de Guillermo del Toro
produzido por Júlia Fraga
com Isabelle Huppert e Michael Caine
30 de maio de 2020 (2º Festival de Cannes)
🇬🇧 Reino Unido
Fantasia / Drama / Suspense
Sinopse: Sylvine (Huppert) teve sua vida destruída por Antonio (Caine) e se exilou em um casarão com a filha Miranda (Collette). Anos depois, ela prepara sua vingança, junto a seu servo, Ariel (Seydoux), um espírito natural, não hesitando em usar os poderes dele para o seu fim.
Vencedor de 5 prêmios, incluindo o Prêmio de Interpretação Feminina em Cannes para Toni Collette. Parte da Criterion Collection.
Consenso da Crítica: Bebendo da fonte de Shakespeare, Guillermo del Toro faz mais uma bela incursão ao gênero do realismo mágico com performances inspiradas de Isabelle Huppert e Toni Collette.
Média da crítica
75
Média do público
–
Tomatômetro

86%
Pipocômetro

-%
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Ficha Técnica
Direção: Guillermo del Toro
Roteiro: Guillermo del Toro
Produção: Júlia Fraga
Fotografia: Dan Laustsen
Música: Javier Navarrete
Distribuição: Searchlight Pictures
Plataforma: Catflix
Elenco
Isabelle Huppert como Sylvine
Michael Caine como Antonio
Toni Collette como Miranda
Léa Seydoux como Ariel
Proposta Estética
Adaptação (bem) livre de A Tempestade, de William Shakespeare.
O filme segue o estilo autoral de Guillermo del Toro, como em A Forma d’água e O Labirinto do Fauno, em que os ambientes sombrios possuem o toque do fantástico em sua concepção. A ambientação é sempre focada nas cores dos cômodos da casa de Sylvine, já que é o cenário principal, então todos os tons são terrosos ou acinzentados, dando a ideia de uma tempestade não só exterior como interior. Os flashbacks não se diferem do que é real, mostrando que a cronologia é mista para a personagem principal, que ainda vive em seu passado.
Os sons do filme são muito orgânicos, podemos ouvir a chuva quase o tempo todo. Trilha feita por Javier Navarrete, já uma companhia de longa data de del Toro.
Narrativa
Uma chuva ininterrupta cai sobre o terreno em que a casa de Sylvine (Isabelle Huppert) se encontra. Ela e a filha, Miranda (Toni Collette), moram nesse ambiente sombrio desde a pequena infância da menina. Miranda, já adulta, tem a impressão de que nunca viu a luz do sol, já que seus arredores são sempre cinzentos e úmidos por conta dessa tempestade que nunca parece cessar. Ela sente que existe algo ruim nesse lugar. Olhando pela janela, Miranda vê uma luz trêmula que parecem faróis se aproximando. Ela pede para que esse visitante seja para ela, já que não se lembra de outra companhia a não ser sua mãe, excetuando-se presenças antigas e estranhas que não sabe se são reais ou se são sonhos. A mãe ouve e se aproxima da janela, dizendo que ela já esperava essa visita há mais de 40 anos, mas que ainda era cedo demais. Ela rapidamente se dirige ao porão. Miranda observa que a luz dos faróis parece congelada e ela se sente estranhamente sonolenta.
As imagens que invadem a tela são extremamente oníricas e partem da perspectiva de Miranda. Ela se perde na miríade de lembranças que não sabem se são reais: Miranda criança ouvindo uma voz fina e melodiosa ao ir às escondidas na entrada do porão de casa; As diversas vezes que encontrou livros fantásticos perdidos no assoalho, doces deliciosos embaixo de seu travesseiro e tecidos magníficos pendurados em sua janela para que ela pudesse costurar seus vestidos; Miranda, já mais velha, em sua cama febril vendo uma figura andrógina muito pálida tocando sua testa; As muitas vezes que tinha certeza que ouvia um canto toda vez que um raio atingia o chão dos arredores da antiga casa; os relances de sua imagem ao ver a porta do porão se fechando atrás de sua mãe.
