sim, é o meu nome.”
Oscar Tapes
Nadine Labaki: Neste filme a atriz interpreta muito mais que apenas uma mulher enlutada, uma mãe, ou uma ativista política, ela dá corporalidade à própria cidade de Beirute e o povo que vive alí. Se destaca a primeira cena onde sua personagem questiona a visão colonial francesa e a falsa empatia sobre as dores do Terceiro Mundo.
Vicent Cassel: O personagem de Cassel traz uma visão crítica ao arquetipo do white savior, tendo destaque para a sua atuação na sequência da prisão onde sua atuação corporal traz a solidão e o desalento causados pelo fracasso de sua empreitada humanitária.
Yordanos Shiferaw: A atriz descoberta por Labaki em seu filme anterior, “Capharnaüm”, retorna a um papel que dá continuidade à vida de seu personagem no primeiro filme e apresenta uma possibilidade de um futuro esperançoso para a narrativa e para a classe social que representa, com destaque para a cena da negociação da soltura de Antoine com os militares.
Trilha Sonora
Underworld
Desh: Ave Maria
Sahar’s Wedding
Zeyn
Fotografia
O filme não enviou material para a prova de fotografia.
Figurino
O filme não enviou material para a prova de figurino.
Notícias e Imagens
Confira todas as notícias da temporada e imagens de campanha nas revistas Visions e That’s Gossip.
Prêmios
Total de 2 prêmios e 15 indicações. Clique aqui para ver todos os prêmios da 4ª temporada.
1º Festival de Berlim
- Grande Prêmio do Júri (venceu)
- Urso de Prata de Direção, Nadine Labaki (venceu)
1º MTV Movie Awards
- Herói ou Heroína, Yordanos Shiferaw (indicada)
4º Globo de Ouro
- Filme Estrangeiro (indicado)
- Atriz de Drama, Nadine Labaki (indicada)
- Ator de Drama, Vincent Cassel (indicado)
4º BAFTA
- Direção, Nadine Labaki (indicada)
- Atriz, Nadine Labaki (indicada)
- Ator, Vincent Cassel (indicado)
- Atriz Coadjuvante, Yordanos Shiferaw (indicada)
- Direção de Elenco (indicado)
- Filme em Língua Não-Inglesa (indicado)
4º Oscar
- Filme Internacional (indicado)
- Trilha Sonora Composta para Cinema, Khaled Mouzanar (indicado)
Premiações da Crítica
- Filme Estrangeiro (1 vice)
Temporadas Posteriores
Nota: prêmios e indicações recebidos em temporadas posteriores não são contabilizados no ranking da temporada de lançamento do filme.
1ª Mostra de Cinema de São Paulo
- Seleção Oficial
Críticas do Júri
90
Associación de Críticos de Cine Pastuzo
“Beyrouth, Mon Amour” é uma obra impetuosa que transcende a si própria. Seguindo “Cafarnaum”, Nadine Labaki retorna aqui ainda mais direta nas questões que busca levantar ao espectador. O realismo épico (se é que há uma forma justa de definir o que a diretora captura) abre espaço também para momentos mais intangíveis, dominados pelos seus símbolos e a poesia dura que eles recitam. O quarto de hotel, cenário desses momentos, permite que uma Nadine Labaki e um Vincent Cassels sem máscaras, estabeleçam esse contraste com suas performances pujantes. De volta às ruas da Beirute real, com seus personagens reais – dando o merecido destaque a Yordanos Shiferaw – vemos as injustiças e contradições, acentuadas pelos eventos recentes, serem retratados de maneira quase tangível pelas lentes de Christopher Aoun. Nessas imagens há sofrimento, há desordem, mas também há beleza, o que não significa que há romantização. O desenrolar da trama aqui chega um pouco apressado, mas não faz mal. Depois de nos provocar, dilacerar, e despertar com momentos calcinantes, como se antecipasse e ironizasse um fatídico “reset”, Labaki nos leva de volta ao mesmo quarto no início onde os versos finais são recitados. A visita é um tanto breve, mas “Beyrouth, Mon Amour” é memorável.
