
de Barry Jenkins e Lulu Wang
produzido por Bruno S.
com Steven Yeun e Jamie Lee Curtis
15 de outubro de 2022
🇺🇸 EUA, 🇨🇳 China
Romance, Drama
Um casal recém-formado se entrega a uma paixão profunda e arrebatadora que muda para sempre a vida dos dois. Um casal vaga por corredores de lembranças tentando reacender uma conexão que talvez não esteja mais ali. Amor, sexo, memória, sabor, toque, desejo, textura e saudade se misturam e se confundem nesta meditação sobre o que fica… e o que se torna vapor e escapa pelos ares.
Consenso da Crítica: Em breve.
Média da crítica
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Média do público
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Tomatômetro

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Pipocômetro

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Ficha Técnica
Direção: Barry Jenkins, Lulu Wang
Roteiro: Barry Jenkins, Lulu Wang
Produção: Bruno S.
Fotografia: James Laxton
Figurino: Peter Do
Direção de Arte: Tom Walker
Trilha Sonora: Emile Mosseri, Kaitlyn Aurelia Smith
Distribuição: A24
Plataforma: Catflix
Elenco
Steven Yeun como Alvin
Richard E. Grant como Arthur
Donald Glover como Honey
Jamie Lee Curtis como Bee
Proposta Estética
Vanilla é um filme guiado por sensações. Em termos de roteiro e acontecimentos, pouca coisa acontece — em vez disso, a audiência é convidada a mergulhar em uma história (ou duas, dependendo do ponto de vista) marcada por sons, olhares, gostos, texturas, movimentos e cheiros que vão se desenrolando, se complementando e se metamorfoseando.
Isso, naturalmente, gera um problema: temos cinco sentidos, mas o cinema nos oferece apenas dois — visão e audição. Para isso, embora seja dirigido a quatro mãos, o filme explora em uníssono a sinestesia destes momentos e sensações de todas as formas possíveis: efeitos e metáforas visuais abundantes, design de som amplificado (às vezes assemelhando-se quase a um ASMR), câmeras lentas, close-ups em sorrisos, em toques, em olhares, chaleiras borbulhantes, pêlos que se arrepiam, respirações profundas, corações acelerados, o suor brotando na pele. A matéria em todos os seus estados, do sólido ao vapor, mas principalmente muitos líquidos, muitos fluidos escorrendo. Vanilla é um filme molhado.
A isso se complementam a fotografia naturalista de James Laxton, que usa luzes indiretas e pontos focais luminosos para evidenciar as texturas e os movimentos, e o figurino ultraminimalista, de cores fortes e sólidas, proposto por Peter Do.
A trilha sonora atmosférica de Emile Mosseri e Kaitlyn Aurelia Smith, por sua vez, tem fortes influências da ambient music e prioriza os sintetizadores e sons eletrônicos para dar um contraste dramático ao turbilhão de sentidos extraordinariamente humanos exibidos pela narrativa — mas, ao mesmo tempo, amplifica estes momentos e dá a eles uma nova camada de sonho, quase como um fluxo de consciência filmado.
(Nota: recomenda-se escutar a trilha sonora durante a leitura. Há playlists disponíveis no Spotify e no YouTube.)
Narrativa
Os logos dos estúdios
A vinheta da A24 se inicia da forma comum, ao som de “A Lot Has Changed”. Ao formar o logotipo do estúdio, os caracteres se liquefazem em tintas multicoloridas, movimentando-se pela tela até formar o logo da Catflix. O logo da Catflix, então, também começa a sofrer uma mutação lenta até se transformar, num efeito visual sutil, na imagem de uma ornamentada porta de boate vista de dentro.
I. Drippings
dirigido por Barry Jenkins
A canção que embala o plano-sequência inicial do filme.
“Plastic Love” começa a tocar, colada com o fim de “A Lot Has Changed”. Continuamos vendo a porta da boate.