Diferentemente das memórias sobre sua mãe. As duas eram estranhas que moravam sob o mesmo teto. Miranda sabia que existia muito mais na relação delas, que existia uma parceria e um amor que não era dito. Para ela, a mãe era como a tempestade que nunca havia cessado por carregar coisas demais em si.
Miranda acorda em sua cama, com a mãe ao seu lado. Sylvine diz que já está na hora de conhecer a sua história.
Sylvine narra sua história. (Não existe flashback nesse momento. A câmera nesse momento se mantem fixa na personagem, capturando seu monólogo de forma bruta — 10 minutos de fala, no máximo). Ela conta que foi adotada, já com 14 anos, por uma família muito rica. Ao se formar, ela se tornara a responsável por gerenciar os bens dos seus pais adotivos. Por isso, seu irmão mais velho que nunca aceitou como irmã, Antonio, não ficava satisfeito. Apesar de seu perfil esbanjador, Antonio convence que ele seja o responsável pelas riquezas da família, deixando Sylvine como uma dependente inerte de seus pais. Ela, com 20 anos, decide visitar familiares distantes para poder pensar em como seguiria com sua vida agora que se sentia perdida. Seus tios distantes, eram tidos como eremitas reclusos, focados em seus estudos sobre a natureza. Em um dos dias de sua estadia, Sylvine acompanha seus tios em uma pesquisa de campo e coisas estranhas começam a acontecer. Em meio a uma floresta densa, eles encontram o que parecia ser uma criança extremamente pálida, amarrada em uma árvore. A criança chorava. Os tios se aproximaram e a figura que antes parecia indefesa se enche de luz e vocaliza um som terrível. Ambos caem mortos e a jovem se vê sozinha diante daquela coisa e sente uma ira enorme e vai confrontar o que estava preso na árvore. A figura se encolhe e Sylvine consegue a capturar. Ela arrasta a forma, agora novamente de uma criança, até a casa onde está hospedada e a tortura. Sylvine não sente culpa, somente sente que deve continuar. A forma se estabiliza em um corpo jovem, sem muita definição de gênero, e extremamente pálido. Sylvine comanda que a forma se comunique. A forma se nomeia como Ariel (Lea Seydoux) e diz que é um espírito da natureza, que tinha sido capturado por uma bruxa e que foi deixada para morrer na floresta ao se recusar a forma uma aliança mágica com ela. Ela continua sua explicação dizendo ser inocente pelas mortes, mas ela não aceita e pede que Ariel jure total servidão a ela. Ariel aceita. Sylvine então tenta aprender a controlar os poderes de Ariel e estuda a magia da natureza. Um dia, seus pais e seu irmão aparecem e veem uma jovem delirante, que fala sozinha e diz controlar os espíritos da natureza. Eles descobrem os corpos dos familiares e, o jovem Antonio convence os pais a internarem-na imediatamente. Ela passa alguns anos, relutantemente, em tratamento, sob remédios fortíssimos e com a presença de Ariel em seu quarto, mas incapaz de controlar o espírito por estar anestesiada da realidade. Em um momento de lucidez, ela consegue enganar as enfermeiras, joga seus remédios fora e comanda que Ariel a liberte. Um raio cai sobre o prédio e um redemoinho leva Sylvine para longe. Depois da fuga, ela se vê compelida a viver uma vida de luxúria, esbanjamento e poder. Passam-se anos. Sylvine decide visitar a casa de seus pais. Quando chega, vê um local abandonado e, seu irmão sentado no escritório de seu pai.
Temos o foco em Miranda agora, perplexa.
Nesse momento, entramos em um flashback e finalmente vemos o rosto de Antonio (Michael Caine). Ele inicia um discurso sobre como a loucura de Sylvine caiu como uma luva em seu plano de desmascarar a mentira de seu pai: ela não era filha legítima e, apesar disso, estava com total controle da fortuna da família. Antonio ironiza toda a vida de Sylvine e, a agarra violentamente enquanto cospe as palavras próximas a seu rosto. Ela fica apavorada. Ele a violenta e a deixa jogada no chão, ainda ecoando as palavras de ódio. Ariel aparece e, com um sopro de seu poder, protege a casa com uma tempestade, fazendo quase impossível a chegada de alguma pessoa. Sylvine se descobre grávida. Ao nascer, ela recebe o nome de Miranda.
