The Silver Shadows (2021)

de Terry Gilliam
produzido por Bruno S.
com Rachel Weisz e Thandiwe Newton
6 de novembro de 2021 (Especial James Bond)
🇬🇧 Reino Unido

Aventura / Espionagem
Sinopse: Londres, 1969. Em meio à explosão cultural dos swinging sixties, James Bond some durante uma missão crucial para o destino do mundo. Agora, cabe a Hannah Rose, uma decodificadora do MI6, e a Alice Miracle, agente 0012, encontrar Bond e salvar o planeta.


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Ficha Técnica

Direção: Terry Gilliam
Roteiro: Terry Gilliam, Richard Curtis
Produção: Bruno S.
Fotografia: Linus Sandgren
Figurino: Mary Quant
Direção de Arte: Mark Tildesley
Música: Keith Mansfield, baseado em temas de John Barry
Distribuição: EON Productions
Plataforma: Catflix

Elenco

Rachel Weisz como Hannah Rose
Thandiwe Newton
como Alice Miracle
Hugh Bonneville como Peter Moneypenny
Millie Bobby Brown como Mary Ellenberg
James McAvoy como Alfie Sainsbury
Catherine Tate como Q (Queenie Smith)
Sam Smith como Silas Wankworth
Gabriel Byrne como Felix Leiter
Ralph Fiennes como M


O Filme

“Gun Barrel”, Thomas Newman – O tema de James Bond que toca durante a sequência do gunbarrel.

Tela escura. Ouvimos o tema de James Bond e a tradicional sequência do gunbarrel se inicia. Quando é o momento de Bond surgir andando na mira da arma, entretanto, nada acontece — ele não está lá. A arma se mexe pela tela, procurando algum sinal do agente. Nada. A música termina e Bond não aparece. Ouvimos um suspiro frustrado.

Num fade out, a mira da arma transforma-se num típico quarto inglês dos anos 1960, com móveis modernistas angulosos, decorações coloridas, tapetes espalhafatosos e temas geométricos. Um despertador toca e Hannah Rose (Rachel Weisz) acorda desorientada. “Que dia é hoje?”, ela resmunga, e a legenda surge na tela: LONDRES, 1969.

Sozinha no apartamento, Hannah levanta-se e vemos, na sua mesa de cabeceira, uma foto dela com seu marido e filho pequeno. Com roupas pouco chamativas, ela caminha pelas ruas multicoloridas de Londres, onde a revolução cultural dos swinging sixties explode em música, vestimentas e atitudes. A decoração natalina das ruas sugere que estamos no fim de ano. Um cartaz no caminho de Hannah anuncia um show do The Who no St. James Park no dia 1º de janeiro, para comemorar o ano-novo. No ônibus a caminho do trabalho, Hannah entreouve duas senhoras comentando entre si como aquele ano tem demorado a passar.

“Main Line Special”, Carnaby Street Pop Orchestra & Choir – A música que toca durante a caminhada de Hannah pelas ruas de Londres. Nota: o Carnaby Street Pop Orchestra & Choir foi um projeto especial de Keith Mansfield, compositor do filme, que gerou este álbum que traduz perfeitamente a atmosfera da Swinging London. Várias das suas canções serão ouvidas ao longo do filme.

Hannah chega ao trabalho e percebemos que ela é uma funcionária de baixo escalão do MI6, cuja função é passar o dia em frente a um IBM 3033 (um modelo de computador da época) decodificando mensagens telegrafadas por agentes ao redor do mundo. Na enorme sala onde Hannah trabalha, dezenas de outros funcionários realizam, mecanicamente, o mesmo serviço repetitivo. Hannah tem um gosto particular por decodificar as mensagens de um agente específico: James Bond. Por alguma razão, que nem ela mesma consegue explicar, ela sente uma espécie de conexão especial com 007, ainda que os dois nunca tenham trocado uma palavra e Bond sequer saiba da sua existência. Muito por conta dessa conexão inexplicável, Hannah sonha em ter aventuras pelo mundo como os agentes 00, mas este é apenas um delírio distante. 

Ao acordar do seu transe, ela tenta se fixar na data do dia, exibida no topo do seu monitor preto e verde. A data, entretanto, está embaçada. Ela tenta apertar os olhos para enxergar os números, sem sucesso.

Peter Moneypenny (Hugh Bonneville) aproxima-se da estação de trabalho de Hannah e diz, quase sussurrando: “ele quer falar com você“.

Moneypenny leva Hannah até a sala de M (Ralph Fiennes), chefe do MI6. O secretário pergunta se M deseja mais alguma coisa, e podemos notar um ar de plena devoção — ou mais que isso — no olhar de Moneypenny em relação ao chefe. M dispensa a oferta, e é deixado a sós com Hannah.

M diz a Hannah que o MI6 tem um enorme problema nas mãos, e só uma pessoa pode resolvê-lo. “Bond”, diz ela, baixinho. M então a corrige: Bond, na verdade, é o problema — ele sumiu enquanto investigava uma operação ilegal de contrabando de urânio em Joanesburgo. M diz saber que Hannah tem o costume de decodificar as mensagens de Bond e, mesmo sem conhecê-lo pessoalmente, acabou criando um certo vínculo com ele através dessas mensagens O MI6 conta com a ajuda dela para encontrar 007. Hannah, assustada, pergunta há quanto tempo Bond está sumido. M, com um ar lacônico, responde: “é aí que as coisas se complicam. Não fazemos ideia”.

Antes que Hannah possa perguntar mais coisas, as pesadas portas acolchoadas do escritório de M se abrem novamente. Quem entra é Alice Miracle (Thandiwe Newton), agente 0012. Seu vestido é extremamente glamuroso, e sua presença altiva chega a iluminar o ambiente — e impressionar Hannah. M apresenta as duas mulheres e diz que Alice e Hannah serão parceiras na missão. Alice dá um aceno simpático, elegante, em direção a Hannah, que responde com timidez. M pede para falar com Alice em particular.

Hannah deixa o recinto, mas tenta entreouvir a conversa da antesala. Ela olha para o outro lado do ambiente e vê Moneypenny a observando com um olhar divertido de reprovação: “não adianta. É à prova de som”, diz o secretário. “Eu sei porque já tentei”, completa, e os dois sorriem.

Hannah e Alice começam a analisar mensagens antigas enviadas por Bond, tentando descobrir alguma pista oculta que tenha passado despercebida pelos decodificadores do MI6. Em uma noite de investigações por pilhas e mais pilhas de fichas codificadas, as duas se conhecem melhor: Alice revela que perdeu seu parceiro de missões muito cedo e, desde então, trabalha sozinha viajando ao mundo em suas aventuras. Hannah, por sua vez, diz que prefere um trabalho de escritório por conta da sua família. Alice olha para a colega, com um ar indecifrável.