Alvin (Steven Yeun) abre a porta elegantemente e acompanhamos um longo plano-sequência do rapaz adentrando o clube. Temos o vislumbre de uma nevasca do lado de fora. Vestido com um charmoso sobretudo preto, ele retira a peça e a entrega na chapelaria, revelando um traje vermelho e branco que evidencia as curvas do seu corpo. Ele troca olhares com a atendente. O plano-sequência desliza lentamente pelo lugar acompanhando Alvin, que atrai (e retribui) olhares de muitos dos presentes — a maioria, homens de feições da Ásia Oriental, mas também pessoas de outros lugares. Numa explosão de cores e luzes, Alvin passa altivamente pela pista de dança, onde corpos se encontram e se separam, se tocam e se esfregam, se alisam e se estimulam…
A sequência segue sem cortes conforme Alvin senta-se ao balcão do bar e pede um Manhattan. O tom âmbar da bebida é realçado pela superfície iluminada do balcão, e a cereja negra espetada num palito de metal é tão brilhante que Alvin consegue se ver no reflexo da fruta. Alvin dá um gole e saboreia lentamente a bebida. Ele olha ao redor e percebe que, sentado alguns bancos adiante, Arthur (Richard E. Grant) o observa discretamente.
Momentos depois, os dois estão conversando. Da conversa, tiramos algumas informações: eles estão em Pequim, e aquela boate é frequentada principalmente por imigrantes de outros locais da Ásia oriental, tais como Alvin. Sul-coreano, ele conta que se formou há alguns anos em confeitaria e foi convidado por investidores de Pequim para comandar um projeto de pâtisserie de alto luxo na cidade; o negócio não deu certo e Alvin, sem dinheiro ou motivações para voltar para casa, resolveu ficar e tentar a sorte por conta própria — até agora, sem sucesso. Arthur, por sua vez, é um professor de música londrino que passou a vida morando em diferentes países, estudando e lecionando a sonoridade de cada local. Agora, recém-aposentado, resolveu se estabelecer em Pequim para explorar a música chinesa — o último grande mistério que ele ainda não conseguiu desvendar, explica.
A conversa continua por horas. Alvin e Arthur deixam a boate, já nas altas horas da madrugada, e caminham juntos pelas ruas vazias de Pequim. A nevasca continua, e os dois andam grudados para proteger um ao outro do frio.
Alvin convida Arthur para subir em seu apartamento. Os dois são recebidos aos gritos por Mirai, gatinho preto de Alvin, que está faminto (que, apesar das limitações linguísticas, não tem o seu gênero especificado ao longo do filme). Em seguida, Alvin e Arthur percebem que eles mesmos estão com fome, e Alvin se dirige à cozinha para preparar alguma coisa enquanto Arthur se acomoda no sofá do apartamento minúsculo e modesto.
A preparação dos ovos feitos por Alvin enquanto Arthur observa da sala.
“O que nós vamos comer? Um croquembouche?”, pergunta Arthur, sarcástico. Alvin diz que a despensa está vazia, mas vai se virar. Ele prepara ovos mexidos com um cuidado que uma pessoa raramente daria a tal prato: com um hashi, mistura os ovos com cubos de manteiga gelada antes de levar ao fogo. Mexe o alimento com cuidado na frigideira, atentando-se para que não passe do ponto. Leva duas fatias de pão à torradeira com uma camada generosa de manteiga. Finaliza o prato depositando cuidadosamente os ovos, perfeitamente cremosos, sobre os pães com um uma pitada de flor de sal. Arthur, do sofá, observa Alvin, fracamente iluminado pela lâmpada da cozinha, colocar todo o seu amor naqueles ovos mexidos.
Os dois comem, de mão mesmo, na pequena bancada que serve como mesa, um de frente para o outro. Com a primeira mordida, Arthur ergue a sobrancelha, incrédulo que ovos mexidos possam ser tão gostosos. “São só ovos”, diz Alvin, sorrindo. Eles se olham com uma ternura de duas pessoas que poderiam se conhecer há muitos anos. Arthur oferece um pouco dos ovos a Mirai.
