de Todd Field
produzido por Bruno S.
com Judi Dench e Lin-Manuel Miranda
30 de maio de 2020 (2º Festival de Cannes)
🇺🇸 Estados Unidos
Drama / Suspense
Sinopse: Earl e Jeannie Hill (McKellen e Dench) vivem uma vida tranquila e abastada numa cidade costeira do Maine. Tudo muda, entretanto, quando seu filho adotivo Martin (Miranda) volta após 20 anos de sumiço — e trazendo com ele um segredo que todos tentaram esconder.
Vencedor de 8 prêmios, incluindo o Oscar de Melhor Atriz para Judi Dench. Parte da Criterion Collection.
Consenso da Crítica: Nem a performance inspirada de Judi Dench nem a sutil crítica social são capazes de salvar o roteiro sem foco ou a atmosfera excessivamente monótona de “The Clearing”, um raro tropeço do diretor e roteirista Todd Field.
Média da crítica
64
Média do público
–
Tomatômetro

57%
Pipocômetro

-%
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Ficha Técnica
Direção: Todd Field
Roteiro: Todd Field
Produção: Bruno S.
Música: Philip Glass
Fotografia: Bradford Young
Figurinos: Melissa Toth
Distribuição: Focus Features
Plataforma: Catflix
Elenco
Judi Dench como Jeannie Hill
Lin-Manuel Miranda como Martin
Anya Taylor-Joy como Olivia
Ian McKellen como Earl Hill
Proposta Estética
Segue o mesmo estilo dos outros filmes de Todd Field, “In The Bedroom” e “Little Children”: um clima geral de monotonia, com fotografia dessaturada, poucos movimentos de câmera e planos abertos, com pequenos “estouros” aqui e ali, onde a câmera se movimenta e fecha no rosto dos atores, a música entra e o universo em cena parece se abrir diante dos olhos do espectador.
Tudo é muito sutil e o não-dito é ainda mais importante que o dito: emoções são contidas, falas são proferidas em tom baixo e não há grandes arroubos emocionais ou cenas catárticas. Mesmo tratando de temas espinhosos, como racismo e colonialismo, nenhum desses termos é jamais mencionado por nome pelos personagens — refletindo a própria incapacidade deles em tratar dessas questões frontalmente.
Narrativa
Cape Elizabeth, Maine: uma pequena cidade costeira com os típicos ares suburbanos dos Estados Unidos — ruas frondosas, casas bonitas, gramados bem aparados, vizinhos prestativos e jornaleiros que passam de bicicleta entregando as notícias do dia.
Neste cenário, somos apresentados a Earl (Ian McKellen) e Jeannie Hill (Judi Dench), um casal de idosos perfeitamente integrado à comunidade e reverenciado por todos. Nas cenas iniciais, acompanhamos o dia-a-dia aparentemente tranquilo do casal e vamos capturando alguns detalhes sobre as suas vidas: os dois, britânicos de Manchester, emigraram para os EUA no fim da juventude; Earl construiu um pequeno império pesqueiro com a Hill’s Fishing, enquanto Jeannie ganhou renome na área de advocacia defendendo casos pro bono (de graça, para pessoas em situação de vulnerabilidade); no processo, ambos ajudaram a construir a comunidade de Cape Elizabeth e fazê-la prosperar. Na velhice, aposentaram-se, preenchendo seus dias com jardinagem, idas à igreja e longas partidas de bocha.
Em um dia nublado, um homem de semblante sombrio bate à porta dos Hill: Martin (Lin-Manuel Miranda). Earl, embora preocupado, parece contente em revê-lo; Jeannie, por outro lado, mostra-se atônita. A conversa que segue entre os três é tensa — não há animosidades explícitas no ar, apenas uma sensação de que algo pode explodir a qualquer momento.
É aí que, pelas entrelinhas da conversa, descobrimos quem é aquele homem: Martin, de ascendência porto-riquenha, foi adotado por Earl e Jeannie ainda criança, pouco depois do casal chegar aos EUA; o menino foi criado pelos Hill como seu filho legítimo e a família prosperou pelos anos seguintes. Quando Martin tinha 17 anos, entretanto, Cape Elizabeth foi tomada por uma série de assassinatos — crimes desconexos, com vítimas variadas e sem um padrão de foco. A polícia não conseguiu identificar a autoria do crime, mas as suspeitas da cidade rapidamente recaíram sobre Martin; incapaz de permanecer com a atmosfera de animosidade, ele deixou Cape Elizabeth sem despedir-se dos pais e sem deixar traços. Os crimes cessaram, a cidade varreu a sujeira para debaixo do tapete e os Hill, incapazes de localizar o filho, seguiram em frente, basicamente apagando todos os traços da existência de Martin.
