de Oliver Stone
produzido por Bruno S.
com Timothée Chalamet e Cate Blanchett
6 de junho de 2021 (Especial de 1 Ano)
🇺🇸 Estados Unidos, 🇨🇺 Cuba
Drama / Guerra
Sinopse: Havana, 1958. Enquanto os cubanos se organizam para uma das revoluções mais importantes do século, um jovem norte-americano sem muitas perspectivas descobre-se um socialista disposto a lutar. Para isso, entretanto, terá de enfrentar seu pai, que ele acredita ser um agente da CIA.
Nota: esta é uma versão estendida e remasterizada de Verano (2020). Clique aqui para ler a obra original e conferir suas críticas, notas e premiações.
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Ficha Técnica
Direção: Oliver Stone
Roteiro: Oliver Stone
Produção: Bruno S.
Fotografia: Vittorio Storaro
Música: Eumir Deodato
Figurinos: Gabrielle Pescucci
Distribuição: Columbia Pictures
Plataforma: Catflix
Elenco
Timothée Chalamet como Billy Berenson
Cate Blanchett como Loretta Berenson
Chiwetel Ejiofor como Reed Mayfield
Ethan Hawke como Tom Berenson
Nota do produtor
Há exatamente um ano, Verano estreou no 2º Festival de Veneza como um dos filmes mais divisivos da história do Award Season Game Show. Seus entusiastas o apontaram como uma história envolvente sobre crescimento e descoberta inserida num importante contexto histórico, enquanto seus detratores acusaram o filme de forçar um protagonismo branco e norte-americano numa história que deveria pertencer ao povo latino.
Menos sabido é que, antes do lançamento, o diretor Oliver Stone precisou cortar parte da sua visão original por razões mercadológicas — do seu argumento original, de oito páginas, restaram cinco, retirando do filme alguns dos seus momentos de aprofundamento em questões políticas e nas relações entre seus protagonistas.
Esta nova versão chega com o objetivo de reparar algumas das pontas que foram perdidas no corte anterior, tentando suscitar, quem sabe, uma revisão sobre a obra, seus eixos temáticos e sua recriação histórica/política. Aproveitem.
Narrativa
Ouvimos o som das ondas que abre “Love Island”. Da tela preta, surge em fade-in o seguinte texto introdutório:
É o verão de 1958 e o florescer de uma nova era em Cuba.
A ditadura de Fulgencio Batista, alinhada aos Estados Unidos e mais do que satisfeita em manter o país como o parque de diversões do império, perde apoio a cada dia.
Enquanto isso, as forças revolucionárias, lideradas por Fidel Castro e Che Guevara, montam bases nas montanhas da Sierra Maestra e realizam ações cada vez mais bem-sucedidas pela tomada do poder.
Na primeira batida da música, a imagem se abre nos portões do luxuosíssimo Hotel Nacional de Havana num dia perfeitamente ensolarado. Nos movemos lentamente em direção ao interior do complexo, revelando, num longo plano-sequência, um ambiente de profunda e decadente opulência. Pelas feições dos hóspedes ali circulando, percebemos tratar-se em sua maioria de norte-americanos e europeus, todos vestidos com majestosos trajes de banho, vestes praianas finamente cortadas e todos os tipos de plumas e paetês.
Avançamos pelas piscinas e áreas externas do hotel e entramos pelo prédio em si, uma belíssima construção art-déco que, para os olhares mais atentos, já começa a mostrar alguns sinais de decadência. Passamos pelo lobby de entrada, com homens de ternos finíssimos e mulheres com vestidos espalhafatosos aguardando suas fartas bagagens serem carregadas nos carrinhos de transporte pelos mensageiros.