Depois, vemos os dois no sofá, aconchegados e aquecendo um ao outro. Arthur mostra no celular várias fotos dele mesmo nos lugares onde morou ao longo da vida: Londres, Nova York, Istambul, Lagos, Buenos Aires… em todas, Arthur está com uma pessoa diferente.
“Parece que você já teve várias companhias”, comenta Alvin.
“Eu não lembro o nome da maioria deles”, responde Arthur, com uma risada melancólica. “Quando você vive como imigrante por muito tempo, acaba percebendo que sempre estará sozinho, mesmo acompanhado. Não há memória que resista”.
Os dois param em uma foto de Arthur, sozinho, no Rio de Janeiro. Ele diz que nunca chegou a morar no Rio, mas adoraria. Alvin concorda. Arthur abre um aplicativo no celular com um piano virtual e diz que vai tentar tocar uma das músicas brasileiras mais bonitas que conheceu.
A canção que Arthur canta, traduzida, para Alvin.
Com os dois abraçados, Arthur dedilha o piano na tela do celular e canta uma versão singela de “Futuros Amantes”, de Chico Buarque, tomando cuidado para traduzir a letra da música — preservando, o máximo possível, a estrutura e as rimas — para que Alvin possa entendê-la:
Don’t you rush yourself,
there’s time everywhere.
Love does never hurry.
it will always be there in the silence,
the back of a closet,
the general delivery,
for millions of years in the air.
And who knows maybe
then Rio shall be
some lost underwater city.
The divers shall come
to search for your house,
your room, your stuff, your books,
your soul underneath.
Elders shall then
try to decode and hear
the echo of those ancient words.
The pieces of letters, and verses,
and lies, and portraits.
Traces of an old,
weird civilization.
Don’t you rush yourself,
there’s time everywhere.
Love will always be there to be loved.
Maybe future lovers shall love
without a single clue
of all the big love
I once held to love you.
Arthur termina a música. Alvin olha para ele, sorrindo, completamente, perdidamente apaixonado.
Agora, os dois se beijam avidamente na cama de Alvin. Os movimentos aquecem seus corpos, o que permite que as camadas de roupa sejam lentamente retiradas entre os beijos e toques. Alvin, no topo e já despido às roupas íntimas, beija devagar o pescoço de Arthur, descendo pelo seu torso e chegando à cintura. Alvin tira o que resta de roupa dos dois e acompanhamos sua mão esquerda deslizar pelo corpo de Arthur, que fecha os olhos e respira cada vez mais rapidamente. Alvin se delicia com cada milímetro de Arthur, cada fluido que extrai do seu corpo, como se fosse um elixir precioso.
A respiração de Arthur vai ficando mais ofegante conforme os movimentos da boca de Alvin se intensificam. A cama balança, os corpos suam, os suspiros de Arthur ecoam, e vemos ele chegar ao ponto máximo de algo que, notamos, ele não sentia há tanto tempo. A esse ponto, tudo para: ouvimos os acordes iniciais de “Moon In Your Eye” e vemos Alvin, com o orgasmo de Arthur ainda em sua boca, olhar para o amante com um semblante que mistura uma profunda revelação com um deleite absoluto. Alvin se projeta para alcançar a boca de Arthur, e os dois se beijam no momento em que a música atinge sua seção principal (0:43).
Então, algo mágico acontece: os amantes se liquefazem. Seus corpos, a partir dos pontos em que se tocam, começam a derreter, e os fluidos resultantes daquele processo surreal se misturam em câmera lenta numa dança de líquidos multicoloridos que estão ali, eterna e profundamente, ligados.
Para o momento em que Alvin e Arthur se conectam profunda e eternamente. A linha melódica principal da canção (a partir dos 0:43) é também o principal mote sonoro do filme, repetido algumas vezes, em diferentes arranjos, ao longo da narrativa.