Agora, mais de duas décadas depois, Martin voltou — e, para a surpresa dos Hill, com uma filha: Olivia (Anya Taylor-Joy). Martin explica que conseguiu construir uma vida relativamente estável no Texas, mas os traumas da juventude o fizeram cair no alcoolismo; com isso, ele perdeu o emprego e a esposa, mãe de Olivia. De volta a Cape Elizabeth, Martin não quer nada dos pais — nada além de um tempo para se reestabelecer e formar laços entre Olivia e seus avós.
Earl e Olivia rapidamente formam uma amizade, com o avô ensinando a neta a pescar e cuidar do jardim. Jeannie, por outro lado, fecha-se mais ainda: ela não consegue superar o ressentimento do filho ter deixado a cidade sem deixar traços ou sequer uma despedida. Martin também tem uma profunda mágoa com a sua mãe, uma exímia advogada que sequer tentou defender o próprio filho quando ele se viu injustamente acusado de uma série de crimes hediondos.
Cape Elizabeth, por sua vez, reage mal à volta de Martin — não só pelas pessoas que ainda suspeitam que ele tenha cometido os assassinatos vinte e tantos anos atrás, mas principalmente por terem que ver aquele rosto sombrio, marcado pelo tempo, andando pela vizinhança.
O pior, então, acontece: o corpo de Henry Turner, um adolescente vizinho dos Hill, aparece boiando próximo ao farol da cidade. A polícia local, altamente incompetente pelas décadas sem intercorrências, começa a investigar. Os habitantes de Cape Elizabeth, por outro lado, já têm o veredito nas mãos: Martin só pode ser o culpado novamente — e não só ele, mas também Olivia, que ele está criando para sucedê-lo nos assassinatos.
Enfrentando a mesma situação de décadas atrás, os Hill têm a chance de corrigir seus erros do passado. Earl aciona a equipe de investigação da Hill’s Fishing, agora controlada por sócios em Chicago; Jeannie, por sua vez, tenta usar seu talento retórico para convencer a comunidade de que seu filho e sua neta são inocentes. Já Olivia encara o mistério de frente — e resolve investigar o crime por conta própria.
Martin, enquanto isso, resolve descobrir mais sobre o seu passado. Ele dirige até uma área muito mais empobrecida do estado e, pela primeira vez desde a infância, visita Paloma, sua mãe biológica. Ela revela que fez parte de um grupo de porto-riquenhos que, atraídos pelo projeto pesqueiro criado por Earl, chegou ao Maine décadas atrás em busca de trabalho. Paloma conta que, após ajudar Earl a prosperar, a comunidade de porto-riquenhos foi, um a um, expulsa da comunidade — não por métodos explicitamente brutais, mas por microviolências, pressões insidiosas e pequenos atos de intolerância. Paloma foi a única a manter-se por perto, justamente por conta do nascimento de Martin.
Martin liga os pontos e percebe que Earl é seu pai biológico. Pressionada, Paloma revela que Jeannie aceitou adotar o menino para evitar um escândalo na cidade, sob a condição de que o adultério de Earl nunca fosse revelado. Contra a própria vontade, Paloma entregou Martin (que ela pronuncia “Martín”) aos Hill na esperança de dar uma vida melhor ao filho — e retirou-se para uma cidade mais pobre a algumas horas de distância.
Olivia, seguindo os passos de Henry Turner, integra-se ao seu grupo de amigos: Sid (o filho do policial), Jimmy (o filho do pastor) e Stanley (o filho do diretor do colégio local). Os três exibem um certo desconforto em tê-la por perto, mas, na flor dos hormônios juvenis, não dispensam a presença da única garota que lhes dá atenção. Earl alerta à neta que eles não são exatamente o grupo de jovens mais amigável das redondezas, mas ela persiste, decidida a encontrar pistas.