Em um certo momento, Hannah faz uma nova combinação de códigos e caracteres nas mensagens de Bond e encontra uma pista inédita: as letras SWW. Cruzando o código com a base de dados do MI6, a dupla descobre que SWW são as iniciais de Silas Wankworth, agente britânico lotado justamente em Joanesburgo. As duas se perguntam se Bond estava tentando avisar alguma coisa, e resolvem partir à África do Sul no dia seguinte para investigar.

Na manhã seguinte, Hannah acorda sozinha em seu quarto e novamente pergunta “que dia é esse”. Novamente ela passa pelo porta-retrato da família, caminha pelas ruas natalinas e multicoloridas de Londres, passa pelo pôster do show do The Who e entreouve as duas senhoras no ônibus falando sobre como o ano está demorando a passar. Ela chega ao MI6 e é abordada por Queenie Smith (Catherine Tate), chefe do departamento de ciência e tecnologia do Serviço Secreto. Queenie diz que precisa preparar Hannah e Alice para a missão. Hannah, com uma visível euforia nos olhos, segue a cientista.

No laboratório de Queenie, Hannah vê cientistas modificando uma série de objetos caríssimos e extremamente vistosos — relógios Rolex, esportivos Aston Martin, canetas Mont Blanc, sapatos Crockett & Jones e muito mais. Queenie, entretanto, diz que aqueles dispositivos “são apenas para agentes 00” e entrega a Hannah algo muito mais simples: uma câmera Kodak Instamatic, aparentemente barata e inofensiva. “Use quando você quiser registrar um momento especial, mas certifique-se de que você não sairá na foto”, diz Queenie, dando uma piscadela.

Alice chega ao laboratório, exuberante como sempre, e cumprimenta Queenie: “Bom dia, Q”. Queenie, como Hannah e todos os presentes, parece se derreter com a suntuosidade da agente. Q entrega a Alice um par de botas stiletto da Prada e uma pequena bolsa Hermès: “você sabe o que fazer com elas”, diz Q, ligeiramente tímida.

As portas do elevador do laboratório se abrem e de dentro saem Mary Ellenberg (Millie Bobby Brown) e Alfie Sainsbury (James McAvoy), uma dupla inseparável de agentes do MI6. Nenhum dos dois faz questão de dar bom dia ou reconhecer os outros presentes. Falante e afetada, Mary é a típica it girl londrina do fim dos anos 1960, com suas minissaias coloridas, óculos escuros espalhafatosos e acessórios marcantes. Alfie, por sua vez, veste-se de maneira sóbria com um smoking Brioni muito bem cortado e anda de cara fechada, sem proferir uma palavra sequer. Hannah pergunta como uma garota tão jovem pode ser uma das agentes mais respeitadas do MI6, e Alice simplesmente responde que ela tem um histórico impecável de missões desde que foi efetivada pela agência, sabe-se lá quando.

Mary aproxima-se de Q. “O Aston, Queenie”, diz, enquanto Alfie estende a mão direita. “Já que Bond não vai precisar dele”. Q, que parece não ter nenhuma paciência para a dupla, simplesmente entrega a chave do carro ao agente. Alfie e Mary embarcam no icônico Aston Martin DB5 e partem cantando pneu, deixando marcas no assoalho do laboratório e todos os presentes com um olhar de antipatia. Alguns segundos de silêncio constrangedor são cortados por Hannah: “então… Joanesburgo, hein?”.

Hannah e Alice chegam a Joanesburgo e dirigem-se ao último local onde Bond foi avistado, um campo de mineração de urânio nos arredores da cidade, e procuram por Silas Wankworth. Não é muito difícil encontrá-lo, entretanto: as duas agentes surpreendem-se quando Silas (Sam Smith) aparece e se revela como uma espécie de líder miliciano do campo de mineração. Extravagante, ele faz um tour pelo local como se estivesse apresentando às agentes o último paraíso na Terra, aparentemente desatento sobre as condições de trabalho desastrosas e o estado de penúria dos trabalhadores que se mostra deveras evidente. Reservadamente, Alice pergunta a Silas se ele não deveria estar fazendo seu trabalho enquanto agente do MI6. “Agentes?”, pergunta Silas, com um riso sarcástico. “Relíquias de um tempo que eu nem me lembro mais”.

Durante um suntuoso jantar oferecido por Silas, Alice tenta questioná-lo sobre Bond, mas ele se esquiva das perguntas. Hannah, acostumada a interpretar sinais, percebe que Silas está escondendo coisas. Após o jantar, Hannah sugere que Alice faça uma investigação de campo entre os trabalhadores; Alice surpreende-se com a assertividade da colega e concorda.

Hannah seduz Silas e os dois vão para um quarto na base do campo de mineração; em meio a flertes e preliminares, ela tenta interrogar o agente, mas Silas mostra-se resistente às questões dela. O clima esquenta. Hannah pergunta há quanto tempo Silas está lotado na África do Sul, mas ele, já entregue à agente, não sabe responder: diz apenas que foi enviado ao país após a morte de um dos seus subordinados no MI6, “muito tempo atrás”. Silas tira a blusa e Hannah descobre uma marca inusual no seu torso — uma ampulheta.

Alice, enquanto isso, entrevista trabalhadores e vasculha o campo de mineração em busca de respostas sobre o paradeiro de Bond. Os mineiros falam de uma forma confusa e embaralhando acontecimentos, mencionando apenas um elegante homem de smoking que esteve lá “há muito, muito tempo”. Alice pergunta quanto tempo. Eles não sabem responder: “senhora, parece que o tempo não passa por aqui”.

Voltamos ao quarto com Hannah e Silas. Em meio a beijos e toques, ela pergunta qual o significado da marca e Silas, a esse ponto já completamente entregue ao desejo, diz que trata-se de uma herança de DRACO. Hannah disfarça a surpresa e, ainda em meio às carícias, pergunta do que se trata. Ele diz que DRACO foi o que permitiu que ele construísse seu império da mineração. Silas parece acordar do “transe” e percebe que falou demais. Ele golpeia Hannah e a joga para fora da cama, posicionando-se por cima dela e apertando seu pescoço. “É uma pena”, diz Silas. “Você não é de se jogar fora”. Hannah, sem treinamento de combate, não consegue se defender e vai sendo sufocada pelo oponente até que um tiro atinge o ombro de Silas — Alice, na porta do quarto, olha chocada para o cenário enquanto aponta a arma ainda fumegante. “Você não era casada?”, pergunta ela a Hannah, que apenas se recompõe.

As duas mulheres jogam Silas contra a parede e Alice pressiona a arma contra a sua cabeça enquanto Hannah fala sobre a menção dele a um tal de DRACO. Alice diz que ele tem dez segundos para falar. Ele dá um sorriso e diz que seus parceiros chegarão a qualquer momento. Alice tira da bolsa Hermès um pequeno frasco com um dosador de conta-gotas. Ela pede que Hannah segure Silas e abra um dos seus olhos enquanto posiciona o conta-gotas alguns centímetros acima do globo ocular do ex-agente. “Acredite, você não quer saber o que isso faz”, diz Alice enquanto Silas tenta se desvencilhar, sem sucesso. Hannah é que faz a pergunta seguinte: “Bond. Ele levou DRACO? Para onde ele foi?”. Silas sorri exasperado mais uma vez, e sem saída, fala baixinho: “talvez vocês devessem perguntar aos seus amigos de Pequim por que seu agente enlouqueceu…”.