A viagem pelo mundo hermético do Hotel Nacional segue pelo cassino, com grandes montes de fichas sendo trocados por gordos maços de dólares, e pelo restaurante, onde faisões inteiros, caviares requintadíssimos e outras iguarias totalmente descoladas da culinária cubana são servidas aos hóspedes. O tempo vai passando rápida e magicamente durante o plano-sequência: quando chegamos ao bar, finamente revestido com paredes de veludo vermelho e detalhes num reluzente dourado, já é noite, e a fraca iluminação artificial reflete na fumaça que sai dos inúmeros cigarros e charutos sendo pitados pelos homens e mulheres, que estampam seus sorrisos escandalosos e drinques fluorescentes.
Subimos por um dos elevadores lindamente ornamentados do hotel e viajamos pelos seus corredores, encontrando, de vez em quando, com algumas portas abertas — vislumbrando, por poucos segundos, a vida íntima (e um pouco menos sorridente) dos hóspedes. Entramos, enfim, em um dos quartos, onde os móveis luxuosos contrastam com as roupas espalhadas pelo chão e alguns pôsteres de Buddy Holly colados sem muito cuidado nas paredes. Vemos, então, Billy Berenson (Timothée Chalamet) debruçado sobre a sacada do seu quarto, observando o universo desvairado do Hotel Nacional com um olhar vazio, de profundo desinteresse.
I
O torpor de Billy é interrompido por uma leve batida na porta. Sua mãe, Loretta (Cate Blanchett), com um longo robe de seda, olha com um sorriso desanimado para o filho. “Ele chegou. Está nos esperando para jantar”, diz. Billy apenas olha.
No restaurante, Billy e Loretta sentam-se com Tom (Ethan Hawke), o patriarca da família. A expressão sisuda dele contrasta com o ambiente de frivolidade que os cerca. Ninguém fala. Loretta, para tentar puxar assunto, pergunta como foi a viagem. Tom responde que foi proveitosa: ele conseguira um contrato mais vantajoso com os agricultores de Cienfuegos para vender insumos aos Estados Unidos, o que rendeu elogios da chefia em Nova York. “Ser representante comercial também tem suas emoções”, diz Tom, com um sorriso sem graça, olhando para Billy. O filho retribui com um outro sorriso não muito emocionado. Tom pergunta, então, o que os dois andaram fazendo nas últimas semanas. Loretta, num tom monótono, responde que o de sempre: cassino, piscina, festas, spa, serviço de quarto — sua vidinha comum. O assunto morre. Os três comem em silêncio.
Alguns dias se passam. Numa tarde ensolarada, Billy circula pela área da piscina, com suas habituais feições de tédio. Ele percebe uma figura destacar-se em meio aos hóspedes: contrastando com a atmosfera de diversão e risadas, Reed Mayfield (Chiwetel Eijofor) adota uma expressão também de tédio, observando seus arredores vestido em um elegante terno branco enquanto dá pequenos goles numa margarita.
Billy senta-se numa chaise longue próxima a Mayfield. Alguns momentos depois, Mayfield vira-se para o jovem e fala: “você também não parece estar se divertindo muito”. Billy ri, e os dois começam a conversar. Mayfield conta que é jornalista do The Guardian, enviado de Londres para cobrir os episódios de convulsão social em Cuba. Billy faz uma expressão confusa, e Mayfield logo deduz que o rapaz não faz a mínima ideia do que está acontecendo para além dos muros do Hotel Nacional. Numa longa conversa, Mayfield traça para Billy um histórico da situação política de Cuba, a dominação do país pelos Estados Unidos, o enfraquecimento do poder de Fulgencio Batista, a insatisfação popular com a ditadura e a organização das forças revolucionárias. Mayfield vai, aos poucos, deixando de lado a imparcialidade jornalística no seu relato e dando tons apaixonados à explicação. Billy, por sua vez, parece cada vez mais envolvido pelas palavras do homem — e vemos, pela primeira vez, um sinal de vida nos seus olhos.
