Resurrection Symphony (2022)

de Martin Scorsese
produzido por Bruno S.
com Richard Gere e Daniel Brühl
14 de outubro de 2022
🇺🇸 EUA, 🇬🇧 Reino Unido, 🇩🇪 Alemanha

Drama
Livre adaptação da Sinfonia Nº2 de Gustav Mahler (“A Ressurreição”). No início do século XX, Gustav sente os ventos pestilentos do nazismo e dos horrores que estão por vir. Décadas depois, Leonard Bernstein, seu maior admirador, é criticado por suas posições contra a Guerra do Vietnã e a favor dos Panteras Negras. Unidos por uma conexão transcendental através da música, os dois buscam a resposta para a pergunta perene: como encontrar a beleza num mundo tomado pelo horror?


Consenso da Crítica: Em breve.

Média da crítica

Média do público

Tomatômetro

Pipocômetro


Navegue pelas seções


Ficha Técnica

Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Paul Schrader
Argumento: Terrence Malick, baseado na Sinfonia nº2 de Gustav Mahler
Produção: Bruno S.
Fotografia: Rodrigo Prieto
Figurino: Gabriella Pescucci
Direção de Arte: Dante Ferretti
Trilha Sonora: Gustav Mahler
Direção Musical: Gustavo Dudamel
Distribuição: Universal Studios
Plataforma: Catflix

Elenco

Richard Gere como Leonard Bernstein
Daniel Brühl como Gustav Mahler
Sônia Braga
como Felicia Montealegre
Vicky Krieps como Alma Mahler-Werfel
Helena Zengel como Maria Mahler

Participações especiais:
Paul Dano como Stephen Sondheim
Franz Rogowski como Walter Gropius


Proposta Estética

Resurrection Symphony é o cumprimento de uma promessa. O filme foi idealizado por Terrence Malick no fim dos anos 1980, durante as suas décadas sabáticas, mas nunca passou do estágio do argumento até que Martin Scorsese descobriu a existência do projeto após filmar Kundun, em 1997. Malick cedeu a história ao amigo, e Scorsese passou as décadas seguintes procurando a melhor forma de transpô-la às telas — até que, em uma nova parceria com Paul Schrader, conseguiu encontrar o tom e o elenco perfeitos para realizá-la.

Esteticamente, o filme tem um ar muito clássico, muito solene. A fotografia de Rodrigo Prieto prioriza um visual mais naturalista, menos saturado, nas imagens capturadas em 35mm; a direção de arte de Dante Ferretti, por sua vez, valoriza os ambientes opulentos e elaborados pelos quais nossos protagonistas circularam durante a vida, mas sem nunca colocá-los em primeiro plano ou como uma exibição ostensiva. O mesmo pode ser dito sobre o figurino de Gabriella Pescucci, aqui repetindo com Scorsese a parceria vista em A Época da Inocência.

O filme não tem uma trilha sonora original, baseando suas deixas musicais na própria 2ª Sinfonia de Mahler e em momentos pontuais com outras composições. No mais, o silêncio é usado de forma abundante por toda a narrativa, justamente para evidenciar o estado de espírito dos personagens e para amplificar o contraste com as criações épicas, dramáticas, de Mahler.

Por ser uma narrativa que retrata seus personagens em diversos momentos da vida, Resurrection Symphony também utiliza as mesmas técnicas — agora mais aperfeiçoadas — de rejuvenescimento (por computação gráfica) e envelhecimento (com maquiagem) empregadas por Scorsese em O Irlandês.


Narrativa

Nota: Resurrection Symphony é uma narrativa não-linear estabelecida em duas linhas temporais. O filme, para evitar didatismos e demarcações exageradas, não explicita o local e o tempo de cada cena com legendas ou elementos gráficos; em vez disso, a audiência é convidada a estimar estas informações por meio de elementos como o cenário, o idioma falado, a idade aparente dos personagens e as pessoas presentes em cena. O formato textual, por outro lado, não conta com esses elementos visuais para ajudar a conduzir o leitor, especialmente com o limite de caracteres solicitado. Por este motivo, optou-se por, especificamente na descrição abaixo, preceder cada passagem com um indicativo do local e da data em que ela ocorre.