Os dias passam. Arthur, que estava morando em um flat até então, se muda para o apartamento de Alvin. Alvin, inspirado pela paixão inebriante que sente e pelas experiências com Arthur, desenvolve uma nova receita: um pudim de baunilha aparentemente simples, mas feito com tal capricho, talvez com algum segredo nunca revelado, que tem um sabor que arrebata qualquer pessoa na primeira colherada. Arthur é o primeiro a provar a criação de Alvin, e cai para trás com o que prova.
“O gosto”, diz Arthur, tentando encontrar palavras. “É indescritível”.
Alvin se aproxima do namorado por trás e o abraça. “Mas e o sabor?”, pergunta. Arthur não entende. Alvin, deslizando as mãos pelo corpo de Arthur enquanto ele continua saboreando o pudim, explica no pé do ouvido do amante: gosto é apenas um sentido, enquanto o sabor é a junção de todos eles — além do paladar, ele envolve também os aromas (olfato), as texturas (tato), a aparência (visão). “E os sons?”, pergunta Arthur, mordendo os lábios. “Essa é a sua área, meu bem, não a minha”, sussurra Alvin em resposta antes de beijar Arthur.
Alvin batiza o pudim de ‘Art’, em homenagem ao namorado, e começa a vender a sobremesa para confeitarias e lojas de Pequim. O sucesso é imediato e completamente arrasador; a avidez das pessoas pelo pudim faz com que Alvin precise entrar em um ritmo intenso de produção, e eventualmente ele usa o dinheiro conquistado para abrir sua própria confeitaria. Arthur, enquanto isso, encontra na relação com Alvin, nas paredes vividas do apartamento e nas conversas com a vizinhança, a inspiração necessária para mergulhar no estudo da música chinesa.
No apertado box do banheiro, Arthur, seminu, senta-se num banquinho enquanto Alvin corta o seu cabelo na frente de um espelho improvisado. Alvin passa os fios de cabelo de Arthur recém-cortados entre os seus dedos, olhando com ternura para aquele pedaço ainda semi-vivo do corpo que tanto ama. Arthur olha-se no espelho e percebe as rugas que vão se aprofundando no seu rosto.
“Se eu morrer… quando eu morrer, eu quero que você me coma”, diz Arthur. Alvin ri, meio desconcertado, e pergunta do que ele está falando. “Não espere muito, o corpo humano se decompõe rápido”, continua Arthur. “Me coma. Faça grandes bifes meus. Cozinhe até que as fibras se soltem dos ossos, me deixe macio como um bebê. E então me coma. Me deixe ficar dentro de você por mais um pouco…”, completa. Os dois fazem silêncio por alguns instantes, até que Arthur sorri. Alvin sorri também. Mirai chega e brinca com os fios de cabelo pelo chão do banheiro.
Vemos Alvin e Arthur mais uma vez agasalhados e abraçados no inverno de Pequim — mas agora de dia, e não sabemos se é o mesmo inverno de antes, ou um, dois ou cinco invernos depois. Eles olham de longe para o Templo do Céu, que, Alvin explica, era utilizado nas dinastias Ming e Qing para dar graças aos deuses pelos frutos obtidos nas colheitas. Enquanto uma multidão infinita de pessoas circula pela enorme cidade atrás deles, os dois se olham e sorriem. O som do vento se intensifica.
“Acho que eu estou começando a descobrir”, diz Arthur, olhando para o Templo do Céu. Alvin pergunta o que. “A música”, responde Arthur. “Aqui, ela é eterna. Escute — os sons persistem. Eles já existiam antes de nós e continuarão existindo depois. Não é um ciclo, não é uma repetição. São vozes, tons, sibilos, tinidos… eles se reúnem e se separam eternamente. E criam melodias novas a cada encontro e a cada despedida. É infinito.”
Continuamos ouvindo o vento. Alvin olha para Arthur.