Ao longo das semanas seguintes, a amizade entre Billy e Mayfield se fortalece, com longas conversas à beira da piscina. Aos poucos, o jovem vai percebendo que a presença do jornalista em Cuba não é meramente profissional: Mayfield está ali, também, com uma agenda pessoal oculta de compromisso com os ideais socialistas e de colaboração com as forças revolucionárias. Ao mesmo tempo, Billy vai tornando-se cada vez mais interessado na luta proletária, expressando ao amigo uma vontade cada vez maior de juntar-se à revolução. Mayfield, por sua vez, vai usando toda a sua eloquência para “moldar” um jovem socialista, dando sorrisos satisfeitos todas as vezes que Billy diz, com um brilho ingênuo nos olhos, que quer juntar-se aos cubanos.
A “nova fase” de Billy, embuída de um propósito, melhora até mesmo sua relação com seus pais: ele torna-se um filho mais participativo e até mais afetuoso, surpreendendo Tom e Loretta. Os três jantam juntos, assistem a apresentações no bar do Hotel Nacional e até arriscam a sorte no cassino juntos — enquanto Mayfield observa a família discretamente nas áreas comuns do hotel.
Algumas semanas após a primeira conversa, Mayfield diz a Billy que o jovem está pronto e pode começar a colaborar com a revolução; Billy, excitado, pergunta o que deve fazer. O jornalista explica ao jovem, então, sobre a Operação Verano, uma ofensiva em planejamento no exército de Batista que, se bem-sucedida, destruirá todas as forças insurgentes da ilha. Mayfield afirma, ainda, que suas investigações indicaram que, como parte da operação, há um agente da CIA instalado no Hotel Nacional, trabalhando com o governo cubano para repassar recursos, armas e inteligência contra os revolucionários. E todas as investigações de Mayfield levam a um suspeito: Tom.
Billy arregala os olhos, atônito. Mayfield diz que Tom é a suspeita mais óbvia: um norte-americano em Cuba, que passa semanas longe de “casa” realizando trabalhos ocultos em outras partes do país e tem uma fonte de renda incompatível com o padrão de vida da família. O jornalista, então, anuncia que a missão de Billy é de contrainteligência: ele devear infilitrar-se nos pertences do pai para encontrar informações sobre a Operação Verano e repassá-la aos revolucionários, permitindo que as forças insurgentes se preparem antes dos ataques e escapar ou responder à altura. Billy, ainda chocado, assente com a cabeça. Ouvimos os primeiros acordes de “Soy Rebelde”
II
Ao som da canção de Jeanette, acompanhamos uma montagem que mostra Billy tentando cumprir sua missão. Tom começa a se ausentar do hotel com mais frequência, e vemos Loretta acompanhar com os olhos melancólicos cada saída do marido. Billy, por sua vez, aproveita os momentos de ausência da mãe para vasculhar o quarto dos pais, eventualmente encontrando um compartimento escondido no fundo de um dos armários. Lá estão todos os documentos secretos buscados pelos revolucionários: calhamaços e mais calhamaços de papéis timbrados da CIA, com seções inteiras censuradas e, não obstante, informações valiosas sobre a Operação Verano. Billy copia as informações importantes e as repassa para Mayfield, que, por sua vez, transmite as descobertas para as bases revolucionárias por meio de um telégrafo clandestino.
A montagem termina e passamos a acompanhar Mayfield, em busca de outras fontes de informação. Em um dos períodos de ausência de Tom, o jornalista nota a presença de Loretta no bar do hotel nacional. Sentada sozinha ao balcão, ela estampa uma expressão melancólica, observando uma apresentação musical no palco do ambiente, lentamente fumando um cigarro cuidadosamente engastado numa luxuosa piteira. Mayfield senta-se ao lado de Loretta e pergunta se ela esta sozinha. Ela diz que sim.
Os dois começam a conversar. Loretta diz que notou a presença do jornalista nas últimas semanas e que nunca conseguiu desvendar sua real natureza. Mayfield, por sua vez, fala sobre como a beleza dela chamou sua atenção desde o primeiro momento. Ele pergunta o que Tom acharia daquela conversa. “Ele tem outras prioridades”, diz Loretta, num tom levemente amargo.