As vinhetas dos estúdios surgem em silêncio. No centro da tela, o título do filme surge lentamente em fade-in.

Viajamos lentamente por um campo gramado num dia de sol gentil. O silêncio é cortado apenas pelo vento gentil e pelos pássaros. Ouvimos a voz incorpórea de Leonard declamar singelamente um trecho do Ode a Rouxinol, de Keats.

“Me enamorei, de meio-amor, da Morte calma,
Pedi-lhe docemente em meditado verso
Que dissolvesse no ar meu corpo e minha alma.
Agora, mais que nunca, é válido morrer,
Cessar, à meia-noite, sem nenhum ruído,
Enquanto exalas pelo ar tua alma plena
No êxtase do ser.”

Viena, 1907. A imagem sobe e revela um pequeno cortejo fúnebre observar a descida final de um diminuto caixão. Gustav e Alma estão à frente — ele, completamente destruído; ela, resoluta. Alma segura a mão da pequena Anna, que parece mais confusa do que triste. Na lápide, lê-se apenas:

MARIA MAHLER
1902 – 1907

Alma nota alguns soldados vigiando a cerimônia de longe. Embora o sepultamento siga os preceitos cristãos, religião de Alma, um rabino também está presente, por Gustav ser judeu.

Gustav, paralisado pela dor, diz a Alma: “você uma vez me disse que só haveria beleza absoluta após o horror absoluto”. Alma olha para ele, com um olhar de pesar. 

“Não há nada”, continua Gustav, olhando para o chão. “Não há nada”.

Gustav agora está na escuridão, no silêncio sepulcral do não-universo. Consumido pelo sofrimento, ele perambula pelo lugar até encontrar um ponto branco infinitesimal suspenso no ar. Ele olha com um ar de fascínio, mas não se atreve a tocá-lo. Percebe uma pessoa vindo na sua direção.

Leonard, com seu terno bem-cortado e seu jeito discretamente exuberante, aproxima-se de Gustav com uma batuta na mão direita. Ele olha para Gustav com um ar fraternal. Então, como se estivesse em frente a uma grande orquestra, Leonard se posiciona em frente ao ponto branco e ergue o braço direito.

Ouvimos os acordes iniciais da 2ª Sinfonia de Mahler. Conforme Leonard rege a orquestra invisível, Gustav observa, fascinado, o ponto branco se expandir até tragar os dois homens e ocupar todo o espaço de nada que ali havia antes.

Os braços de Leonard regem a música e o crescimento daquele organismo impossível que se expande infinitamente — e que, logo percebemos, é o próprio universo. Gustav e Leonard testemunham o nascimento dos astros, as fusões nucleares, a explosão das galáxias, a dança das estrelas, as chuvas de meteoros… a Terra.

“É um nascimento”, diz Gustav. “Por que estamos lamentando?”.

“Você mesmo disse”, diz Leonard. “Tudo que foi criado há de perecer”

Gustav olha para Leonard: “Leve-me!”.

A música segue e a cena dos dois dá lugar a uma montagem dos horrores da primeira metade do século XX. Guerra. Nazismo. Morte. Horror. Bombas. Campos de concentração. Cidades em chamas. E, no meio de tudo isso, vemos os nazistas banirem a música de Mahler e de todos os compositores judeus. E o silêncio.

Silêncio. A música é sufocada, mas os horrores continuam. Fugas. Trens. Despedidas. Filhos sem pais. Pais sem seus filhos. Corpos. Cemitérios.

Hiroshima explode.

Nova York, 1971. Leonard abre os olhos e parece acordar de um transe medonho. Ele está numa sala de cinema — o projetor lá atrás contrailumina sua face assustada. Felicia, sua esposa, pergunta se está tudo bem.