Somos novamente trazidos para o momento em que Sylvine conta a história para a filha. Ela diz que mantinha Ariel no porão para proteger a filha e conta que desde o momento em que viu os olhos de Miranda pela primeira vez, percebeu que a filha era dotada de pura bondade. Ela diz que jurou vingança a Antonio e que desde então plantou pequenas armadilhas para que o homem se sentisse atraído pelo poder que ela possuía a fim de trazê-lo para a casa e concretizar a sua vingança.
A câmera foca nos faróis através da janela que, de congelados passam a se movimentar e se aproximar da casa. Vemos Ariel se tornar uma figura bem vestida e abrir a porta como um criado. Antônio entra. Sylvine o convida para o jantar. Miranda se sente confusa e não entende como seus pés se movimentam até a sala de jantar. Ela olha fixamente para Ariel.
Sentado na cabeceira, Antonio carrega um ar vitorioso de superioridade e, ao falar com Sylvine, se mostra condescendente e plástico. Ele agradece o convite e se diz aliviado que a “irmã” (ele a chama de “irmãzinha”, ironicamente) tenha acordado para a realidade. Ele conta que os pais estariam orgulhosos de seus atos agora, se não estivessem mortos há anos. Sylvine estremece, mas se mantém firme.
O jantar é fartamente servido. Miranda ainda não entende como ela está se movimentando, sente-se movida por imãs e em uma bolha de compreensão do que é real. Miranda ainda está sendo controlada, mas capta o olhar de Ariel e se mantém tranquila ao saber que aquela presença irá protegê-la. Após as primeiras garfadas, Antônio cai no chão e se arrasta para o centro da sala. Sylvine então parece controlar os poderes de Ariel, mas Ariel não é visível para Antônio.
Sylvine grita com Antonio e ele começa a contar sobre a morte dos pais, sendo ele o responsável pela manipulação deles e da piora da saúde de ambos. Somos guiados para a perspectiva de Antonio, que se encontra em um caleidoscópio de memórias e estímulos, como se estivesse em um delírio lisérgico muito obscuro. Ele sai da casa, movido pela loucura, entra em seu carro e dirige desenfreadamente.
A câmera sobe e abre, mostrando a casa por cima e o caminho feito pelo carro. Ouvimos um barulho de batida. Vemos as três figuras femininas saindo de casa. Vemos Sylvine tocando no ombro de Ariel e a figura se distanciando das duas, ela toca na face de Miranda. Agora, são somente duas estranhas, mãe e filha, naquela casa velha. Sylvine não tem mais qualquer poder. Sua filha agora tem as respostas e as possibilidades na sua frente. A chuva passa.
Oscar Tapes
Isabelle Huppert: Um recorte do monólogo de Sylvine, em que é possível ver que a personagem está perdida em suas memórias e, pela primeira vez, se abrindo com a filha.
Michael Caine: Antonio na cabeceira da mesa de Sylvine. O olhar do ator é cheio de prepotência e rancor. Ele ironiza a adoção de Sylvine e soa extremamente sádico ao recordar “a noite de amores” que tiveram.
Toni Collette: Miranda sentada a mesa, com o olhar de desespero ao se perceber impossibilitada de movimentar-se por si só. A câmera capta a suavização do olhar da atriz ao fixar seus olhos em Ariel.
Léa Seydoux: Ariel tomando a forma humana. A magia e o lirismo do seu brilho antinatural constrastam com a pele alva da atriz. Seus movimentos são graciosos enquanto Ariel se vê explicando sua natureza.
Trilha Sonora
Fotografia
Notícias
Imagens

Prêmios
Total de 5 prêmios e 37 indicações. Clique aqui para ver todos os prêmios da 2ª temporada.