A noite avança, o nível alcóolico dos dois sobe e a conversa se aprofunda. Loretta abre-se para Mayfield, contando a história do seu casamento: os dois conheceram-se ainda jovens em Nova York, quando Tom era um jovem roteirista fracassado com tendências de esquerda. Mayfield levanta uma sobrancelha discretamente. Loretta fala sobre o nascimento de Billy e a vida difícil que a família teve nos primeiros anos da infância do garoto, especialmente com a perseguição sofrida por Tom pelos agentes do Macarthismo. Para escapar da prisão, Loretta revela, Tom precisou abandonar suas pretensões artísticas, abraçar uma carreira medíocre no mundo dos negócios e se mudar com a família para Cuba.
Com os olhos marejados, Loretta fala sobre como aquela vida de frivolidades não passa de um véu de aparências, forjado ao longo dos anos para disfarçar o vazio profundo de cada um dos três — Tom, Loretta e Billy. Mayfield se aproxima dela para secar uma das suas lágrimas, e o toque dos dedos do jornalista em seu rosto faz com que Loretta feche os olhos. Ouvimos “Échame a Mi La Culpa” conforme Mayfield aproxima seu rosto do de Loretta, e os dois se beijam entre a fumaça do ambiente.
A música segue conforme seguimos Mayfield e Loretta rumo ao quarto dele, onde os dois têm uma ardente noite de amor à luz de velas.
No dia seguinte, Mayfield revela a Billy as informações que descobriu de Loretta sobre o passado de Tom. Os dois criam a hipótese de que Tom foi coagido pela CIA a trabalhar para a agência para escapar da prisão, o que adiciona uma camada extra à missão de Billy: agora, ele precisa encontrar uma forma de se conectar com o pai para, quem sabe, convencê-lo a mudar de lado e começar a colaborar com os comunistas. Ao mesmo tempo, Billy nota algo novo no comportamento de Mayfield: todas as vezes que ele cita o nome de Loretta, seus olhos transparecem um leve brilho.
No telégrafo, Mayfield recebe uma mensagem de agradecimento dos revolucionários. Eles afirmam que já têm todas as informações necessárias para realizar os contra-ataques em relação ao exército de Batista, e que as ações definitivas da revolução estão próximas. O jornalista diz a Billy que aquele é o momento de partir: no dia seguinte, ele seguirá para as montanhas de Sierra Maestra, do outro lado da ilha, onde as forças revolucionárias se reúnem para planejar o ataque final sobre a ditadura de Batista. Billy pede para ir junto, mas Mayfield nega: o jovem não tem treinamento de combate, e será mais valioso seguindo na sua missão atual, repassando — agora, por conta própria — informações confidenciais da CIA aos comunistas.
Percebendo que Tom ainda está ausente, Mayfield convida Loretta para um jantar no restaurante do hotel. Depois de alguns drinques, ele anuncia à amante que aquela é a sua última noite em Havana. Loretta, arrasada, pergunta o motivo. Mayfield, já levemente alcoolizado, deixa de lado seu disfarce e revela sua lealdade aos comunistas, explicando que partirá para a base da revolução na manhã seguinte. Loretta não consegue segurar as lágrimas, e Mayfield gentilmente repousa sua mão sobre a mão dela.
Neste momento, os dois são surpreendidos por Tom. “Espero não estar interrompendo nada”, diz ele, muito sério, enquanto Loretta e Mayfield rapidamente se separam e ela tenta disfarçar as lágrimas. Loretta tenta se explicar, apresentando Mayfield como um jornalista britânico que a convidou para uma entrevista sobre a vida de norte-americanos em Cuba. Mayfield, por sua vez, explica que ela acabou se emocionando enquanto falava sobre a situação cubana, e ele simplesmente tentou acalentá-la. Tom observa os dois por alguns momentos e se vira, sem dizer uma palavra. Loretta sai atrás dele, lançando um último olhar a Mayfield.