Ao final da sessão, os dois saem do cinema e o letreiro revela o filme exibido: Morte em Veneza, de Visconti. Pelo diálogo dos dois, compreendemos que o protagonista do filme, o barão Gustav von Aschenbach interpretado por Dirk Bogarde, é fortemente inspirado em Mahler.

Leonard diz ver muito dele mesmo nos dois Gustavs, Mahler e von Aschenbach. “O que nos distingue é que eu nunca encontrei a beleza total”, diz Leonard, num tom melancólico. Felicia finge estar ofendida, num tom levemente jocoso, mas Leonard segue. 

“Não é isso. Não assim. Você é a mulher mais bela que estas ruas já viram, e meus olhos estão de prova. Mas eu me refiro a algo mais distante. Você está aqui do meu lado, por mais inacreditável que isso possa parecer.” 

“Então por eu estar aqui, minha beleza já te escapou?”. 

Leonard sorri: “Essa é a sina da beleza. Quando você chega até ela, ela já escapou”

Os dois andam em silêncio, singrando pelas ruas movimentadas do Upper West Side. “Mas se houver beleza neste mundo… diria que boa parte dela está em você”, diz Leonard, abraçando a esposa. Os dois sorriem.

Numa banca de revista, focamos numa capa da revista Time com uma foto do casal e a chamada: “Radical Chic Goes Soft”.

Conservatório de Viena, 1879. Um jovem Gustav faz seu último ano de educação musical, mas suas excentricidades não agradam os professores e colegas. 

Desviando-se da tradição das grandes sinfonias alemãs e austro-húngaras, Gustav prefere se debruçar sobre a música popular e a era romântica, juntando a ela uma preocupação filosófica obsessiva: um estudioso ávido de Schopenhauer, Nietzche e outros teóricos, Gustav desenvolve desde cedo uma preocupação quase paranoica com as ideias de vida, morte, existência e inexistência, incorporando esses temas em suas criações musicais e desagradando seus mestres.

Com a saúde frágil desde a infância e vindo de uma família de classe média, Gustav precisa abreviar seus estudos no Conservatório e assumir seus primeiros trabalhos como professor de piano. Em seguida, ele começa a trabalhar como condutor em pequenas operetas em cidades próximas, como Linz, Moravia e Kassel, ganhando uma certa reputação como maestro. 

Em suas andanças pela Europa germânica, Gustav começa a perceber maus presságios. Seu judaísmo começa a ser mal visto em certos locais. O avanço da industrialização mecaniza o trabalho e as relações. O clima de otimismo do fim do século XIX dá lugar a uma atmosfera mais opressiva, mais vigilante. As preocupações de Gustav se intensificam, e enquanto não está regendo, ele começa a compor suas primeiras sinfonias — incluindo a Segunda, que tem apenas uma palavra escrita no topo da sua primeira página: “Ressurreição”.

Conforme as mãos de Gustav vão compondo a sinfonia, começamos a ouvir mais um dos seus trechos — agora, do segundo movimento.

Nova York, 1969. A música segue, mas agora vemos Leonard reger a Filarmônica de Nova York. Após a apresentação, uma profusão de palmas e flores jogadas aos pés do lendário condutor.

À noite, Leonard e Felicia realizam mais uma das suas recepções em seu luxuoso apartamento no Edifício Dakota. Mas esta comemoração é especial: os convidados — incluindo boa parte da elite artística e intelectual de Nova York — se juntam aos anfitriões para assistir ao pouso da Apollo 11 na lua. 

Todos comemoram no momento em que Neil Armstrong finca seus pés em solo lunar, mas Leonard, observando à distância, tem um sorriso melancólico. Felicia pergunta o que está acontecendo, e Leonard se pergunta se aquela felicidade é de fato merecida. “Vietnã. Doutor King. Os Kennedys. Malcolm…”, começa a citar. Felicia acaricia seu ombro e lembra que aquele é um momento de alegria. “Mas os tempos não são”, afirma Leonard. Ele beija Felicia na testa e deixa o apartamento à francesa. Ela, há tanto tempo com ele, já entende suas escapadas.