2º Festival de Cannes
- Prêmio de Interpretação Feminina, Toni Collette (venceu)
- Prêmio de Roteiro, Guillermo del Toro (venceu)
2º Screen Actors Guild Awards (SAG)
- Elenco: Isabelle Huppert, Michael Caine, Toni Collette e Léa Seydoux (indicados)
- Atriz, Isabelle Huppert (indicada)
- Ator, Michael Caine (indicado)
- Atriz Coadjuvante, Toni Collette (indicada)
- Atriz Coadjuvante, Léa Seydoux (indicada)
- Elenco de Dublês (indicado)
2º BAFTA
- Casting (venceu)
- Filme (indicado)
- Direção, Guillermo del Toro (indicado)
- Atriz, Isabelle Huppert (indicada)
- Ator, Michael Caine (indicado)
- Atriz Coadjuvante, Toni Collette (indicada)
- Fotografia, Dan Laustsen (indicado)
- Trilha Sonora, Javier Navarrete (indicado)
2º Globo de Ouro
- Atriz Coadjuvante, Toni Collette (venceu)
- Filme de Drama (indicado)
- Direção, Guillermo del Toro (indicado)
- Atriz de Drama, Isabelle Huppert (indicada)
- Ator de Drama, Michael Caine (indicado)
- Atriz Coadjuvante, Léa Seydoux (indicada)
2º Oscar
- Filme (indicado)
- Direção, Guillermo del Toro (indicado)
- Atriz, Isabelle Huppert (indicada)
- Ator, Michael Caine (indicado)
- Atriz Coadjuvante, Toni Collette (indicada)
- Roteiro, Guillermo del Toro (indicado)
- Fotografia, Dan Laustsen (indicado)
- Trilha Sonora, Javier Navarrete (indicado)
Premiações da Crítica
- Atriz Coadjuvante, Toni Collette (1 prêmio, 3 vices)
- Direção, Guillermo del Toro (1 vice)
- Atriz, Isabelle Huppert (1 vice)
- Ator, Michael Caine (1 vice)
Críticas do Júri
85
South Brazil Film Critics Circle
Um filme grandioso do início ao fim. Isabelle Huppert e Toni Collette nos melhores papéis de suas carreiras. Direção e trilha sonora de tirarem o fôlego.
82
Oz Film Critics Society
Del Toro traz mais uma vez um filme cheio de poesia. O confronto entre o ser fantástico e a natureza humana permeia uma história familiar caracterizada por segredos e silêncios. A falta de divisão temporal nos faz sentir na pele dos personagens, presos em suas memórias, sonhos e delírios, o que pode agradar alguns ou ser motivo de descontentamento para outros. A trilha sonora, assim como o design de produção são os pontos mais fortes, que imergem o espectador em uma belíssima e cruel adaptação de Shakespeare.
80
Rio Film Critics Circle
Apesar de del Toro não consegueir alcançar a grandeza estética e temática de “Pan’s Labyrinth” de 2006, Tempest é um filme cativante para aqueles capazes de cair no feitiço que este lança, pontos para a bela trilha sonora de Navarrete e para a incrível atuação de Toni Collette.
80
San City Film Critics Association
Com ambientação, fotografia e trilha sonora impecáveis, Del Toro nos transporta pra um conto de horror sobre vingança e poder feminino, este que supera todas as adversidades impostas sobre suas vidas em três histórias diferentes. Isabelle Huppert e Toni Colette nos entregam performances incríveis.
80
Kings’ Bay Film Critics Circle
Com Tempest, Guillermo del Toro se firma como uma das grandes vozes do realismo mágico e um dos diretores mais distintos de nosso tempo. Esteticamente impecável e conceptualmente instigante, a alegoria liderada ferozmente por Isabelle Huppert é uma viagem metafísica por uma vida de amor e ódio.
68
Saint Catherine Film Critics Society
O relacionamento entre realismo mágico e o surrealismo na sua fase mais introspectiva. Quando o filme faz uso de tantos elementos lúdicos é importante que haja linearidade para que a trama não fique confusa e isso é atrapalhado com o excesso de flashbacks. Isabelle Huppert muito bem, mas com um roteiro que não a favoreceu, mas fica aqui um elogio à cena com seu testemunho corrido e fixo na personagem.
52
Syndicat Français de la Critique de Cinéma
Duas mulheres condenadas a uma vida inteira de isolamento e espera tendo o controle de uma força da natureza simplesmente não faz sentido. O final é frustrante para quem espera ver suas heroínas vingadas, sobretudo após a revelação do fato que as levou a tal situação.