Os dois voltam ao pequeno apartamento — ainda apertado, ainda simples, mas já com algumas mudanças. Mirai recebe os dois com miados carinhosos. Um cartão postal do Rio de Janeiro está fixado no quadro de cortiça. Um dia, promete Arthur, eles irão até lá. Arthur e Alvin se abraçam no centro da sala.
A dança contida, colada, no meio da sala de estar. E tudo vai pelos ares.
“Art”, diz Alvin. “Você usou perfume hoje?”. Arthur responde que sim, e Alvin estranha: “Curioso. Não estou sentindo”. “Talvez você tenha se acostumado”, responde Arthur, sorrindo.
Os dois se demoram longamente nos braços um do outro, movimentando-se lentamente numa singela dança. “Picture Me Better” começa a tocar, embalando os movimentos do casal, enquanto mais uma mágica acontece: agora, os dois se vaporizam, e a fumaça multicolorida que exala dos dois corpos dança harmonicamente acima deles, escapando pelo teto, pela janela e pelos ares até que não haja mais nada ali.
Interlúdio
A odisseia de Mirai e seu amigo.
Mirai sai pela porta do apartamento e começa a andar, sozinho, pelas ruas de Pequim. Ouvimos os acordes iniciais de “Clair de Lune”, na versão de Isao Tomita, enquanto acompanhamos planos fixos, bem abertos e longos, acompanhando Mirai pelos cenários da cidade por diversas estações, das nevascas do inverno até o sol escaldante do verão.
Mirai se afeiçoa a um gato rajado de rua e os dois se tornam amigos. Eles brincam pelas ruas de Pequim, recebendo carinhos eventuais das pessoas que andam pela cidade, até que chegam ao Porto de Tianjin. O gato rajado embarca sorrateiramente em um dos navios que estão sendo carregados. Mirai vai atrás dele.
O barco percorre os oceanos, e os dias, semanas, meses se passam. A amizade transcontinental dos dois gatinhos chama a atenção de todas as pessoas por onde eles passam. Eventualmente, o barco ancora no porto de Miami.
Mirai e seu amigo desembarcam na cidade durante um verão particularmente quente. Ao deixar o barco, o gato rajado vê um grupo de outros gatos e sai correndo atrás deles, deixando Mirai sozinho.
Mirai perambula pelas ruas da cidade até chegar a uma casa bonita, grande, num bairro relativamente rico de Miami. Ele entra pela portinhola de gatos instalada na porta de entrada da casa e, como se já conhecesse bem o ambiente, vai até o seu pote de ração para se alimentar.
II. The Burnt Ends
dirigido por Lulu Wang
A imagem se afasta de Mirai e perambula lentamente, como um fantasma, pelos corredores adornados da casa. Passamos por porta-retratos, objetos colecionados ao longo do tempo, . Em meio a esse plano-sequência silencioso, começamos a ouvir a voz incorpórea de Bee (Jamie Lee Curtis):
“Memória… A questão da memória é que ela é uma coisinha traiçoeira. Pense bem… todos os momentos que vivemos e lembramos, bons ou ruins, nós não nos lembramos propriamente deles. Ou melhor, lembramos sim, apenas uma vez — logo depois que eles acontecem. Todas as lembranças posteriores são, na verdade, lembranças da última lembrança que tivemos deles. Como uma cópia da cópia da cópia, perdendo detalhes, perdendo qualidade, e você não percebe, porque é algo tão gradual. Alguns diriam que essa é a beleza da coisa. Outros diriam que é assustador. Eu diria que é um pouco dos dois… até o dia em que você para, olha e se assusta com tudo que se perdeu”.
Honey observa Bee pela tela. Em seguida, acompanhamos seu trabalho, sua ascensão e queda, seus conflitos.