Leonard anda sozinho pela noite novaiorquina, em clima festivo por conta do pouso na lua. Caminhando longamente pelo Central Park ele chega até o Harlem, onde se demora em frente a uma igreja. A missa tem um belíssimo coro gospel com tons de jazz e soul, com uma solista de voz transcendental. Leonard não se atreve a entrar, mas sorri à porta do templo. “Talvez a beleza esteja aqui, Gustav”, sussurra para si mesmo.

Viena, 1901. Vemos Alma, trajada com um lindo vestido azul, num baile de verão vienense às margens do Danúbio. É nesta noite que ela e Gustav se conhecerão. 

A primeira interação entre os dois é pouco amistosa: apresentados por amigos em comum, eles discutem sobre os balés de Alexander von Zemlimsky, um dos mentores de Alma. Gustav desqualifica a obra, enquanto Alma a defende. A discussão deixa claro as credenciais de cada um: enquanto Gustav tem seus amplos estudos nos universos da música e da filosofia, Alma é uma artista de corpo e alma, com conhecimentos amplos de literatura, artes plásticas, teatro e música. Ela deixa transparecer que teve um breve relacionamento com Zemlimsky, e chegou a ser musa — e alvo de uma paixão não-correspondida — de Gustav Klimt. O sonho de Alma, entretanto, é compor, assim como Gustav. Ele parece estimulado pela verve dela, enquanto ela parece se divertir com o jeito dele.

Eles se encontram no dia seguinte. E no seguinte. E no seguinte. E, eventualmente, se casam. A cerimônia, cristã, é realizada numa capela simples e com poucos convidados. Gustav, em uma breve quebra do seu jeito taciturno, parece radiante. Alma parece satisfeita. O padre pergunta se Gustav promete fazer Alma feliz. Ele sorri. Ela olha para ele, com um sorriso não plenamente verdadeiro.

Nova York, 1960. Alma, agora muito idosa e frágil, senta-se na primeira fileira do Carnegie Hall e vê Leonard, no palco, ensaiando para o festival que comemorará o centenário de Gustav. Felicia senta-se ao seu lado e comenta sobre as dores e delícias de viver ao lado de grandes artistas. 

Alma sorri melancolicamente. Em um monólogo penetrante, ela lembra-se de quando, após o casamento, Gustav a encorajou — “para usar uma palavra suave” — a abandonar a sua arte para assumir o papel de mãe e dona de casa. A desconexão com a música fez com que Alma se deprimisse, piorando posteriormente com a morte de Maria, sua primogênita. Apenas quando ela começou um caso com Walter Gropius, anos depois, Gustav resolveu incentivá-la a retomar suas composições. Mas o dano já estava feito: mesmo após a morte de Gustav, mesmo nos seus casamentos posteriores — primeiro com o próprio Gropius, que viria a ser um dos maiores arquitetos do século XX, e depois com o poeta Franz Werfel —, a veia artística de Alma nunca chegou a florescer novamente.

Felicia olha para Leonard, ensaiando exuberantemente no palco, e diz entender Alma. Suas aspirações artísticas não foram tão ambiciosas, mas Felicia, atriz de formação, nunca passou de alguns papéis de menor destaque no teatro e na televisão. Assim como Alma, ela também assumiu o papel de mãe e esposa, mas lamenta nunca ter recebido uma parte importante dessa equação: o toque, o contato, os arrepios. As duas mulheres observam Leonard se aproximar de um instrumentista para instruí-lo, e os toques e a proximidade entre os dois mostram que claramente há algo a mais ali. 

“Ninguém nunca me amou tanto como ele”, diz Felicia, olhando para Leonard. “Mas ele nunca me tocou desse jeito”.

Nova York, 1952. Leonard e Felicia estão na cama. Ele passa os dedos pelas costas dela.