No quarto, Tom e Loretta têm uma briga explosiva. Os dois despejam os anos de mágoa que guardaram durante anos, acusando um ao outro de falta de afeto, responsabilidade e interesse. Tom anuncia que vai deixar a esposa. Loretta se cala, segurando o choro, enquanto Tom começa a reunir seus pertences numa mala para partir no dia seguinte.
Na manhã seguinte, Billy acorda com uma batida na porta do seu quarto. É Tom, segurando uma mala nas mãos. Ele entra e senta-se na cama, parecendo ter dificuldade para falar o que tem a dizer. Um tanto quanto sem jeito, Tom anuncia sua partida, afirmando que seu casamento com Loretta terminou e lamentando não ter mais tempo para conversar com o filho. Billy pergunta para onde o pai está indo. Tom responde que ainda não sabe — que precisa apenas ir embora, procurar um novo lugar e, em breve, entrará em contato. Billy, receoso que a partida do pai comprometa sua missão, tenta convencê-lo a ficar, mas Tom parece ser irredutível; a cada pedido de Billy, entretanto, o pai fica mais comovido com a insistência do filho em não deixá-lo. Como uma medida desesperada, Billy revela a Tom que sabe sobre o seu passado de esquerda, a perseguição que ele sofreu pelos Macarthistas e tudo que ele precisou abrir mão para proteger sua família. Tom fica profundamente emocionado e diz que, quando a poeira baixar, os dois poderão ser grandes amigos — naquele momento, entretanto, ele precisa partir. Billy não sabe mais o que dizer e os dois ficam alguns segundos em silêncio, olhando um para o outro. Então, este momento de profunda conexão é bruscamente interrompido por um grito feminino e um rebuliço nos corredores do hotel.
Tom e Billy saem do quarto para checar o que está acontecendo, chegando a uma grande aglomeração na extremidade oposta do corredor. Billy se mete entre as pessoas e seu rosto adquire uma expressão de absoluto pânico quando ele vê o que há dentro do quarto: Mayfield sentado em uma poltrona, morto com um tiro no peito.
A expressão de horror no rosto de Billy logo transforma-se em fúria: ele se vira contra Tom, golpeando inabilimente o pai enquanto o acusa de ser responsável pela morte de Mayfield. Tom, perplexo, tenta se proteger dos golpes desajeitados do filho. Enquanto isso, Loretta, ainda em suas vestes de dormir, chega ao quarto. Enquanto separa o marido do filho, ela tenta disfarçar a expressão de profundo choque ao ver o corpo de Mayfield. A polícia afasta os três, junto com o restante da multidão, da cena do crime.
Tom pega sua mala e dirige-se à saída do hotel. Billy tenta segurá-lo, acusando-o de ser um agente da CIA e de ter ordenado a morte de Mayfield. Tom se desvencilha do filho, enquanto Loretta segura Billy e ordena que ele vá para o seu quarto. Tom parte, enquanto mãe e filho fecham-se no quarto — Loretta sentada à borda da cama, e Billy sentado no chão, apoiado na parede, com as mãos no rosto.
Os dois passam bons momentos em silêncio, até que Billy revela saber de tudo. Ele diz saber que o pai é um agente da CIA, que ele certamente obteve as informações repassadas por Mayfield e que está, naquele momento, provavelmente indo até as montanhas com as tropas de Batista para aniquilar a revolução.
Loretta dá um sorriso triste e revela toda a verdade para Billy: ela é a verdadeira agente — sempre foi, desde os tempos de Nova York, quando foi instruída pelos Macarthistas a envolver-se com Tom para monitorar seu envolvimento com os comunistas. Tom não tem nenhuma relação com a CIA e não tem ideia da real identidade de Loretta; ele levou a família a Cuba para escapar da perseguição e, ao mesmo tempo, colaborar com os revolucionários — revelando, sem saber, seus segredos para a CIA por meio de sua esposa. Há algum tempo, Loretta percebeu as suspeitas de Billy e passou a colocar pistas falsas nos pertences de Tom, para divergir a atenção do filho. Com um olhar de extrema culpa, ela diz que Mayfield não precisava morrer — ela simplesmente repassou as informações reveladas por ele para o exército de Batista, que matou o jornalista sem a autorização dos EUA.
