Pais (2024)

minissérie criada por Maria Adelaide Amaral
produzida por Bruno S.
com Aurora Giovinazzo, Gabriel Leone e Jesuíta Barbosa
1º de Abril de 2024 (Temporada Séries)
8 Capítulos
🇧🇷 Brasil

Épico Histórico, Drama, Coming-of-age
Na década de 1960, dois amigos chegam a Salvador e tomam caminhos opostos na luta contra a ditadura militar. Em 1984, no norte da Itália, a filha de um deles mergulha na memória de sua família — biológica e adquirida — para entender seu passado e dar sentido ao seu futuro. As duas histórias se entrelaçam numa saga brasileira de dores, glórias, devoções e amores grandiosos.


Consenso da Crítica: Em breve.

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Ficha Técnica

Direção Fernando Meirelles
Roteiro Maria Adelaide Amaral
Produção Bruno S.
Fotografia Walter Carvalho
Figurino Beth Filipecki
Direção de Arte Tulé Peak
Trilha Sonora Marcus Viana
Distribuição Globo
Plataforma Catflix

Elenco Principal

Aurora Giovinazzo como Carolina
Gabriel Leone como Mateus
Jesuíta Barbosa
como Moisés
Clara Buarque como Lígia
Mariana Lima como Maria Lúcia
Luís Miranda como Mariano
Adriano Tardiolo como Tonino
Mariene de Castro como Vera
ator convidado Wagner Moura como João
atriz convidada Helena Ignez como Olga


Proposta Estética

A narrativa de Pais se desenvolve em dois locais e períodos: Brasil, na década de 1960, e Itália, na década de 1980. Em vez de uma história linear, as duas linhas temporais se entrelaçam e, em determinados momentos, se confundem — por exemplo, com o uso de match cuts e repetições de elementos temáticos, que sugerem uma ideia de continuidade e de consequências futuras para atos realizados no passado.

Para demarcar os dois períodos da história (e seguindo a tradição de outras produções da Catflix que empregaram métodos semelhantes, como Verano, Landslide e Vanilla), cada linha temporal da minissérie tem estética, linguagem e códigos específicos.

A porção brasileira da história é filmada em widescreen 16:9, para preencher por completo os aparelhos de televisão em que será exibida, com uma captura digital de altíssima definição que privilegia os detalhes e as cores: esta parte da minissérie é extremamente colorida e ensolarada, quase emulando um Tecnicolor, com uso abundante de cenas externas, panorâmicas, travellings longos e suaves estabilizados com Steadicam. A ideia é evocar o espírito jovem e de liberdade encontrado por Mateus e Moisés na chegada em Salvador, no ápice da era da contracultura, do Tropicalismo e da revolução dos costumes.

A parte italiana, por sua vez, é filmada em 4:3 (para simular o mundo “menor” de Carolina) com câmeras de televisão analógicas, da era do PAL-M, dando a esta porção da história um ar de novela da Globo dos anos 1980 — não apenas no aspecto técnico, mas também no ritmo mais lento, nas longas cenas de diálogo e no uso abundante de estúdios. As cores são muito mais suaves, por vezes quase pendendo quase ao preto-e-branco na captura de cenas do inverno coberto de neve do norte da Itália.

De início, a separação entre esses dois estilos e períodos é muito clara. Entretanto, conforme a história avança — e Mateus e Moisés vão enveredando por caminhos sombrios, e Carolina vai se formando enquanto pessoa conforme descobre os segredos do seu passado —, essas diferenças vão ficando menos marcadas a linguagem visual de um período começa a “vazar” para o outro. Estes momentos serão melhor detalhados ao longo da descrição dos capítulos.

A trilha sonora — assinada por Marcus Viana e seguindo a linhagem de suas trilhas épicas de novelas como O Clone e minisséries como A Casa das Sete Mulheres — é composta de algumas faixas incidentais e uma cuidadosa seleção de canções nacionais e internacionais. Como de costume, recomenda-se ouvir as músicas indicadas no texto durante a leitura. A playlist completa da minissérie está disponível no Spotify e será atualizada conforme os novos capítulos sejam lançados.

Dirigido por Fernando Meirelles
Escrito por Maria Adelaide Amaral

Participações Especiais
Maria Gladys como Sandra


Escuro. No silêncio absoluto, ouvimos a voz de Lígia (Clara Buarque) sussurrar carinhosamente, lentamente: 

“Quando você ouvir o som das ondas, você vai saber que está em casa”.