“Seria essa a hora?”, pergunta Leonard. Ela vira-se para ele e discutem sobre filhos. A conversa começa a envolver a história dos dois até ali, e a cena começa a ser entrecortada com flashbacks do relacionamento do casal. 

Vemos Leonard cortejar uma jovem Felicia. Vemos a elite musical novaiorquina, notoriamente conservadora, observar o relacionamento dos dois. Vemos os rumores circularem sobre a homossexualidade de Leonard. Vemos o casamento dos dois, e o convite imediatamente posterior para Leonard assumir um papel de maior importância na Filarmônica de Nova York. Vemos o casal se instalar em sua nova vida — amorosa, mas sem paixão.

Felicia, resignada, enfim responde Leonard. “Sim, esta é a hora”. E os dois fazem amor.

Ouvimos o choro de uma criança recém-nascida.

Viena, 1902. Em casa, Alma dá à luz sua primeira filha enquanto Gustav segura sua mão. A parteira entrega a criança a Gustav, que segura sua filha pela primeira vez nos braços e a observa com um olhar enternecido. “Como você se chama, pequena?”, pergunta.

Nova York, 1956. Num teatro, Leonard, no piano, trabalha com Stephen Sondheim na composição de ‘West Side Story’. Os dois estão desenvolvendo um dos números românticos da peça, e Leonard dedilha os acordes iniciais de ‘Maria’.

“The most beautiful sound I ever heard…”, cantarola Stephen, seguindo os acordes de Leonard, que completa: “Maria, Maria, Maria…”

As palavras de Leonard ecoam pelo tempo e espaço e chegam até Gustav segurando sua filha recém-nascida. Ele sorri amorosamente e completa, olhando para a criança: “Maria”.

A versão orquestral de ‘Maria’ entra com força total, e passamos a acompanhar uma montagem que segue Gustav, Alma e os primeiros anos de vida da menina. A atmosfera é ensolarada, e pela primeira vez Gustav parece esquecer de suas angústias e seus medos e, no lugar deles, sentir uma alegria genuína por estar vivo naqueles momentos.

Então, de repente: “Pai!”, ele ouve uma voz incorpórea exclamar. Gustav procura a fonte daquela voz, mas não a acha. Ele fecha os olhos e se vê, mais uma vez, flutuando no universo. A voz, de uma menina, continua procurando pelo pai, mas Gustav, atônito, não consegue encontrá-la. 

“O universo é grande demais”, diz a voz. 

“Eu lhe encontrarei”, responde Gustav.

Nova York, 1970. Felicia e Leonard organizam um jantar beneficente em seu apartamento em prol do Partido dos Panteras Negras e dos membros dos 21 Panteras. Mais uma vez, boa parte da elite (branca) intelectual e artística de Nova York participa do jantar, que inclui um discurso apaixonado de Leonard em defesa dos direitos civis. A atmosfera festiva e despreocupada contrasta-se com a gravidade do tema. 

Felicia, já algumas doses além da conta, assume o centro da sala e faz uma performance impromptu de ‘The Windmills of Your Mind’, emulando a versão de Dusty Springfield. A exibição é voluptuosa: Felicia bamboleia-se languidamente pelo salão, alisando-se em vários dos convidados, alguns deles constrangidos. Leonard observa de longe, sem intervir, enquanto Felicia lança seus olhares ao marido. O casamento assexual dos dois e a homossexualidade de Leonard são segredos abertos nos círculos do casal, mas pouco comentados em outros métiers.

No dia seguinte, a opinião pública se volta contra Leonard e Felicia. Enquanto a mídia conservadora ataca o casal pelos posicionamentos, um artigo de Tom Wolfe no New York Times desdenha do jantar e da persona pública dos dois, cunhando o termo “Radical Chic” e satirizando a bolha da elite intelectual de esquerda, distante da realidade dos problemas sociais. Entrando na Filarmônica, Leonard é interpelado por jornalistas e se defende, afirmando que a preocupação dele e de Felicia acerca das questões sociais é genuína e passional: “apoiar os direitos civis e condenar a Guerra do Vietnã é o único caminho que temos para superar este século de trevas”, diz Leonard.