Enquanto Hannah e Alice se entreolham preocupadas, um exército de capangas de Silas invadem o quarto. Ele completa a frase anterior: Não que faça muita diferença. Vocês não sairão daqui vivas”.

Em um movimento rápido, Alice coloca os braços em volta de Hannah e faz com que as duas se lancem pela janela, caindo num toldo e pousando em pleno campo de mineração. Lá fora, mais uma horda de capangas cerca as duas. Discretamente, Alice sinaliza a Hannah um carrinho de golfe nas redondezas, usado para transporte dentro do complexo. Alice atira em um cilindro de gás, causando uma pequena explosão e divergindo a atenção dos vilões; nesta fração de segundo, as duas pulam no carrinho de golfe e partem a mil, com Hannah guiando o veículo e Alice na parte de trás, atirando.

“Power Montage”, Carnaby Street Pop Orchestra & Choir – A música que embala a primeira perseguição do filme, pelas ruas de Joanesburgo.

Os vilões embarcam em outros carrinhos de golfe, e o que se segue é uma perseguição alucinante — inicialmente pelo campo de mineração, e depois invadindo as ruas de Joanesburgo. Hannah e Alice conseguem eliminar dezenas de perseguidores, enquanto os cidadãos olham estupefatos para aquela improvável disputa entre carrinhos de golfe. Após eliminar os últimos agentes, as duas seguem para o aeroporto de Joanesburgo. O destino já é definido: Pequim.

Num voo comercial, Hannah e Alice conversam um pouco mais sobre suas vidas e os acontecimentos recentes. Hannah diz que seu marido não se importaria com o que ela fez em Joanesburgo, seduzindo Silas, pois aquilo era parte da missão. Alice alerta sobre como, às vezes, uma parte da missão pode se tornar algo imensurável na vida de uma pessoa. As duas trocam olhares profundos antes de serem surpreendidas por Mary e Alfie: os dois agentes também estão indo a Pequim para uma missão. Alice pergunta porque eles não usaram o jato do MI6. Mary, afetada como sempre, responde: “M nos pediu para ficar de olho em vocês”.

O quarteto — Hannah, Alice, Mary e Alfie — desembarca em Pequim com identidades secretas, posando como uma família. A China, vivendo o ápice da Revolução Cultural de Mao, não admite a presença de agentes estrangeiros em seu território, e o disfarce dos quatro é fundamental para a sobrevivência de todos. Na Cidade Proibida, o grupo encontra-se com Felix Leiter (Gabriel Byrne), agente da CIA também disfarçado em missão na cidade; Felix revela que passou muito tempo na China investigando as atividades de um grupo criminoso que opera nas sombras, aproveitando a cortina de ferro estabelecida pelo Partido Comunista Chinês para disfarçar suas operações. “DRACO?”, pergunta Hannah, suscitando olhares suspeitos de Mary e Alfie. Felix responde que não sabe o nome do grupo, mas que obteve informações recentes de que seus integrantes reunir-se-ão naquela noite, no Palácio de Verão.

À noite, Hannah, Alice, Mary e Alfie infiltram-se na reunião do grupo misterioso e observam, escondidos, o estranho evento a partir de um camarote. Todos os participantes utilizam longos sobretudos prateados e têm uma tatuagem de ampulheta semelhante à de Silas; a cúpula da organização reúne-se em torno de uma mesa gigantesca num salão opulento, fracamente iluminado, do Palácio de Verão. Em um tom baixo, discreto, os membros da organização discutem seus sucessos recentes: as operações de infiltração em diversos serviços de inteligência ao redor do mundo estão surtindo efeito, enquanto os negócios criminosos com organizações terroristas e máfias ao redor do mundo estão mais fortes do que nunca — tudo por conta de DRACO. E graças ao trabalho do colaborador Silas Wankworth, a mineração de urânio na África do Sul está atingindo níveis suficientes para que o grupo avance à próxima fase do seu plano: produzir novas unidades de DRACO para distribuir entre os membros da alta cúpula da organização.

Todos se calam quando um dos portões do salão se abre e uma figura misteriosa, envolta em sombras, adentra o recinto lentamente. A pessoa, careca, carrega nos braços um gato persa branco. “Blofeld”, diz Alice, horrorizada. “Nós estamos numa reunião da SPECTRE”. Os quatro agentes, atônitos, seguem observando a assembleia macabra.

Blofeld (Christoph Waltz, em aparição não creditada) parabeniza os agentes da SPECTRE pelos sucessos em suas operações e diz que DRACO é um presente muito maior do que ele jamais poderia receber. Ele pede, então, que todos deem boas-vindas a quatro convidados muito especiais àquela reunião: Hannah, Alice, Mary e Alfie — “nossos visitantes do MI6”, completa o vilão, enquanto um holofote é direcionado para iluminar a presença do quarteto, horrorizado.

Antes que os quatro possam esboçar qualquer reação de fuga, agentes da SPECTRE surgem no camarote, agarram os agentes e os atiram pela balaustrada, fazendo com que os quatro caiam bem no centro na mesa gigante da reunião. Os agentes se levantam e preparam-se para lutar, mas Blofeld pede que eles se acalmem: “Não há necessidade disso. Eu só gostaria de transmitir por vocês meus mais profundos agradecimentos a um colaborador muito especial nesta… nova fase da nossa organização”. Alice, ainda em posição de combate, pergunta de quem ele está falando.

“Ora”, segue Blofeld. “Meu digníssimo amigo James Bond, é claro”.

Os quatro agentes demoram alguns segundos para processar aquela informação até que Hannah, estupefata, quebra o silêncio: “Não. Não é possível”, diz ela, enquanto os vilões riem maleficamente. “Onde ele está? Vocês usaram DRACO contra ele, cretinos! Patifes!”. 

“Muito pelo contrário, minha cara”, responde Blofeld. Alice, em contraponto à exaltação de Hannah, pergunta calmamente, ainda pronta para o combate: “O que diabos é DRACO?”. Blofeld responde: “Talvez vocês devessem perguntar ao Mr. Bond. Foi ele que inventou o nome, para início de conversa…”. O vilão vira-se para um correligionário e comenta: “Inclusive, é um nome bem bobo, não é mesmo?”.

Neste momento, Alice perde a paciência e parte para a briga contra os agentes da SPECTRE. Ela bate seus pés um contra o outro, fazendo com que duas lâminas saiam da parte frontal das suas botas stiletto da Prada, e inicia uma enorme confusão, lutando e ferindo os vilões. Mary e Alfie, que até o momento apenas assistiram a discussão, também entram no combate, enquanto Hannah tenta se proteger e golpear seus adversários como pode.