Aos poucos, vamos ouvindo o som das ondas enquanto a imagem se abre num fade-in muito, muito lento. Vemos o plano aberto de uma pacífica praia banhada pelos primeiros raios de sol. O mar tranquilo está à esquerda, e o resto é só areia e céu a perder de vista. Tudo é calmo.

Então lentamente, muito lentamente, vemos algo despontar na linha do horizonte. Este algo se move em direção ao espectador, levantando atrás de si uma grande nuvem de areia fina, quase como se fosse um tornado vindo em nossa direção. Eventualmente, começamos a distinguir este pontinho que se move em nossa direção como um ser humano — um ser humano que corre rápido, corre desesperadamente. É Mateus (Gabriel Leone). Neste momento, começamos a ouvir os primeiros acordes gentis de “Heroin”, do Velvet Underground.

Pouco antes da voz de Lou Reed ecoar em “Heroin”, Mateus volta a se movimentar, mas agora andando. A imagem passa a acompanhá-lo em um longo plano-sequência, composto sempre de planos médios com um movimento de câmera fluido, quase como se flutuasse em torno do rapaz. Mateus sobe o muro de pedras que delimita a praia e começa a caminhar pelas ruas da Cidade Baixa de Salvador em 1969. O sol nascente banha o rosto do rapaz e as fachadas coloniais coloridas das casas pelas quais ele passa, e ali, naquele breve momento, alguém poderia até dizer que há um quê de esperança no ar. Tudo no semblante de Mateus dá a entender que ele está caminhando em direção ao momento mais importante da sua vida.

Mateus se movimenta conforme a música: quando a batida fica mais rápida, ele corre; quando volta ao ritmo normal, ele anda. As duas primeiras estrofes de “Heroin” seguem o rapaz pelas ruas da Cidade Baixa; na terceira, Mateus chega até uma casa numa rua estreita e se esgueira janela adentro. Ainda sem cortes, a imagem acompanha o rapaz enquanto ele sobe as escadas correndo e a música vai subindo (“away from the big city…”). 

Mateus chega a uma porta fechada e para. A imagem fecha em seu rosto. Ele parece nervoso, trêmulo, mas de um jeito bom. Tenta, meio pateticamente, se ajeitar e se limpar antes de abrir a porta. Sua expressão transparece que, para além daquela porta, está a coisa mais importante que poderia existir em todo o universo, algo que vai mudar sua vida para todo o sempre. A música vai chegando ao final da sua terceira estrofe (“oh and I guess that I just don’t know”) e a imagem, ainda no mesmo plano-sequência, fecha na mão direita de Mateus abrindo a maçaneta. A câmera entra no quarto antes dele e vai se aproximando de um berço, fracamente iluminado pela primeira luz da manhã filtrada pelas cortinas esvoaçantes. Vemos Mateus se aproximar do berço, a expressão maravilhada, enquanto ouvimos o refrão da música (“Heroin…. be the death of me…”).

Seguimos no plano-sequência enquanto vemos Mateus pegar Carolina, a bebê que dorme tranquilamente, no colo. Ele claramente não tem muito jeito para isso: ela acorda e começa a chorar. Mateus, sorrindo em meio às lágrimas, repousa Carolina sobre seu ombro e faz pequenos movimentos para acalentá-la. Conforme a música vai ficando mais rápida e mais caótica, o plano-sequência começa a girar em torno da unidade formada por Mateus e Carolina — ela, cada vez mais pacífica e confortável no colo do pai, e ele a sorrir e a chorar com mais intensidade a cada vez que a câmera completa um giro. O giro vai ficando mais rápido e a música vai ficando mais caótica e um pai embala sua filha numa espécie de dança singela e Mateus vai ficando mais convencido de que o mundo novamente faz sentido e há uma esperança para o futuro e existe beleza no universo e a imagem foca no rosto plácido de Carolina e-

Um corte brusco interrompe a música. Um match cut corta do rosto da bebê Carolina para o rosto da Carolina (Aurora Giovinazzo) adolescente num close-up extremo. A imagem permanece fixa enquanto ouvimos uma figura falar, em italiano, com Carolina. Pelo monólogo, entendemos que o interlocutor é o diretor do colégio no qual ela estuda e nos inteiramos do problema em questão: Carolina está prestes a completar 18 anos e não tem nenhum rumo na vida. O diretor pondera que, apesar de extremamente inteligente, Carolina é indisciplinada e tem um espírito rebelde, que a prejudica no desempenho acadêmico. Ela também tem problemas em socializar com os colegas e, com isso, acaba perdendo um aspecto importante da vida escolar. O diretor cita também alguns casos de vandalismo e subversão realizados por Carolina no ambiente escolar. Por fim, o diretor assume um tom de voz mais cauteloso, como se estivesse entrando num terreno mais pessoal, e expressa preocupação com o fato de que o pai de Carolina está muito doente e, num futuro próximo, ela possivelmente não terá mais ninguém — e, por isso, ela precisa encontrar um caminho antes que se perca na vida.