Viena, 1904. Alma dá à luz a segunda filha do casal, Anna, e os anos dourados de Gustav prosseguem: pai de família dedicado, ele segue seu trabalho como condutor e é apontado como diretor da Ópera de Viena, seguindo com seu trabalho como compositor quando pode. 

As marés começam a mudar, entretanto: o prefeito de Viena, Karl Lueger, é um antissemita declarado, e o Partido do Nacional Socialismo Alemão instalou-se na Áustria no ano anterior. A onda conservadora resulta numa campanha duradoura contra Gustav: seus detratores atacam seu estilo intransigente na direção da Ópera, bem como sua preferência pelos compositores do período romântico, mas fica claro que o real motivo da campanha é o fato dele ser judeu.

1907. As tensões estão mais altas que nunca em Viena, e Gustav chega em casa após um embate particularmente exaltado com os patronos da Ópera. Ele ouve tosses vindas do quarto das crianças.

Nova York, 1977. Vemos Felicia, já bem mais velha e fragilizada, tossir numa cama de hospital com seus filhos ao redor. Percebemos que ela tem uma forma grave de câncer e pouco tempo lhe resta. Inferimos, também, que seu casamento com Leonard terminou no ano anterior porque ele, cansado de reprimir sua sexualidade, deixou Felicia e foi morar com Tom Cothran, diretor de música clássica de uma rádio e seu amante de longa data.

Leonard chega no hospital. Ele abraça Felicia longamente e diz que nunca mais a deixará.

Acompanhamos os últimos meses de vida de Felicia. Ela retorna ao apartamento no Dakota e, cada vez mais fraca e debilitada, é cuidada por Leonard até o seu último suspiro. Em 1978, ela morre e deixa Leonard sozinho, num estado de dor absoluta.

Vemos o cortejo fúnebre de Felicia, à noite, e Leonard permanece sozinho junto ao túmulo depois que todos já se foram. Abaixado, ele chora um choro baixinho, contido, como se só ela pudesse ver o seu pranto. “Onde eu posso encontrar sua beleza, agora?”, pergunta.

No escuro da madrugada, Leonard ergue a cabeça e vê a figura de uma menina olhando para ele, à distância. “Maria”, ele sussurra.

Viena, 1907. O médico da família examina Anna e Maria: difteria. É grave, e elas precisam ser levadas ao hospital o quanto antes. Gustav e Alma saem carregando as duas crianças.

Os tempos são outros, entretanto. A semente nazista já está plenamente instalada em Viena, e nenhum dos hospitais na cidade aceita tratar as filhas de um judeu. Gustav, desesperado, exclama que elas foram batizadas cristãs. Não importa.

A única opção da família é fazer um tratamento, precário, em casa. Anna se recupera, mas Maria enfrenta complicações da doença. Gustav se ajoelha ao lado da cama da filha mais velha, já ciente do seu estado irreversível e tentando esconder a dor incomensurável nos seus olhos. “Vai ficar tudo bem”, diz ele, a voz trêmula. “Eu vou cuidar de você. Em breve poderei te abraçar de novo, pequena”.

Maria fecha os olhos. Gustav repousa sua cabeça sobre o corpo dela, já desfalecido. Alma, de longe, cai no chão, consumida pelo sofrimento.

Ouvimos a voz de Gustav na escuridão. “Minha filha, minha pequena, onde está você?”.

Voltamos ao túmulo de Felicia. “O universo é grande demais”, repete Maria. Leonard se levanta. A escuridão se expande, e o cemitério some — agora, ambos estão cercados pelo nada.

“Seu pai… seu pai me pediu para levá-lo”, lamenta Leonard. 

“Eu não posso fazer isso”, continua ele, à beira das lágrimas. “Eu não conheço o universo. Eu não o entendo”

“Leve-me também”, diz Maria. 