“Golden Medal”, Carnaby Street Pop Orchestra & Choir – A música que acompanha a cena de luta no Palácio de Verão (no filme, ela é editada de forma que apenas as partes animadas sejam ouvidas).

Os vilões vão se amontoando ao redor da mesa e sendo derrubados, um por um, pelo quarteto de agentes, numa intensa cena de luta corporal, sem armas. Na confusão, Blofeld e os membros da alta cúpula se retiram. Uma nova leva de capangas da SPECTRE adentra o ambiente — estes, portando armas de todos os tipos. Os quatro agentes, então, se atiram para debaixo da mesa e fazem escapam por um triz do salão, correndo pelos largos corredores do Palácio de Verão, se esquivando de balas e deixando obstáculos para os vilões.

Saindo do gigantesco edifício e rumando para um dos enormes lagos do jardim no qual ele se localiza, os quatro agentes são abordados por Felix Leiter em uma lancha. “Entrem!”, exclama Felix, e os cinco fogem pelas águas, com os agentes da SPECTRE posicionando-se ao redor da lagoa e tentando atingir os agentes. Chegando à outra ponta do lago, os cinco escapam a pé e conseguem encontrar um lugar seguro. “Uma ampulheta”, diz Alice, ofegante. “Por que aposentaram o polvo?”. Hannah somente olha para a colega, como se quisesse dizer algo.

De volta a Londres, o quarteto informa a M que a missão foi um fracasso: mesmo obtendo um nome (DRACO) e a suspeita do envolvimento de Bond, não foi possível descobrir a natureza do artefato ou a localização do agente. Após a reunião, entretanto, Hannah puxa Alice para um canto e pede que ela a siga até a sala de decodificação.

Na sala, Hannah revela ter uma suspeita que não revelou anteriormente, mas que para verificá-la precisa revirar todas as mensagens de Bond. Ela instrui Alice a observar não o conteúdo das mensagens, mas as datas. As três passam, então, a analisar pastas e mais pastas com mensagens enviadas por Bond ao longo do tempo, notando um aspecto estranho: todas são de 1969 — mesmo aquelas referentes a missões que Bond realizou, na percepção delas, muitos anos atrás.

Hannah e Alice alinham todas as mensagens de Bond em ordem cronológica, e Hannah percebe que a sequência dos números dos dias e meses representa uma outra mensagem, nunca antes percebida. Hannah declara em voz alta sua descoberta: “Blackberry Way, nº 2”.

Hannah vira-se para Alice e diz: “vem comigo”. Enquanto as duas correm pelas passagens e sobem as escadas do MI6, Hannah rememora cenas que testemunhou uma — ou seriam várias? — vezes nos últimos tempos: as senhoras no ônibus falando sobre como o ano está demorando a passar. O cartaz do show do The Who. A ampulheta no torso de Silas. Os agentes prateados da SPECTRE. Ao mesmo tempo, infiltram-se nestas memórias outras imagens, estas não reconhecidas por Hannah: uma sala abandonada com um brilho fantasmagórico prateado. Uma figura misteriosa invadindo, na calada da noite, o escritório de M no MI6 — agora vazio — com um objeto nas mãos.

Hannah e Alice passam direto por Moneypenny e entram abruptamente no escritório de M, ainda fartamente iluminado pela luz do sol. “Eu sei o que é DRACO”, declara Hannah. 

A cena é entrecortada com a visão da figura misteriosa, no mesmo lugar (porém à noite), depositando o objeto embaixo da mesa de M.

“O que é?”, pergunta M, aflito.

À noite, a figura misteriosa ativa alguns interruptores no objeto.

“Uma máquina do tempo”, diz Hannah.

À noite, a figura misteriosa pressiona um grande botão vermelho no objeto. Uma bomba.

Neste exato instante, as memórias de Hannah — senhoras, The Who, ampulheta, agentes — são exibidas em rápida sucessão, de trás para frente. E a bomba, que voltou no tempo para ser plantada no escritório de M, explode, engolindo o líder do MI6 em chamas, estilhaçando as grandes janelas do ambiente e lançando Hannah e Alice muitos metros para trás.

Moneypenny entra correndo no escritório e encontra M, com queimaduras profundas em todo o corpo, deitado próximo ao local de explosão da bomba, agonizante. Moneypenny tenta ajudar o chefe, em vão, e passa a prantear desesperadamente: “Mallory, não, por favor, não, não me deixe”. Hannah e Alice, machucadas porém em grau muito menor, se levantam e se aproximam de M, que ainda consegue esboçar suas últimas palavras: “vocês têm alguma outra pista?”. Hannah, entre lágrimas, responde que sim: “Blackberry Way, nº 2”.

“Vão”, diz M, reunindo todas as forças possíveis enquanto Moneypenny chora sonoramente. “Vão”.

As duas agentes dão passos para trás lentamente, ainda observando a cena de horror e sofrimento, e novamente correm pelo MI6. Entram no carro de Alice — um Mini — e partem em direção a Blackberry Way, uma rua no norte de Londres, sem dizer uma palavra sequer. A essa altura, já começa a cair a noite na cidade. Quando elas chegam no endereço, a escuridão já tomou conta das ruas.

Blackberry Way, nº 2, é uma casa aparentemente abandonada, muito antiga, numa rua sem qualquer movimento num bairro tranquilo de Londres. Alice para o carro em frente à casa e faz menção de saltar, mas Hannah pede que ela fique. Alice diz que é uma péssima ideia, mas Hannah insiste: “por favor. Eu preciso fazer isso”.

Hannah sai do carro e entra na casa pela porta da frente, que não está trancada. Por dentro, a construção também tem sinais de abandono: nenhuma mobília, poeira se acumulando pelas superfícies, teias de aranha. Silêncio absoluto. Hannah percebe, entretanto, um brilho prateado fantasmagórico — o mesmo visto por ela em sua visão — emanando de um dos cômodos ao fundo da casa. Lentamente, ela se dirige até lá.

O cômodo é uma sala, composta apenas de uma poltrona e alguns porta-retratos presos à parede. Hannah vê apenas um homem grisalho, de costas, elegantemente vestido com um smoking e sentado à poltrona, segurando um objeto que emana a luz prateada.

“Gun Barrel”, Thomas Newman – A música que marca a entrada lenta de Hannah na sala misteriosa (ouvida apenas até os 00:30, antes da orquestra completa entrar em ação). Tirando o gunbarrel no início, é a primeira vez que ouvimos os acordes do tema de James Bond no filme.

“James?”, pergunta Hannah.

“Tracy?”, pergunta o homem, sem se virar.

“Não”, responde Hannah, a voz trêmula. “Mas eu preciso de você.”

James Bond (George Lazenby) gira a poltrona e revela seu rosto idoso, marcado pelo tempo e com um semblante extremamente cansado.