Perto do final do monólogo, a voz de Bee vai se tornando mais abafada e “Yugoslavia” vai subindo no mix sonoro. Ao mesmo tempo, o plano-sequência entra em uma das salas da casa. O monólogo de Bee é, na verdade, uma entrevista que ela está dando na televisão. Vemos Honey (Donald Glover) sozinho, ajoelhado em frente à TV e com o nariz colado na tela, como se quisesse extrair algum cheiro dos pixels que iluminam seu rosto.
Com o som da entrevista, entendemos que Bee é uma renomada cineasta da Califórnia que construiu uma carreira explorando diferentes cantos do planeta. Seu próximo filme, razão da entrevista ali concedida, será filmado no Rio de Janeiro e explorará justamente as vicissitudes da memória, explica ela. Honey, enquanto isso, segue grudado na TV, olhando fixamente para a imagem dela.
Ainda ao som de “Yugoslavia”, em longos planos abertos, fixos, acompanhamos um dia na vida de Honey. Ele é o chef e criador do Vanilla, restaurante de gastronomia molecular no bairro de Wynwood.
Entre recortes de jornal, comentários de clientes e diálogos de Honey com seus subordinados, entendemos sua história: nascido em Nova Orleans, ele ascendeu meteoricamente na cena gastronômica de Miami alguns anos antes com criações ousadas e arrebatadoras, produzindo sabores até então desconhecidos do público e dos críticos, recebendo rapidamente três estrelas Michelin e figurando frequentemente nas listas de melhores restaurantes do mundo.
No ano anterior, entretanto, Honey foi acometido por uma doença e perdeu a capacidade de sentir cheiros. Seu mundo desmoronou: incapaz de provar suas criações como antes, passou a duvidar de si mesmo e, mesmo fazendo tratamento terapêutico para recuperar o olfato, enfrenta uma forte crise criativa e profissional. Ao mesmo tempo, as marés do mundo gastronômico mudaram mais uma vez, e os críticos que antes exaltavam Honey passaram a acusá-lo de ser pretensioso e se repetir em seus trabalhos.
Neste recorte de vozes e imagens, vemos também fotos de Honey e Bee juntos, abraçados, em eventos ao redor do mundo. Eles estão juntos desde antes da fama de Honey.
Bee chega em casa e faz um carinho em Mirai, que a recebe com miados alegres. Ela encontra Honey na cozinha, fazendo mais um dos seus experimentos gastronômicos com seringas, pinças e bombas de fumaça. A relação dos dois é carinhosa, porém distante; a conversa nunca sai dos comentários sobre o dia-a-dia e os próximos afazeres. É um verão particularmente quente em Miami e a climatização da casa está com defeito, o que repele o casal de se aproximar dos corpos suarentos e desconfortáveis um do outro.
Para o jantar, Honey serve um novo experimento: uma esferificação defumada de jus de vitela servida numa espuma de ruibarbo com ovas de mujol e brotos de abóbora crocantes. Mirai se aproxima para checar do que se trata a refeição, mas não demonstra interesse. Honey pergunta o que Bee acha, e ela responde que está muito bom.
“Muito bom como antes?”, devolve ele.
“Como eu poderia saber?”, pergunta ela, sorrindo. “Eu não sou da área”. A expressão de Honey indica que ele ainda aguarda uma resposta. Bee limita-se na resposta: “Está muito bom, meu bem”.
Os dois seguem bebendo vinho após o jantar, e a conversa flui para a viagem ao Rio que Bee fará na semana seguinte para iniciar a produção do seu filme. Ela deverá passar alguns meses por lá. Honey, já bastante intoxicado pelo vinho, ajoelha-se na frente dela, repousa a cabeça entre os seus seios e diz que sentirá saudade. Pergunta quando ela vai voltar. Ela abraça a cabeça dele.
“Eu não sei, Honey”.
“Mas vai demorar?”
A partir do 1:53. O sexo na mesa.