“É demais. É horrível demais. Ninguém deveria ver”, responde Leonard. “O horror”, segue ele num pranto contido. “A dor. A barbárie. A peste. A inclemência. A destruição. Tanta dor, tanta dor… Um século… um século de horrores. Seu pai viu. Pelos olhos dele, eu vi também.”

Maria começa a chorar, mas um choro infantil, inocente. “Eu só queria meu pai”.

Leonard, tocado, para de chorar. Alguns instantes de silêncio. Começamos a ouvir o coro fúnebre que abre a parte final da Sinfonia enquanto Leonard se aproxima lentamente de Maria.

Leonard estende a mão para Maria; ela a segura. Gustav, em meio à escuridão, sente aquela conexão.

Agora, Leonard e Maria, invisíveis, estão em outro cemitério — Viena, 1911. Um cortejo acompanha o sepultamento de Gustav. Alma, acompanhada por Walter Gropius e por uma Anna levemente crescida, observa melancolicamente.

O tempo passa. Leonard e Maria observam as décadas se passarem naquele cemitério, e o século de horrores acontece bem na frente dos olhos deles. A música de Mahler permanece banida, e acaba esquecida. Leonard e Maria seguem viajando pela terra arrasada, com a dor tomando conta dos seus olhos a cada cenário de terror e sofrimento.

Eles vêem a Segunda Guerra terminar. A comemoração dos Aliados, a reconstrução das ruínas. “É aqui”, diz Leonard a Maria. 

Viena, 1948. Leonard, agora sozinho e bem mais jovem, visita o túmulo de Gustav, enterrado ao lado de Maria. Leonard se ajoelha próximo ao túmulo e fica um bom tempo em silêncio. “Convoco-te”, diz Leonard ao túmulo.

Vemos o prédio da Filarmônica de Viena cheio de pôsteres de Mahler. É a reintrodução da música dele ao mundo, organizada por Leonard, após décadas de esquecimento. A orquestra se prepara. Leonard toma o centro do palco com sua batuta. Felicia senta-se na primeira fileira. Alma, mais velha, está ao seu lado. Leonard vira-se para a plateia e faz o agradecimento inicial. Ele vê, na entrada da sala, a figura de Maria o observando.

Nota: a sequência a seguir deve ser lida em sincronia com a música acima. A minutagem antecede cada parágrafo.

2:22. “Deixas de tremer…. deixas de tremer….”. Gustav, flutuando na escuridão e consumido pela dor eterna, ouve à distância o coro da sua Sinfonia regida por Leonard. “PREPARE-SE!”, Gustav ouve. “Prepare-se para viver”.

3:15. Leonard esvoaça os braços e a orquestra entra com força total. “Ó sofrimento, tu que tudo penetras, de ti já escapei”… O som começa a se espalhar: primeiro pela sala de concertos, depois por toda Viena, por toda a Europa. “Ó morte, tu que tudo conquistas, agora estás conquistada!”. Maria observa, fascinada.

3:43. Leonard, em posse de uma força sobrenatural, segue regendo aquele som que se espalha impossivelmente. “Com as asas que ganhei, na ardente luta do amor, levantarei voo”…, segue a Sinfonia, que agora se espalha para todo o mundo.. Gustav ouve o som com mais força e começa a se movimentar, escapando daquele canto escuro e silencioso do universo. “Com as asas que ganhei, na ardente luta do amor, levantarei voo”, repetem as vozes, incessantemente…

4:39. Começamos a ver Leonard em diferentes épocas, com diferentes idades, regendo a orquestra. No futuro distante, no passado primitivo, em todos os lugares, com todas as pessoas. A música agora toca todos os cantos do universo, em todas as épocas.

4:57. “Morrerei para viver de novo!” Gustav grita pela filha. Maria ergue-se e viaja pelo universo, procurando pelo pai. Leonard segue regendo a música sobrenatural. “Morrerei para viver de novo!”