Hannah, assombrada, tenta juntar as palavras. “Como… quanto tempo se passou?”.

“Todo o tempo do mundo”, responde Bond.

A Sequência de Abertura

“What Are You Doing The Rest of Your Life?”, Dusty Springfield – A música de abertura.

Conforme a imagem se fecha num close do rosto de Bond, ouvimos os acordes iniciais de “What Are You Doing The Rest Of Your Life?”, música-tema do filme, na versão de Dusty Springfield. A imagem vai se aproximando ainda mais do rosto do agente enquanto os primeiros créditos surgem na tela — até que, no momento em que entramos por um dos seus olhos, o título THE SILVER SHADOWS surge no centro na imagem.

Nota: a partir daqui, para uma compreensão mais expansiva da narrativa, convém ter conhecimento dos eventos de On Her Majesty’s Secret Service (1969). Clique aqui para ler um resumo do filme (contém spoilers).

Clique nas imagens para ampliar:

O que se segue é uma sequência de abertura que pode ser descrita como um sonho — ou pesadelo — febril, caleidoscópico, de James Bond sobre o momento que marcou a sua vida para sempre: a morte de Tracy (Diana Rigg, em imagens de arquivo), sua esposa, nas mãos de Blofeld e da SPECTRE. Temos aqui as duas marcas registradas das aberturas bondianas, mulheres e armas, mas aqui de uma maneira sinistramente distinta: a única mulher que surge na abertura é Tracy, e as armas representam a vida de morte e violência de Bond que, no fim das contas, resultaram somente na morte da mulher que ele amava. 

A voz fantasmagórica de Dusty Springfield, por sua vez, conduz a música — um dos grandes sucessos de 1969, vale destacar — como se fosse um mantra do além transmitido de Tracy para Bond, subvertendo irônica e tragicamente a questão principal da canção: o que Bond fez pelo resto da vida, após a morte da sua esposa?

Aqui, vale notar que a escolha de posicionar a sequência de abertura num momento extremamente inusual — na transição do segundo para o terceiro ato — tem algumas razões. A primeira, e mais óbvia, é que ela contém as principais revelações do filme: o paradeiro/identidade de James Bond e a natureza da narrativa enquanto sequência direta de On Her Majesty’s Secret Service. Outra razão é criar um certo senso de desorientação no espectador — a mesma desorientação temporal mostrada e sentida pelos personagens do filme desde o início do filme.

O sonho febril de Bond vai se tornando progressivamente mais colorido e mais caleidoscópico, enquanto as imagens vão perdendo definição e se tornando sombras pálidas, prateadas — como se, com o passar dos anos e das décadas, as memórias fossem ficando mais difusas e mais assombradas. E é nesta dança da vida e da morte, da ferida aberta no tempo, que a sequência de abertura termina com duas imagens de Tracy sobrepostas — uma com a condessa viva, sorridente, e outra do seu corpo já sem vida.

Voltamos à cena anterior, com Hannah, ainda horrorizada e confusa, confrontando Bond. O agente conta, então, sua história: o lugar onde eles estão é a casa que o agente comprou para viver com Tracy uma vida comum após o casamento. O casal arranjaria empregos comuns e os dois passariam os restos das suas vidas ali, num lar feliz, cheio de filhos e netos.

Com a morte de Tracy, entretanto, Bond retornou ao MI6 com um desejo assassino de vingança. M deu carta branca para que Bond utilizasse todos os métodos disponíveis para se infiltrar na SPECTRE, obliterar a organização definitivamente e matar Blofeld com requintes de crueldade. Durante a missão, entretanto, Bond descobriu que Blofeld e seus comparsas estavam planejando o próximo passo das suas operações criminosas com um novo artefato — um manipulador temporal. Bond, então, roubou o artefato com o objetivo de entregá-lo ao MI6 e colocá-lo num lugar seguro, onde não pudesse cair em mãos erradas.

Antes de fazê-lo, entretanto, Bond mudou de ideia: decidiu que, em vez disso, usaria o artefato para voltar no tempo e impedir o assassinato de Tracy. O próprio Bond batizou o artefato de DRACO, em referência ao sobrenome da família paterna da sua esposa — ou, alternativamente,  “Device for Reverse Adaptation of Continuous Objectivity”, diz Bond com um riso sem graça. “Seria algo que a SPECTRE faria”, afirma o agente.

Bond segue com sua história: relata que a primeira tentativa de salvar Tracy falhou e que, com isso, ele usou DRACO novamente para voltar no tempo mais uma vez e fazer outra tentativa. A segunda tentativa também falhou. E a terceira. E a quarta. E todas centenas de tentativas seguintes, ao longo de décadas — “cinquenta e dois anos, pelos meus cálculos”, diz Bond. O agente revela que, por ser o operador de DRACO, o fluxo temporal passa apenas por ele, o que explica o fato de apenas ele estar cinquenta anos mais velho enquanto o resto da humanidade, inadvertidamente, dava voltas num loop temporal obscuro, presa por cinco décadas anos no ano de 1969 sem perceber.

Hannah, agora, está arrasada e furiosa em iguais proporções. “Você tem noção do que você fez? A que você nos condenou?”, pergunta ela. Bond apenas olha para baixo, envergonhado.

“Eu presumo que já estive aqui antes”, diz Hannah. “Sim”, diz Bond, “Muitas vezes. Nós acabamos nos conhecendo muito bem”. Hannah pergunta, então, o motivo dele ter codificado seu endereço nas datas das mensagens enviadas ao MI6. “Acho que eu passei a gostar da sua companhia nesses breves momentos”, revela Bond.

“Breves?”, pergunta Hannah. “Sim, breves, porque em nenhuma dessas vezes em que esteve aqui você me convenceu a soltar esta máquina e fazer o que eu estou prestes a fazer”, diz Bond.

“Você vai voltar mais uma vez”, diz Hannah. “E assistir sua esposa ser morta mais uma vez. O que faz você acreditar que desta vez será diferente?”.

Bond olha entristecido para Hannah. “Eu não sei. Eu… já tentei de tudo. Eu já estudei cada mínimo detalhe. Eu já me preparei com todo tipo de arma. Eu já antecipei cada movimento. Eu já sei de cor todos os detalhes do que vai acontecer. Mas… é a minha missão. Eu preciso salvá-la, nem que seja a última coisa que eu faça.”

“E levar o mundo inteiro nesse carrossel macabro com você, James?”, pergunta Hannah. “O que aconteceu com o resto das pessoas? A Inglaterra? A rainha?”. Bond faz uma expressão de de desdém: “você acha que eu ainda me importo?”. E começa a manipular DRACO.

Hannah, exasperada, tenta encontrar palavras para impedi-lo. “Eu poderia não me importar também”, diz ela. “Eu também perdi tudo que eu tinha”. Bond para, como se ela finalmente tivesse sua atenção.