Billy levanta-se, horrorizado, e percebe que passou informações falsas para os revolucionários; Loretta confirma, afirmando que a resistência será exterminada nos próximos dias. O rapaz então deduz que Tom está indo juntar-se aos guerrilheiros — e, portanto, caminhando para a própria morte. Sua mãe simplesmente balança a cabeça positivamente, com um olhar triste. Billy sai em disparada, ignorando os pedidos de Loretta para que fique.
III
Acompanhamos Billy enquanto ele deixa o Hotel Nacional. Vemos o rapaz observar o mundo fora das cercas do seu mundo, encontrando uma realidade muito diferente daquele microcosmo em que ele viveu por tantos anos: pela primeira vez, Billy experimenta o mundo real, e a realidade dura dos cubanos empobrecidos chega como um choque para o rapaz. Ao som de “500 Miles”, vemos Billy embarcar em um ônibus rumo a Santiago de Cuba, aos pés das montanhas da Sierra Maestra — para onde, presume-se, Tom também está indo.
No trajeto, Billy entreouve a conversa de um grupo de jovens rapazes, ainda mais novos que ele, todos também destinados à base revolucionária nas montanhas. Billy não deixa de soltar um leve sorriso de autodepreciação: olhando pela janela e observando as ruas, as casas, os campos e as vidas, o seu olhar transparece um entendimento recém-descoberto — o entendimento de que aquela luta é muito maior do que ele, e qualquer ambição pessoal ou vontade de pertencer a algum lugar é apenas uma vaidade sua. A questão ali é o futuro de um país, e não os sentimentos de um garoto estrangeiro.
O ônibus faz uma parada em uma pequena vila rural, onde embarca um rapaz mais ou menos da idade de Billy. O rapaz, munido de uma pequena mochila e com um olhar inseguro, senta-se ao lado de Billy e, após alguns momentos, puxa um sanduíche da sua bagagem. Notando o olhar de Billy, o rapaz oferece uma mordida da refeição ao seu companheiro de viagem; Billy pede desculpas pela indiscrição e diz que está sem fome. Os dois passam o restante do trajeto conversando: o rapaz apresenta-se como Arturo e, assim como Billy e os demais jovens no ônibus, está rumando em direção às montanhas. Arturo vem de uma família de agricultores cada vez mais empobrecida, por conta das cláusulas draconianas impostas pela ditadura de Batista; ele diz que recebeu treinamento de algumas células comunistas na sua vila e, agora, está indo à base revolucionária para juntar-se à luta armada definitivamente. Arturo diz estar disposto a dar sua vida pela revolução. Billy se cala, assombrado.
Enquanto isso, ainda no hotel, Loretta percebe que Billy fugiu para juntar-se ao pai nas montanhas. Ela se vê num intenso conflito: ou continuar servindo ao seu país e à CIA, permitindo que a revolução seja esmagada, ou trair sua lealdade para salvar o marido e o filho — e, no processo, permitir que o processo revolucionário sobreviva. Vemos Loretta em seu quarto, sem hesitar, datilografando um telegrama misterioso; em seguida, ela sai rapidamente.
Billy, Arturo e os demais jovens desembarcam em Santiago na calada da noite. Juntos, em total silêncio, eles marcham em direção às montanhas, iluminados apenas pela lua e escondendo-se de todos os pelotões do exército espalhados pela cidade e pelo campo. Em diversos momentos, Arturo precisa guiar Billy, visivelmente desorientado e sobrecarregado pela responsabilidade a que se autoimpôs.