Ela afasta a cabeça dele e, para não precisar responder, o beija. O beijo leva a toques pelo corpo um do outro, e Honey coloca Bee sentada na mesa de jantar. Os dois, ainda meio vestidos, transam entre os pratos já vazios e as taças meio cheias, e as expressões e os sons sugerem que ambos regalam-se, ainda que moderadamente, com o sexo. Mas a dança de movimentos pélvicos dura mais do que ambos gostariam, e Bee simplesmente sugere que eles parem e vão para a cama. Honey, bêbado e sôfrego por um orgasmo, continua penetrando-a, levando sua boca e nariz por diferentes partes do corpo de Bee e tentando capturar tudo o que pode do seu gosto e do seu cheiro. Com alguma agressividade, ele abre a blusa dela e coloca um dos mamilos de Bee em sua boca, sugando a área como se fosse um bebê em busca de leite. Embora siga com os movimentos do sexo, ele parece à beira das lágrimas. “Me dê, por favor me dê”, implora ele, sugando o mamilo de Bee. Ela, com um pouco de tesão, um pouco de pena e um pouco de álcool na corrente sanguínea, segura a cabeça dele no seu seio: “Eu não tenho mais”.
Alguns dias depois, Bee arruma suas malas para a viagem. Honey estranha que ela esteja levando tantas roupas de frio para o Rio de Janeiro. Bee comenta que as filmagens no Rio foram canceladas: a seguradora do filme considerou a viagem arriscada demais e, em vez disso, a produção recriará a cidade num estúdio em Vancouver, com direito a montanhas, mar e sol. “A tecnologia é uma coisa incrível”, comenta Bee. Honey pergunta como ela conseguirá recriar todos os detalhes do Rio. “Eu me lembro de tudo. Você não?”, devolve ela. Honey não responde. Mirai entra em uma das malas e se deita, observando o casal, que segue dobrando casacos e jeans em silêncio.
É a noite antes de Bee viajar, e os dois, ignorando o calor escaldante que faz no quarto, se deitam juntos na cama. Ela olha para o teto com uma expressão melancólica e acaricia o corpo de Honey enquanto ele, de lado, a abraça com todas as partes do corpo.
“Você usou perfume hoje?”, pergunta ele bem baixinho, interrompendo o silêncio. Bee olha para ele, levemente surpresa, e pergunta se ele está sentindo. “Talvez. Eu sou sugestionável”, responde Honey. Ele se levanta, põe-se em cima de Bee e, gentilmente, começa a deslizar a cabeça pelo corpo dela, com o nariz tocando discretamente sua pele. Ele fecha os olhos e ela sorri conforme ele explora e sente as diferentes áreas da sua matéria. “Talvez algumas notas cítricas?“, pergunta ele. Ela dá uma risadinha. “Não. É Black Opium”, responde.
Honey deita-se com a cabeça apoiada no ventre de Bee e a abraça seu tronco. “O que você está tentando?”, pergunta ela entre um sorrisinho. “Eu só quero ficar aqui”, ele responde. E assim eles ficam, em silêncio, no escuro.
A narrativa é invadida, então, por uma série de imagens superexpostas, com o áudio amplificado até quase o ponto do surrealismo. Vemos cortes rápidos, quase incompreensíveis, de Alvin e Arthur, Honey e Bee. Respirações profundas. Mãos que deslizam sobre peles. Pêlos que se arrepiam. Dedos que se entrelaçam, línguas que se sentem. Pés na grama, mãos no ar, água fluindo. O mar, a cachoeira, o vapor se formando num box de chuveiro e duas figuras embaçadas lá dentro. O cheiro de uma flor de laranjeira, da manteiga derretendo numa panela quente, dos fluidos que saem de corpos e entram em outros corpos, a pele áspera dos cotovelos, a pele macia das nádegas, as pupilas que se dilatam-
Bee acorda, respirando forte, pintando de excitação. Honey ainda está deitado no seu ventre. Ela desliza as mãos pelo próprio corpo, o que acorda Honey. Ele levanta apenas a cabeça e olha para Bee, percebendo os seus fluidos que já se acumulam pela cama. Durante aquele breve segundo de silêncio em que os dois se olham, tudo no mundo se entende e se alinha.