“Sim”, continua Hannah. “Eu perdi minha família. Sean Timothy Rose e David Brendan Rose. Vinte e três de janeiro de 1963. Um acidente de esqui na Suíça. Eles estão mortos, James. Não há nada que eu possa fazer. Eu tento esconder, eu tento convencer a mim mesma que eles estão aqui. Que eu estou numa viagem a trabalho e que em breve pegarei um avião e estarei com eles. Mas eu os perdi, James. Não há nada no mundo, nem uma maldita máquina do tempo, que possa reparar isso.”

Um silêncio se instaura no ambiente. “Você nunca me disse isso”, diz Bond. “Por que agora?”.

“M está morto”, revela Hannah, para o horror de Bond. “É a primeira vez não é? Imaginei”, continua ela. “Então se você me pergunta por que agora, eu diria porque o tempo está acabando, a SPECTRE agirá em breve, o mundo precisa de você e eu preciso que você me entregue esta coisa”, diz Hannah num tom de comando enquanto estende uma das mãos. Bond olha para Hannah e sente que, desta vez, há algo diferente. Ele olha para DRACO e a chance de rever Tracy mais uma vez. Volta, então, o seu olhar a Hannah. Após alguns instantes eternos de consideração, Bond apanha DRACO com uma das mãos e estende o artefato lentamente para Hannah enquanto a trilha sonora cresce.

No exato momento em que Hannah vai pegar o objeto, entretanto, um tiro irrompe no ambiente, atingindo o braço de Bond de raspão, levando o agente e DRACO ao assoalho. Na porta, Mary segura a arma ainda fumegante: “infelizmente, não posso deixar que você faça isso, 007”.

Hannah olha para trás. Alfie também entra no ambiente, segurando Alice com uma chave de braço e uma arma apontada para a cabeça da agente. Mary, irritada, continua: “Impressionante como você sempre arranja um jeito de nos dar nos nervos. Tudo que nós precisávamos era de mais uma volta!”. A jovem agente se aproxima e pega DRACO, enquanto Bond, ainda no chão, tampa seu ferimento no braço com a mão oposta. “A SPECTRE manda lembranças, Bond”, diz Mary. Hannah, desarmada, fica sem reação enquanto Mary e Alfie saem levando DRACO e Alice e embarcam no Aston Martin. Hannah olha pela janela enquanto Alfie pisa fundo no acelerador do Aston Martin e sai cantando pneu.

“Escape From Piz Gloria”, John Barry – (A partir dos 0:20) A canção que marca a ascensão de James Bond, depois de 50 anos de transe, e a cena de ação subsequente com a perseguição pelas ruas de Londres.

Ouvimos os acordes triunfantes de Escape From Piz Gloria (a partir dos 0:20) enquanto Bond se levanta devagar, ajeita o botão do smoking, tira a sua Walther PPK do blazer e se aproxima da janela, mirando — com o braço bom — no Aston Martin que já começa a sumir no horizonte. “Sumam do meu carro, baratas”, diz Bond, com sangue nos olhos. Com apenas um tiro, Bond consegue atingir um dos pneus do carro, que começa a perder o controle. “VAMOS!”, exclama Hannah, e os dois saem correndo.

Bond e Hannah entram no Mini de Alice, ela no volante. Enquanto Hannah dá a partida, Bond pergunta: “um Mini? Sério?”. Hannah dá um sorriso irônico e responde: “talvez ela não tenha a mesma obsessão masturbatória por carros que vocês têm”. Os dois partem em direção ao Aston Martin, mas Alfie ativa um mecanismo no carro que substitui instantaneamente o pneu atingido pela bala e parte em disparada. Inicia-se, assim, uma perseguição pelas ruas de Londres no início da noite, em meio a vias movimentadas, muitos pedestres, vários ônibus de dois andares e quilos de decorações natalinas.

O Aston Martin, naturalmente, supera o Mini em potência e rapidamente abre distância na perseguição. Hannah, então, diz “vamos ver o que Q deixou de presente aqui para Alice”. No console central do pequeno carro, Hannah encontra alguns interruptores; ela aproxima o dedo do botão “ejetar” e Bond exclama “esse não, por favor!”. Hannah ativa o botão “turbo” e o Mini instantaneamente começa a soltar fogo pelo escapamento, acelerando alucinadamente e fazendo com que Hannah precise se desdobrar para desviar de outros carros, pessoas e prédios nas ruas estreitas de Londres.

O Mini se aproxima do Aston Martin, que tenta fazer manobras para escapar. “Tente este aqui”, diz Bond, apontando para o interruptor “céu estrelado”. Hannah ativa o botão, e toda a cobertura do Mini é rapidamente retraída, transformando o carro num conversível. Em altíssima velocidade, Bond se levanta no banco do carro e começa a atirar no Aston Martin. Ele consegue acertar o escapamento do veículo, que começa a soltar muita fumaça e desacelerar. Hannah para o Mini e, junto com Bond, corre até o Aston Martin para resgatar Alice e DRACO. Após um intenso confronto, entre tiros e esconderijos pelas ruelas da cidade, Mary e Alfie escapam com DRACO, deixando Alice para trás.

Posteriormente, Hannah, Alice e Bond se reúnem com Q e Moneypenny num esconderijo, já que o MI6 está comprometido. Superado o choque inicial e a toda a explicação sobre a velhice de Bond e a confusão temporal, Bond explica o que ele imagina que seja o plano da SPECTRE. Segundo o agente, os vilões, por terem criado DRACO, desenvolveram uma forma de “entrar” no loop temporal — isto é, perceber a repetição contínua do tempo e se aproveitar dela, sem, entretanto, envelhecer como Bond. Isso explicaria o fato de Mary, tão jovem, ter conseguido se infiltrar no MI6 e tornar-se uma das suas agentes mais valiosas.

Por conta disso, Blofeld e seus comparsas nunca tentaram recuperar DRACO: era muito mais vantajoso para eles deixar Bond com a máquina e, munidos do conhecimento do loop (e sem o maior agente secreto do mundo em seu encalço), operar nas sombras, coletando informações sobre agências de segurança ao redor do mundo, desenvolvendo seus negócios criminosos e construindo o próximo passo do plano.

Alice menciona que, na reunião da SPECTRE em Pequim, Blofeld falou algo sobre “a próxima fase da organização”, e Hannah completa com as informações que as duas obtiveram com Silas em Joanesburgo. Q, então, usa seu conhecimento técnico para supor que a SPECTRE — após 50 anos (congelados) de estudos — está enfim finalizando uma técnica para produzir DRACO em massa, entregando uma máquina do tempo a cada um dos seus membros e potencialmente causando um caos temporal irreversível no universo.