5:29. “RESSUSCITARÁS!” Gustav e Maria percorrem planetas em destruição, buracos negros, supernovas e galáxias procurando um pelo outro através dos cosmos. “Sim, ressuscitarás!” Felicia e Alma, em 1948, observam extasiadas. A beleza total. “Você, meu coração, ressuscitará em um instante…”

6:11. Em um ponto iluminado do universo, Gustav e Maria enfim se vêem, à distância. “Tudo que você percorreu…”, segue a sinfonia, “Tudo que você superou”… Pai e filha gritam desesperadamente um pelo outro e correm para se encontrar..

6:30. “A Deus, a Deus, a Deus…” Gustav e Maria, na frente de um sol à beira da explosão, estendem os braços um para o outro. Leonard reúne em seus braços toda a força do universo. “TE LEVARÁ!”

7:00. Gustav e Maria enfim se abraçam. Neste momento, todo o universo começa a se contrair novamente: planetas, galáxias e sóis vão se comprimindo ao redor do pai e filha que se abraçam com força, até que todo o universo está novamente contido apenas em um pequeno pontinho branco no meio da escuridão — o infinitésimo onde o tempo não existe, no qual Gustav e Maria estarão, enfim e eternamente, juntos.

7:38. Naquele breve momento de silêncio, voltamos a Leonard em 1948. Ele olha diretamente para a câmera e sussurra: “Erga-se”.

7:42. Testemunhamos uma rápida sucessão de imagens de momentos felizes de Gustav e Leonard ao longo de suas vidas, com suas famílias, seus amantes, suas conquistas, seus prazeres, suas dores.

8:11. Leonard abaixa a batuta e encerra a Sinfonia, ofegante.

Nova York, 1971. Leonard e Felicia gritam energicamente num protesto a favor dos Panteras Negras na Union Square — e aqui, pela primeira vez, os vemos integrados à multidão. 

Depois, o casal anda pelas ruas de Manhattan. Felicia se pergunta se algo do que eles estão fazendo surtirá efeito algum dia: num mundo de tantos horrores e eternas injustiças, qual o sentido? 

Leonard sorri: “é tudo que temos, meu bem”.

Os dois entram num beco escuro e Felicia se adianta, sumindo na escuridão. Leonard fica sozinho observando a esposa desvanecer. Ele olha para trás e, naquela nesga de luz, vê a vida seguir: pessoas protestando, crianças brincando, trabalhadores lutando. Leonard volta-se para o beco escuro e ouve várias vozes incorpóreas, ecoadas, gritando entusiasticamente seu apelido “Lenny… Lenny, Lenny!”…

Ele sorri. E avança ao beco escuro, ouvindo as vozes cada vez mais alto.

Nova York, 1990. Uma marcha fúnebre segue pela Broadway com milhares de seguidores. Nos prédios, os trabalhadores da construção civil penduram-se nos andaimes, acenando com seus capacetes e entoando: “Lenny, Lenny, Lenny…”

A imagem viaja lentamente pelo cortejo até chegar em Leonard — mais velho, mas ainda elegantemente vestido — repousando no caixão como se dormisse tranquilamente. Em suas mãos, uma cópia da Sinfonia de Mahler, com a inscrição no topo: “Ressurreição”.

Leonard é enterrado ao lado de Felicia. Vemos as duas lápides lado a lado, e uma chuva gentil começa a cair.

A imagem se move lentamente e ganha as ruas de Manhattan durante a garoa. Começamos a ouvir um trecho das Danças Sinfônicas de West Side Story.

Acompanhamos essa tomada, sem cortes, como se fossem os olhos de uma pessoa andando pelas ruas e observando a multidão que deixa a chuva cair sobre seus ombros. As imagens são levemente desaceleradas e super-saturadas, como se estivessem um degrau acima da realidade. Os créditos surgem lentamente sobre essas imagens.


Notícias e Imagens


Prêmios

Em breve.


Críticas do Júri

Em breve.


Comentários do Público

Em breve.

Crie um site como este com o WordPress.com
Comece agora