85
Joseph Wilker Film Critics Association
O filme de Nadine Labaki traz um romance ficcional ao meio de uma questão social – busca por justiça pelas vítimas da explosão no porto de Beirute. Devido ao fato de ser baseado em um evento real, o filme em muitos aspectos possui a atmosfera de um documentário. Filme cru que traz questões como a colonização e desigualdade social. O relacionamento entre o homem de primeiro mundo colonizador com a mulher de um país colonizado. Narrativa pesada mas a diretora conseguiu dar uma leveza a temática.
80
Gotham City Film Critics Secret Society
“Beyrouth, Mon Amour” traz uma interessante questão de colonizado-colonizador personificado em dois grandes nomes que consegue envolver através de suas linguagens corporais e verbais mesmo com as limitações da pandemia. O uso dos cenários urbanos atrelados à fotografia trazem uma ótima imersão à cidade, que muitos podem não conhecer, assim como a trilha sonora mais pesada. Nadine Labaki se mostra tanto como uma boa diretora como uma boa atriz, e apesar de sucinto, seu roteiro traz várias camadas que deixa o público pensando sobre. PS.: me senti tocado por passar um dia após o meu aniversário, mandem presentes.
78
Rubens Ewald Son Film Critics Association
Em “Beyrouth”, Labaki mostra mais uma vez sua inteligência ao abordar questões sociais e políticas por diversas perspectivas sem ficar isenta ao tema. Com atuações fortes levadas por uma boa direção, o elenco se empenha em mostrar os sentimentos de seus personagens com louvor, porém por mais que o filme se preocupe com essas múltiplas experiências, nenhuma delas é realmente explorada, tendo um certo vazio presente em algumas passagens. No geral, Labaki retorna com um bom filme onde a realidade é explorada com um intuito claro mas com pouca profundidade.
77
Cinema Contestado – União Catarinense de Críticos de Cinema
Arte e discurso se harmonizam em Beyrouth, Mon Amour. Três narrativas – parciais e fragmentadas – contam ao público uma história social e política com as nuances necessárias. A complexidade do cenário visível e invisível é vivido de maneiras diferentes pelos personagens, cada um encarnando um conjunto de relações distinto. O mérito da obra é escapar das narrativas totalizantes e apresentar com cuidado os elementos que compõem o quadro. O desafio, porém, não vem sem seus obstáculos. Ao focar no ponto de vista dos personagens, a narrativa que os costura parece sumir e reaparecer de formas inconstantes. Em momentos, temos a impressão de acompanharmos três histórias independentes que por acaso acontecem no mesmo ambiente.
74
San City Film Critics Association
Com um diálogo inicial que remete a Hiroshima Mon Amour de Alain Resnais, Nadine Labaki constrói um cenário interessante em Beyrouth, Mon Amour. Assim como outros projetos da diretora, o longa tem cenas muito marcantes do espaço urbano das ruas do Líbano, fazendo com que cada plano seja destacado pela realidade ao redor dos protagonistas e os figurantes. O viés político do longa é potente e impactante, outra característica que não falta nos outros longas da diretora, e aqui ainda temos a forte conexão entre Layale e Antoine, que mesmo em meio a todo o caos que assola o Líbano desde a explosão no Porto de Beirute, encontram um no outro uma paixão avassaladora. Impossível não se emocionar com a última cena em que eles se reencontram e se beijam desesperadamente, se entregando ao ardor daquele momento, daquela paixão.
70
Oz Film Critics Society
A sensação que fica ao final do filme é de que ou poderia ser um curta-metragem ou as histórias ali contidas foram pouco exploradas. Há momentos sensíveis e emotivos, porém, sabemos tão pouco dos personagens que suas relações parecem superficiais. O grande destaque vai para a direção de arte aliada a fotografia, que retratam de forma bela e devastadora a realidade mostrada.
70
Rio Film Critics Circle
Com uma compreensível e muito arriscada a proposta de filme, Nadine dirige e roteiriza mais um filme como uma forma de denúncia, só que os fatores não ornam, o real convulsiona com o fictício e acaba por não causar um arrepio sequer no público, apesar de sério, o filme não nos convence muito. O enquadramento da cena do Dias das Mães é desajeitado e serve apenas para interromper a história, o cenário que se cria não é convincente e soa um pouco artificial. A atuação que Cassel e Nadine entregam está no ponto, assim como trilha e fotografia. Se fosse mais expansivo o enfoque da trama, e não, de certa forma, pequeno, ela funcionária perfeitamente.
Comentários do Público
Em breve.