Durante todo esse tempo, Moneypenny permanece calado num canto, cabisbaixo. Hannah se aproxima dele e percebe que ele ainda sofre profundamente pela morte de M. “Nós podíamos voltar e salvá-lo, você sabe?”, diz ele. Hannah, então, conforta o amigo, falando um pouco das mesmas coisas que falou a Bond sobre sua família e sobre como algumas perdas são para sempre — “tudo que nós podemos fazer é aprender a lidar com elas”, conclui Hannah.  Os demais presentes escutam a conversa discretamente, e vemos Alice se enternecer com as palavras de Hannah.

Na calada da noite, o grupo — Hannah, Alice, Bond, Q e Moneypenny — invade o prédio do MI6 para que Q possa ter acesso a uma das suas máquinas de detecção radioativa. A traquitana, que ocupa uma sala inteira no prédio, tem uma enorme antena capaz de detectar eventos de radiação basicamente em todo o planeta. Bond, Alice e Hannah descrevem como podem a tecnologia de DRACO e o uso de urânio para o seu funcionamento enquanto Q pressiona botões, faz ajustes e gira controles na máquina. “Mas é uma máquina do tempo, você consegue detectá-la?”, pergunta Alice. “Não se preocupe”, responde Q. “Eu tenho alguma experiência”

Neste momento, Q pressiona um grande botão vermelho, a antena se move e, na pequena tela posicionada no centro da máquina, um ponto branco começa a se movimentar por um sistema de coordenadas. Q nota que a máquina está detectando um evento radioativo crescente na costa de Livorno, na Itália. Enquanto todos concordam em partir imediatamente para o local, Bond faz uma expressão de temor que passa despercebida pelos demais.

O quinteto chega a Livorno e é recebido por Felix Leiter, que deixou a China para colaborar com o grupo e colher informações para a CIA. Leiter, inicialmente chocado com a velhice de Bond, entende quando ouve a explicação de tudo: “eu nunca esperaria nenhuma outra coisa de você, meu velho amigo”. “Ênfase no velho”, retruca Bond.

O grupo, agora com seis integrantes, dirige-se ao local captado por Q como o ponto de emissão da radioatividade. É um grande campo aberto na costa de Livorno, em cima de uma falésia que dá diretamente no mar algumas dezenas de metros abaixo. O belíssimo dia ensolarado dá um ar ligeiramente surreal ao evento macabro que está por vir.

No centro do campo, uma grande torre metálica abriga DRACO num compartimento. Os membros da SPECTRE se reúnem em volta da torre, com suas capas prateadas. Mary, que lidera o acontecimento, logo percebe a chegada dos agentes e brada aos quatro ventos: “bem-vindos, heróis do mundo! Bem-vindo, James! Estávamos apenas aguardando a sua chegada”.

Enquanto o grupo para, Bond continua se aproximando de Mary e da torre, dizendo que a festa acabou. Mary o interrompe: “não se afobe, meu querido James. Antes de tudo, façamos nossas introduções formais, já que nunca fomos devidamente apresentados. Você é James Bond, agente 007 — um pouco fora de forma, devo notar”. Os agentes da SPECTRE riem discretamente. “E eu sou Mary Blofeld, fruto da sua nêmesis”.

Os agentes, e o próprio Bond, sobressaltam-se com a revelação enquanto Mary continua: “Meu pai lamenta muito não poder estar aqui hoje, mas sabe como é. Negócios são negócios. E vocês têm ingressos privilegiados para testemunhar a ascensão da SPECTRE!”, completa.

“Isso acaba aqui!”, exclama Hannah, de longe. “Não, minha querida Hannah!”, responde Mary. “Isso é só o começo”. 

Mary explica a razão deles estarem na costa de Livorno: aquele é o local onde Tracy, nascida na ilha de Córsega, próxima dali, passou boa parte da sua vida. A SPECTRE fará, ali, sua volta final no tempo, retornando ao ano de 1962 e gerando energia temporal suficiente para produzir inúmeras cópias de DRACO. Bond, o único com experiência para operar DRACO, será o comandante da viagem.

“Vocês devem estar loucos!”, diz Moneypenny. Mary, então, calmamente explica que aquela é uma oferta que Bond nunca recusará: com a tecnologia da nova torre desenvolvida pela SPECTRE, ele poderá retornar à sua juventude em 1962, conhecer Tracy antes da linha do tempo original e alterar seu destino, vivendo uma vida longa e feliz ao lado da sua amada. Bond para, considerando a oferta.

Hannah e os agentes, atrás, olham horrorizados em expectativa. Bond volta-se para trás. “Não é uma ideia ruim”, diz ele, dirigindo-se a Hannah. “Você pode voltar e salvar sua família, também”. Ele se vira para Moneypenny: “e M também poderá ser salvo. E todas as pessoas que amávamos e perdemos”

Bond começa a caminhar em direção à torre. Os agentes tentam convencê-lo do contrário enquanto Mary comemora, com um sorriso de orelha a orelha: “Sim, Bond, sim! Apenas imagine! Apenas uma alavanca a ser puxada. Apenas uma… e você verá Tracy bem aqui, caminhando pelas ruas da cidade, jovem, bela… e viva. Venha, Bond, e conheça o seu destino…”.

Bond chega aos pés da torre, onde uma grande alavanca o aguarda. Ele segura a alavanca com uma das mãos e olha para trás, em direção aos agentes. “Me desculpem…”, diz ele, enquanto todos levam às mãos à boca. Em um movimento rápido, Bond agarra e quebra a alavanca sem acioná-la. “Me desculpem, mas eu já estou farto de todo o tempo do mundo”.

Mary, possessa, ordena que os agentes da SPECTRE peguem Bond. Todos começam a correr em direção ao agente. Hannah, então, pensa rápido: tira da bolsa sua Kodak Instamatic entregue por Q, pede que todos fiquem atrás dela e grita para que Bond se esconda atrás da torre. Ela aponta a câmera para a cena e pressiona o botão de disparo. A traquitana dispara um laser que congela todas as pessoas no quadro, inclusive Mary; Bond consegue escapar. Ainda com todos os vilões congelados, Q parte em disparada e pede que Hannah segure os oponentes por todo o tempo que conseguir. Q chega na torre e tenta entender o seu funcionamento, enquanto Bond se junta ao restante do grupo. A câmera começa a esquentar nas mãos de Hannah, que tenta segurá-la o máximo de tempo possível. Hannah pede que Q agilize, mas a esse ponto a câmera já começa a soltar fumaça e ferver em brasa, queimando as mãos da agente. A câmera irrompe em chamas e Hannah solta o objeto no chão, libertando os vilões do transe. Todos eles rumam em direção à torre para tirar Q de lá.

“Beach Barbeque”, Keith Mansfield – A triunfante canção que explode quando Bond revela suas verdadeiras intenções e marca o ritmo da cena de ação subsequente.