A equipe de investigação da Hill’s Fishing não traz bons resultados para Earl, informando que o único elo aparente entre os crimes do passado e o assassinato de Henry Turner é justamente Martin. Jeannie, por sua vez, não consegue convencer a vizinhança da inocência da sua família. Martin volta da sua jornada e confronta os pais, finalmente pondo para fora décadas de ressentimento. Earl pede perdão, enquanto Jeannie desaba, afirmando que o talento dela, tão efetivo nos tribunais, é incapaz de ser replicado no tecido subconsciente daquela comunidade.
Olivia, durante um chat online com os três amigos, descobre que Henry Turner era homossexual. Ela, então, deduz que Sid, Jimmy e Stanley mataram Henry — um crime de ódio com motivação dupla, visando ressucitar as suspeitas sobre Martin. Olivia conta sobre as suas suspeitas à família, adicionando que, muito provavelmente, os pais do trio cometeram os crimes originais décadas antes com o mesmo objetivo: eliminar o estranho no ninho. Jeannie aponta, então, que as convicções de Olivia são apenas isso: convicções — assim como a cidade não pode provar que Martin cometeu os crimes, Olivia não pode provar que os adolescentes o fizeram.
Eventualmente, a presença de Martin em Cape Elizabeth torna-se novamente insustentável. Agora, entretanto, ele também tem a chance de corrigir os erros do passado e dá a opção de Earl e Jeannie partirem com ele e Olivia. O casal entra num dilema: por um lado, abandonar o filho novamente (e a neta, agora) é um prospecto pavoroso; por outro, deixar a cidade seria abrir mão de tudo o que eles construíram e de um fim de vida tranquilo e pacato.
Corte temporal. Vemos Jeannie sozinha na casa, andando pelos corredores e observando a vizinhança da varanda com um olhar distante — a mesma vizinhança perfeita, com gramados bem aparados e o jornaleiro, do início do filme. Uma de suas vizinhas, jovem, passa em frente à casa de Jeannie, passeando com um cachorro. A moça lança um olhar condescendente a Jeannie e inicia uma conversa fiada, respondida sem muito interesse. Até que, em um determinado momento, a vizinha muda de expressão e, com uma cara de tristeza evidentemente fabricada, expressa sentimentos por Earl ter partido com “os imigrantes”.
Jeannie lança um sorriso frio à moça e responde: “Obrigada”.
O olhar de Jeannie permanece distante. Em silêncio, a câmera sobe, revelando os cenários verdejantes da cidade com o farol e o mar ao fundo. Corte para a tela preta.
Oscar Tapes
Judi Dench: Jeannie é uma protagonista *quase* passiva: todos os eventos do filme são mostrados do olhar dela, que — por falta de ímpeto e décadas de acomodação — não consegue ou não quer reagir ao mundo desmoronando à sua volta. A Oscar tape dela é uma das suas cenas finais: a confrontação com Martin e Earl, quando ela finalmente expressa a incapacidade de lidar com aquela situação e admite não ter mais forças para reverter a situação.
Lin-Manuel Miranda: Martin finalmente explicando a Olivia sobre as circunstâncias que o obrigaram a deixar Cape Elizabeth décadas antes. Sua fala é confusa e entrecortada, evidenciando sua incapacidade de articulação (que se estende a todos os personagens do filme, exceto talvez Olivia); as informações são passadas muito mais pelas emoções no rosto do personagem do que pelo texto em si.
Anya Taylor-Joy: Uma cena completamente sem falas, com um close no rosto de Olivia enquanto ela caminha pelas ruas de Cape Elizabeth. Inicialmente seu semblante é despreocupado, mas conforme ela vai percebendo os olhares pouco amigáveis direcionados a ela, a expressão da jovem vai mudando gradualmente: primeiro para o desconforto, depois para a preocupação e, por fim (quando ela começa a correr), o medo.
Ian McKellen: Earl e Olivia sentados nas pedras da costa de Cape Elizabeth, com o farol ao fundo. O som do vento é entrecortado apenas pela fala esparsa de Earl, que, olhando para o horizonte, confabula sobre o passado, sobre o papel dele na construção daquela comunidade e sobre tudo o que ele faria de diferente caso tivesse a oportunidade de recomeçar.
Trilha Sonora
Notícias
Prêmios
Total de 8 prêmios e 27 indicações. Clique aqui para ver todos os prêmios da 2ª temporada.