A câmera permanece fixa no close-up durante todo o monólogo do diretor, e Carolina não diz uma palavra sequer; sua expressão impassível permanece com os olhos fixos em um ponto próximo à câmera. Quando o diretor termina, ela enfim olha para ele, simplesmente assente com a cabeça e sai.

Vemos Carolina deixar a escola sozinha ao entardecer e identificamos, pelos elementos de cena, o ambiente como uma pequena cidade no norte da Itália no final de 1983. A escola e a cidade estão decoradas com elementos natalinos, e uma fina neve corre pelos céus dando uma sutil camada branca às ruas, árvores e carros.

Na caminhada, Carolina se afasta do centro mais adensado da cidade e se dirige a uma zona mais rural, com casas mais afastadas e menos pessoas circulando. Ela atravessa uma pequena cerca e chega à sua casa, uma construção modesta rodeada por árvores e sem nenhuma outra presença humana nas proximidades. Por dentro, a casa é relativamente confortável e bem-decorada, mas pequena e espartana.

Carolina se aproxima da porta fechada de um cômodo e pergunta baixinho, em português: “pai, tá acordado?”. O silêncio indica que não, então Carolina segue com sua rotina: toma banho, providencia seu jantar e tenta fazer as lições de casa. Ela faz todas essas coisas tomando cuidado para ser o mais silenciosa possível, e chama atenção o fato que ela usa pouquíssimas luzes, como se quisesse manter o ambiente sempre o mais escuro possível.

Depois de terminar todos os seus afazeres, Carolina vai para o seu quarto e liga uma pequena TV de tubo, colocando o aparelho no volume mínimo e aproximando-se da tela para conseguir escutar o programa que se inicia: um noticiário focado em política internacional. A casa está toda escura, e a luz da tela ilumina o rosto de Carolina conforme ela espera ansiosamente as notícias que lhe interessam: as últimas atualizações sobre o cenário político no Brasil, que vê a ditadura militar nos seus estertores e as manifestações pró-democracia cada vez mais populares. Finalmente vemos a expressão de Carolina emitir alguma emoção, como se ela tivesse um profundo senso de pesar por ver aquelas notícias tão de longe, sem poder participar.

A imagem vai se aproximando da TV e os efeitos visuais fazem a transição do noticiário para uma sequência que se assemelha a um sonho: as imagens das manifestações vão dando lugar a pessoas correndo, o mar, uma igreja, a terra batida. Vemos Mateus, olhando diretamente para a câmera, dizer, bem lentamente: “eu não vou te abandonar. Eu nunca vou te abandonar”. Ouvimos os sons distorcidos de uma sinfonia executando uma música que não conseguimos identificar, e vemos duas crianças sentadas lado-a-lado numa igreja. De novo, o mar, e a água cristalina vai sendo tomada por sangue. Vemos uma senhora, Sandra (Maria Gladys), cuidar das duas crianças que vimos anteriormente. A música distorcida vai se tornando mais alta e mais caótica, e vemos várias imagens de Mateus — sorrindo, chorando, gritando desesperado, gargalhando, correndo, amedrontado. A voz de um homem, que não conseguimos identificar, grita: “MATEUS!”

De súbito, o homem no quarto — aquele que Carolina chamou mais cedo — acorda do seu pesadelo e, ofegante, se senta na cama. O quarto está totalmente escuro, então não conseguimos identificar seu rosto. Devagar, ele se levanta e vai se aproximando de uma pequena mesa próxima à janela. Pela silhueta, podemos identificar que o homem não é velho — está na casa dos quarenta anos, provavelmente —, mas é fisicamente bastante debilitado, movimentando-se com alguma dificuldade, tossindo e apoiando-se nos móveis. O homem chega em frente à mesa e vemos que, em cima dela, há um presente grande, cuidadosamente embalado com um papel decorativo e um laço de fita. No pequeno cartão, lemos uma dedicatória: “para Carolina, de seu pai”.