Honey projeta sua cabeça com força, mas com gentileza, entre as pernas de Bee enquanto começamos a ouvir um arranjo alternativo de “Moon in Your Eye”, apenas no piano. Ele pressiona todo o seu corpo contra Bee, e ela, com as mãos, puxa ele para que ele chegue ainda mais perto. E, magicamente, todo esse desejo incontido, explosivo, faz com que Honey vá literalmente entrando, todo, no corpo de Bee, enquanto ela se contorce, geme e grita desesperadamente que ele a preencha por completo — primeiro entra a cabeça, depois (com alguma dificuldade) os ombros, o tronco, os glúteos, as pernas e pés, até que Honey esteja inteiramente abrigado dentro do corpo de Bee e os dois sejam uma coisa só.
Na manhã seguinte, Honey prepara cuidadosamente o café da manhã para Bee antes que ela viaje: ovos nevados com torradas de croissant. Ainda meio dormindo, os dois comem na bancada da cozinha em meio a um silêncio confortável e um Mirai que observa com olhar pidão. Bee sorri: “está perfeito”, diz ela com os olhos fechados enquanto mastiga.
A despedida.
Honey leva Bee até o aeroporto. Os dois se despedem no carro e ela faz menção de sair. Ele, sem conseguir se conter, segura levemente seu braço antes que ela saia: “você vai voltar?”, pergunta ele. Alguns segundos de silêncio. “Eu não sei”, ela diz. “Você sabe que isso não torna nada mais fácil, certo?”, pergunta Honey. “É, ela responde olhando para ele. “Isso eu sei”.
Os dois sorriem um para o outro enquanto ouvimos o início de “Strangers”. Bee sai do carro, pega suas malas e olha algumas vezes para trás, para dar uma última olhada para Honey. Ele segue a observando, com um sorriso melancólico, até que ela some na multidão.
Honey volta para casa e é recebido por Mirai, que mia com alguma estranheza. Ele percorre os corredores da casa em absoluto silêncio. Em um dos porta-retratos pendurados nos corredores, vemos uma foto de Honey e Bee abraçados no Corcovado.
Honey abre o armário de Bee e observa longamente as roupas que ela deixou. Ele entra, então, no armário, senta-se em meio as roupas com um olhar distante e fecha a porta. A imagem vai se afastando devagar conforme as batidas “Love Songs” começam a ser ouvidas. Mirai se aproxima e arranha uma das patas na porta, pedindo para entrar.
O plano-sequência final com Bee, as pessoas, o suor, o sexo, os movimentos, as luzes e os cheiros.
Ainda ao som de “Love Songs”, a imagem se dissolve para a porta de uma boate — que pode ser em Vancouver, no Rio, no estúdio em Vancouver que simula o Rio ou em qualquer outro lugar. Bee abre a porta e, em um plano-sequência estendido, que persiste por toda a duração da música, atravessa a pista de dança iluminada por diferentes cores e luzes piscantes. Ela se encosta, roça, dança e se movimenta com os presentes.. Sua expressão é de delírio e prazer, mas é possível notar também um ar de melancolia. Ainda no plano-sequência, Bee dirige-se ao bar e pede um Manhattan. Ela observa o próprio reflexo na cereja negra apoiada com um palito de metal no vidro do copo e dá um gole na bebida, saboreando com atenção cada nota do whisky e do vermute. O plano-sequência se encerra num close-up do rosto de Bee olhando para os lados, como se procurasse alguém, e a música termina de súbito junto com o filme.
Créditos finais parte 2.
Os créditos principais surgem sobre multitude de tintas que se encontram e se misturam ao som de “Vanilla”. Em seguida, o restante dos créditos é exibido ao som de “A Lot’s Gonna Change”.
Notícias e Imagens
Prêmios
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