2º Festival de Cannes
- Prêmio de Interpretação Masculina, Ian McKellen (venceu)
2º Festival de Toronto
- Melhor Filme (2º lugar)
2º Screen Actors Guild Awards (SAG)
- Atriz, Judi Dench (indicada)
2º BAFTA
- Atriz, Judi Dench (indicada)
- Figurino, Melissa Toth (indicada)
2º Globo de Ouro
- Filme de Drama (indicado)
- Atriz de Drama, Judi Dench (indicada)
- Atriz Coadjuvante, Anya Taylor-Joy (indicada)
2º Oscar
- Atriz, Judi Dench (venceu, empate com Jane Fonda por A Chin of Gold)
- Filme (indicado)
- Direção, Todd Field (indicado)
- Ator, Lin-Manuel Miranda (indicado)
- Atriz Coadjuvante, Anya Taylor-Joy (indicada)
- Ator Coadjuvante, Ian McKellen (indicado)
- Roteiro, Todd Field (indicado)
- Fotografia, Bradford Young (indicado)
- Figurino, Melissa Toth (indicada)
- Trilha Sonora, Philip Glass (indicado)
- Canção Não-Original: “Mad Rush”, Philip Glass (indicado)
Premiações da Crítica
- Atriz, Judi Dench (4 prêmios, 1 vice)
- Ator Coadjuvante, Ian McKellen (2 prêmios, 1 vice)
Críticas do Júri
78
Saint Catherine Film Critics Society
Surpresa é como me definiria vendo esse filme, uma trama amarrada que te surpreende com informações novas o tempo todo, a única talvez um pouco mais frouxa tenha sido a da personagem Olivia, quando assume um pouco mais de protagonismo é engolida pelas outras amarrações. Judi Dench conhecida por papeis de mulheres firmes cede nesse e nos entrega uma atuação linda e vulnerável ao contrário de seu colega de elenco Lin-Manuel que não consegue convencer no seu papel mais dramático.
73
Kings’ Bay Film Critics Circle
Incompleto enquanto drama familiar e incompleto enquanto mistério, The Clearing encontra seu caminho ao se mostrar um retrato do encontro da violência invisível com a supremacia branca fundamentalista estadunidense. Conduzidos meticulosamente por Field, McKellen, Dench e Miranda mostram em cena a dor das feridas que acumularam ao longo dos anos. Taylor-Joy, mesmo no segmento mais deficiente do filme, mostra a tragetória de uma jovem mulher amadurecendo e encontrando força em meio à tragédia.
66
San City Film Critics Association
Todd Field conta uma história sobre rancor, remorso e o peso que a falta de posição e neutralidade sobre preconceito e vingança pode fazer na vida de alguém, muitas vezes marcando as suas vítimas para sempre. Com um roteiro conciso, mas que falha às vezes em mostrar exatamente o que quer dizer, a maior força de The Clearing é Judi Dench, que entrega uma performance totalmente de acordo com sua personagem.
65
Syndicat Français de la Critique de Cinéma
O roteiro me fez lembrar imediatamente de Blow the man down, de Daniele Krudy e Bridget Savage, mas sem o charme dos musicais e com uma diferença que talvez seja o maior defeito de The clearing: o fio condutor da história. A personagem de Anya Taylor-Joy teria dado a energia e vivacidade que faltam à história de Todd Field caso fosse ela a nos apresentar e conduzir na história de ressentimento de sua família.
56
South Brazil Film Critics Circle
Mesmo com um elenco impecável e que faz o possível com o roteiro problemático que tem, The Clearing se perde na sua própria proposta, começando bem e decaindo aos poucos, terminando de maneira péssima, nem parecendo o mesmo filme do início. Um desperdício de elenco consistente e talentoso, que mesmo no meio de tantos problemas, conseguem brilhar.
56
Oz Film Critics Society
Se perde ao não decidir se é um filme jurídico, de denúncia social, drama familiar ou mistério adolescente. Tenta abraçar tudo e não aborda nada com profundidade, talvez se fosse uma minissérie tivesse mais sucesso nisso. O contido e sutil tem seu lugar no cinema, mas só é interessante quando faz um contraponto, não quando o filme todo é assim: sem graça, parado, anestesiado e inconsistente.
54
Rio Film Critics Circle
The Clearing é uma bagunça extraordinariamente poderosa, o filme abre brilhantemente, depois vai indo e chega no ponto que se perde em seu conteúdo, rumo ao desastroso. Tem uma boa trilha e atuações comuns – com a exceção de Dench e Anya Taylor-Joy que se destacam.