O grupo chega ao acampamento na manhã seguinte, e Billy inicia uma busca por seu pai perguntando aos presentes sobre um norte-americano na faixa dos 50 anos. Eventualmente, ele consegue encontrar Tom, que inicialmente exibe uma expressão confusa e amedrontada ao ver o filho naquele lugar. Billy explica quase tudo — fala sobre sua relação com Mayfield, os documentos da CIA, sua fuga do hotel e tudo o que aconteceu nas últimas semanas, omitindo somente o papel de Loretta nos eventos recentes. A expressão de Tom vai rapidamente se transformando em um profundo orgulho do filho, mas ele continua preocupado: Billy não tem qualquer treinamento de combate, e poderá ser um alvo fácil caso o exército ataque. Billy não sabe o que responder, mas diz que todos os revolucionários precisam deixar rápido a base: as tropas de Batista já sabem a localização do acampamento, e a Operação Verano será executada a qualquer momento.
Tom e Billy juntam-se a Arturo e os demais jovens do ônibus; eles alertam os líderes da base sobre as informações mais recentes. Juntos, todos começam a planejar uma contingência de retirada, mas é tarde demais: o grupo avisa no horizonte dezenas de jipes e caminhões, carregados de soldados, rumando em direção à base revolucionária.
Tom se desespera, e pede a Billy que fuja: ele, Tom, tem algum treinamento de combate realizado ao longo dos últimos anos, mas não o suficiente para conseguir lutar e proteger o filho ao mesmo tempo. Billy nega, dizendo que ficará para ajudar os revolucionários; Tom, exasperado, implora para que o filho se esconda e sobreviva para as próximas lutas. Arturo e o grupo de jovens, então, se aproxima; o rapaz diz que todos podem ficar juntos e o grupo poderá, na medida do possível, dar cobertura a Billy. Tom ainda se mostra contrariado, mas o tempo é curto demais: os caminhões do exército já se aproximam do acampamento, e as tropas começam a marchar em direção aos revolucionários.
Um confronto violento se inicia. O exército de Batista, em maior número e com poder de fogo vastamente superior, consegue se impor sobre os revolucionários, causando muitas baixas; Tom, Billy, Arturo e os jovens conseguem se instalar em uma posição estratégica, atingindo alguns soldados e desviando dos tiros; Billy, sem experiência de tiro, arrisca-se em campo aberto para levar outros revolucionários ao ponto estratégico, desviando do fogo cruzado no processo — para o desespero de Tom.
O plano, entretanto, dá certo apenas até certo ponto. Os soldados de Batista conseguem superar a primeira linha de defesa dos comunistas, e avançam em direção ao acampamento, destruindo as instalações revolucionárias e matando mais um grande número de combatentes. O grupo reunido com Tom, Billy e Arturo vai aumentando, e rapidamente todos os revolucionários ainda de pé encontram-se escondidos naquele ponto estratégico — e vão sendo cercados pelo exército. Os soldados exigem que o grupo saia do esconderijo e se entregue, ou eles atirarão.
Tom percebe que está tudo perdido e, naqueles breves momentos entre a vida e a morte certa, tenta compensar anos de silêncio, falando atropeladamente sobre sua vida, sua militância, o amor profundo que sempre sentiu por Billy sem conseguir exprimi-lo e a esperança de um futuro melhor para Cuba. Billy, exibindo a sabedoria e a mudança que sofreu nas últimas semanas, simplesmente acalenta o pai, falando que tudo vai ficar bem — o que importa é que ambos estão ali, naquele momento.
Um jipe vai se aproximando da área onde os revolucionários se escondem. Os poucos guerrilheiros ainda em condições de lutar se levantam e dirigem-se para a saída do esconderijo, dispostos a gastar o pouco que ainda resta de munição e cair atirando. Cansados demais para fugir, eles aguardam bravamente enquanto o carro chega a poucos metros de distância. A câmera pega os pés que descem do jipe, calçados em um scarpin vermelho. É Loretta.