Começa aqui uma enorme e climática cena de ação: Felix entrega uma arma a Moneypenny e todos partem para ajudar Q, combatendo os agentes da SPECTRE e avançando em direção à torre. As forças combinadas de todos — o poder de combate de Hannah, a elegância sutil de Bond, a experiência recém-adquirida de Hannah, a tática apuradíssima de Felix e a agressividade vingativa de Moneypenny — fazem com que o grupo destrua qualquer vilão pelo seu caminho, num balé violento e ensolarado pela costa italiana. Em um determinado momento da cruzada, Bond se depara com Alfie, mais truculento que nunca; Bond não é páreo à força física do seu oponente, mas consegue desviar elegantemente dos seus golpes e, eventualmente, consegue finalizá-lo com um tiro.

O grupo enfim alcança a torre, com um exército de agentes da SPECTRE caídos no chão ao redor e Q tentando proteger-se dos ataques. Neste momento, ouvimos um sonoro “CHEGA!” e todos caem no chão, atingidos por uma onda energética emitida pela torre. Mary sai de trás do artefato, exasperada, e diz que ela mesma completará a missão. “E todos vocês vão sumir no tempo, seus miseráveis!”, completa ela.

Atordoados, os agentes conseguem apenas assistir enquanto Mary reajusta DRACO no centro da torre e começa a operar seus botões e manípulos. Bond tenta se levantar para impedi-la, mas Q gentilmente pousa a mão sobre a mão do agente, como se o impedisse. Bond olha para ela, entendendo tudo. Com uma chave de fenda, Mary consegue acionar a alavanca anteriormente quebrada por Bond. “Até nunca mais, idiotas”, finaliza ela.

Um feixe de luz prateado sobe da torre em direção ao céu e engole Mary, que ri loucamente, em sua luminância. Todos olham fascinados para a cena enquanto Mary percebe que há algo de errado: em vez do tempo voltar, ela é que está avançando no tempo — e rápido. A superfície de metal polido da torre reflete a imagem da jovem, que vê sua pele lentamente se enrugar, as marcas da idade invadirem o seu rosto, as rugas surgirem, o cabelo perder a cor, as manchas começarem a aparecer… em questão de instantes, Mary recebe o fluxo temporal de todo o meio século que viveu sem envelhecer, tornando-se, ao final, uma senhora alquebrada e frágil. O feixe de luz torna-se cada vez mais forte, destruindo a torre e DRACO. Por fim, o fenômeno se encerra e Mary cai no chão, extremamente enfraquecida. Os agentes olham para Q, sorrindo.

Bond e Alice se levantam e aproximam-se de Mary. “Você está presa, Mary Ellenberg”, diz Bond. “E nós vamos ter que dar uma palavrinha com seu pai em algum momento”, completa Alice. Felix leva Mary embora, enquanto Hannah, Q e Moneypenny olham para a torre temporal, ainda assombrados. Alice aproxima-se de Hannah e estende a mão: “vamos?”.

Tela escura. Um acorde de guitarra. A imagem se abre e vemos o The Who performar “The Kids Are Alright” num palco para uma plateia ensandecida. É uma tarde bonita e ensolarada. A câmera viaja pelo local do show e vemos Hannah, Alice, Q e Moneypenny divertindo-se com a música na primeira fileira. O mundo inteiro comemora a chegada do ano-novo, e a legenda em tela finalmente diz: LONDRES, 1970.

“The Kids Are Alright”, The Who – A canção tocada pelo The Who no show.

Na saída do show, o quarteto, sorridente, comenta a promoção de Moneypenny, que será o novo chefe do MI6 — o novo M. Q pede uma sala maior. Todos riem, se divertem e, eventualmente, se despedem. Hannah e Alice ficam sozinhas e entram no Mini de Alice, com Hannah no volante.

“E a sua promoção? Não podemos comentar ainda?”, pergunta Alice a Hannah. “Eles vão saber em breve. Moneypenny vai se divertir”. As duas sorriem.

Hannah pousa a mão sobre a manopla de câmbio. “Qual a nossa próxima missão, 0012?”, pergunta. Alice pousa a mão sobre a mão de Hannah. “Você que me diz, 007”.

O Mini solta uma rajada de fogo do seu carburador e parte a mil pelas ruas de Londres.

Tela escura novamente e vemos um bar à beira da praia. A câmera faz uma lenta panorâmica pelo lugar até concentrar-se em Bond, vestido com roupas “civis” e saboreando um belo martini — batido, não mexido. Ele sai caminhando pela praia e podemos ver o Aston Martin DB5, restaurado e devolvido ao seu verdadeiro dono, estacionado nas proximidades. Percebemos que a praia é a mesma em que Bond conheceu Tracy sabe-se lá quantos anos antes. Ou seria apenas um ano antes?

Ele olha para o mar e sorri. Após alguns segundos contemplando a imensidão do oceano, ele é surpreendido por uma senhora (Ursula Andress). “Bonito, não?”, pergunta ela. Ele diz que sim, muito bonito. Ela diz que esteve observando Bond no bar. Ele sorri. Ela segue: “você gostaria de voltar e tomar mais um drinque comigo, senhor…?”.

Bond segue olhando para ela por mais alguns segundos e, com um sorrisinho, desvia levemente o olhar em direção à câmera. Tela preta. “Blackberry Way” toca sobre os créditos finais.

“Blackberry Way”, The Move – A despedida nos créditos finais.

A música é interrompida e uma cena pós-créditos nos leva de volta à sala escura do Palácio de Verão, em Pequim. Os membros remanescentes da SPECTRE observam enquanto Blofeld caminha lentamente pelo recinto. Na mesa, um brilho prateado fantasmagórico é projetado de uma máquina semelhante a DRACO, mas com aparência mais moderna.

“A batalha foi perdida, meus amigos, mas não a guerra”, diz Blofeld. “James Bond se aposentou e uma impostora tomou seu lugar como 007, o que significa que temos uma oportunidade única em mãos”.

Começamos a ouvir tambores ritualísticos e fogueiras sendo acesas nos cantos da sala, como num ritual voodoo. Vemos, de costas, um homem jovem, aloirado, sentado a uma das extremidades da mesa. Os tambores parecem realizar uma espécie de hipnose.

“Live and Let Die”, Paul McCartney & Wings – Um retorno inesperado.

Os acordes iniciais de “Live and Let Die” se juntam aos tambores. Blofeld se aproxima do homem, que continuamos vendo apenas de costas.

“Está pronto para tomar o lugar que é seu de direito, Mr. Bond?”, pergunta Blofeld ao homem.

Enfim vemos o homem de frente (Roger Moore, recriado digitalmente em sua versão jovem). 

“Sim, mestre”, ele responde. 

Seus olhos, vidrados pela hipnose, refletem o fogo e a câmera se aproxima lentamente do seu rosto em um close-up enquanto Paul McCartney diz “Say live and let die…” e a música explode em seu clímax. Sobre essa imagem, uma mensagem surge em tela: 

JAMES BOND WILL RETURN
in
“THE BROKEN BONDS”

Fim.

Imagens

Pôster alternativo do filme, lançado no primeiro aniversário de lançamento (quando a presença de George Lazenby já não era mais considerada spoiler)
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