Ela exibe seu distintivo da CIA e exige que os soldados de Batista abaixem as armas. Um dos soldados questiona as ordens, e ela retribui com um sorriso irônico: “se você não quer seguir minhas ordens, por que não consulta seu superior, soldado?”. O soldado, aborrecido, entra em contato com a base do exército pelo dispositivo de comunicação instalado em um dos jipes. Contrariado, ele confirma que a ordem é a de bater em retirada. O exército, então, se dispersa.
Os revolucionários saem do esconderijo. Os olhos de Loretta vasculham os combatentes e rapidamente encontram Billy. Ela não consegue conter o suspiro de alívio. Tom e Billy, estupefatos, perguntam o que está acontecendo. Loretta diz que apenas fez o próprio trabalho: enviou aos seus superiores um telegrama informando que as tropas de Batista estavam perdendo força internacional a cada dia, especialmente após o assassinato a sangue frio de um jornalista britânico, e que a revolução seria iminente; seria, portanto, inteligente por parte dos Estados Unidos retirar o apoio ao ditador e começar a construir uma relação amistosa com o futuro governo. O exército cubano, alinhado muito mais aos EUA do que a Batista, acatou a ordem.
Tom, perplexo, pergunta o que tudo aquilo significa Loretta pede desculpas e diz que, um dia, tudo será explicado para ele — mas aquele não é o momento.
Billy lamenta que o apoio tenha chegado tão tarde, mas Arturo responde que não é tarde demais: naquele exato momento, Fidel e Che estão reunindo outras tropas revolucionárias em Santiago e a luta continuará. Todos saem marchando para a cidade; Tom e Billy ficam para trás momentaneamente, frente a Loretta.
Ouvimos os primeiros acordes de “La Partida”, de Victor Jara, enquanto os três trocam olhares e dizem todas as palavras sem pronunciar uma sequer — é uma despedida, já que Billy e Tom seguirão com os revolucionários enquanto Loretta deverá voltar para servir aos EUA. E, por um momento fugaz, eles são uma família.
Tom e Billy viram-se e começam a caminhar junto com os outros revolucionários, sumindo entre as montanhas. Fechamos no rosto endurecido de Loretta, que não consegue segurar uma lágrima. Corte para a tela preta; a música continua tocando enquanto rolam os créditos.
Oscar Tapes
Timothée Chalamet: Billy revela a Loretta que sabe de toda a verdade e, no processo, despeja sobre ela os anos de mágoa pelo silêncio e pelo afastamento dos pais.
Cate Blanchett: Loretta abre-se com Mayfield, lamentando os rumos que as coisas tomaram e mostrando que o mundo de luxo e frivolidades em que vive é nada mais do que uma máscara.
Chiwetel Ejiofor: Deitado numa espreguiçadeira à beira da piscina, Mayfield faz uma defesa apaixonada dos seus ideais socialistas para Billy.
Ethan Hawke: Nas trincheiras, pensando estar próximo da morte, Tom abre-se com Billy e, de forma desajeitada, tenta pôr para fora anos de silêncio na relação com o filho.
Proposta Estética
Sem filtro amarelado. Os dois primeiros atos, no Hotel Nacional, são uma combinação de Sabrina (1954) e Goldfinger (1964) com a estética burguesa da Cuba pré-revolução: cenários opulentos, figurinos luxuosos de Gabriella Pescucci e uma fotografia quente e bem-iluminada de Vittorio Storaro, com uso abundante de steadicams para movimentos suaves e elegantes — tudo isso pontuado pela trilha de Eumir Deodato, um jazz-funk setentista com arranjos sofisticados e orquestrações complexas.
O ponto de virada, quando Billy deixa o hotel, marca uma revolução estética: os tons tornam-se mais vivos e realistas, faz-se mais uso da câmera na mão e a trilha de Deodato é substituída por canções do Buena Vista Social Club e de Victor Jara.
Nota: todos os acontecimentos históricos retratados no filme, como a Operação Verano e a decisão dos EUA de retirar o apoio à ditadura de Batista, são verídicos.