O homem passa os dedos pelo presente e, iluminado pela luz da lua que invade timidamente as janelas, finalmente conseguimos identificar uma série de expressões passando pelo seu rosto: pesar, dor, esperança, amor, júbilo. Mais que isso, entretanto, a luz da lua permite que finalmente vejamos o rosto do homem em si: não um rosto comum, mas um rosto deformado, cheio de enxertos, cicatrizes, marcas de sucessivas tragédias e reconstruções. Por trás daquele amontoado de deformidades, identificamos o homem: Moisés (Jesuíta Barbosa).

Ainda com os dedos no presente, Moisés observa o horizonte da janela com o mesmo ar pesaroso, mas de ponderação. E, nesta imagem, ouvimos os acordes iniciais da música de abertura da série: “Que as Crianças Cantem Livres”, de Taiguara.

2º BLOCO

Vemos uma série de porta-retratos na casa de Moisés e Carolina. Alguns deles mostram Mateus e Lígia, jovens e sorridentes, enquanto outros mostram os dois — mas nunca na mesma foto — segurando a bebê Carolina, também com um sorriso inocente no rosto. Moisés não está em nenhuma das fotografias.

Já é o dia seguinte, um sábado. Carolina e Moisés tomam café da manhã na pequena mesa da cozinha, em silêncio. As cortinas da casa são pesadas e escurecem o ambiente mesmo durante o dia. As poucas interações mostram que há um profundo carinho entre os dois, mas não muita conexão. Moisés é retraído, calado e melancólico, e Carolina tem nos seus olhos o sutil ressentimento de alguém preso numa vida que não gostaria de estar. Apesar disso, ela tem uma enorme devoção ao pai, algo que vemos nas cenas seguintes, conforme Carolina ajuda Moisés na sua rotina matinal de se limpar, se exercitar e tomar sua profusão de remédios. Pela sequência, fica claro que Carolina fica responsável por todas as tarefas que envolvem sair de casa, como fazer compras e cuidar do jardim. Ela também faz as tarefas mais pesadas dentro de casa, enquanto Moisés se ocupa cozinhando, organizando os cômodos e, no tempo livre, lendo por longos períodos. Fica evidente que ele nunca sai de casa.

Carolina faz compras na feira no centro da cidade e é abordada por Tonino (Adriano Tardiolo), que é seu colega no colégio. Fica claro que ele vem tentando algumas aproximações, sempre rebatidas por ela. Tonino, que faz parte do grêmio estudantil do colégio e organiza algumas manifestações e ações políticas no ambiente escolar, diz a Carolina que o grêmio está se movimentando para realizar um protesto contra Mario Santorini, um político com ligações fascistas que em breve fará uma visita à cidade e realizará um discurso no auditório do colégio. Tonino afirma que o grêmio necessita de alguém com o espírito rebelde de Carolina. Pela primeira vez, ela parece dar alguma atenção ao rapaz, que é levemente desajeitado e socialmente estranho, mas logo ela lembra que tem muitos compromissos e provavelmente não conseguiria se comprometer com um projeto desses. Tonino parece levemente decepcionado, mas pede que ela pense no assunto.

De volta para casa, Carolina encontra Moisés tentando montar, sozinho, uma árvore de Natal — e, com isso, fazendo um esforço pouco usual para a compleição física. Preocupada, ela se junta ao pai e pede que ele descanse enquanto ela termina de fazer a montagem.

Enquanto Carolina presta atenção na montagem da árvore, Moisés entra no quarto e sai de lá carregando com dificuldade o enorme presente que estava em sua mesa. “Eu ia esperar o Natal, mas acho que você merece passar o fim de semana com isso aqui”, diz ele, sorrindo. Carolina se apressa para ajudar Moisés com a caixa e, surpresa, sorri e agradece ao pai pelo presente, esquecendo-se rapidamente da árvore e começando a a abrir o embrulho com vontade.

O presente é um toca-discos e uma série de discos de vinil já com um aspecto envelhecido. Carolina olha para o presente com os olhos brilhando, e pergunta ao pai se ele não vai se incomodar com aquilo, já que ele é intolerante a qualquer tipo de barulho. “Eu já me adiantei a isso”, responde Moisés com um sorriso enquanto abre uma gaveta. Ele tira de lá um fone de ouvido e entrega à filha. Carolina pega o seu presente completo — toca-discos, discos de vinil e fone de ouvido — e imediatamente começa a montar o equipamento em seu quarto. Enquanto isso, Moisés puxa um dos discos da pilha, um compacto, e entrega à filha: “acho que você deveria começar com esse aqui”, diz o homem.

Carolina observa a capa do compacto, que não parece ser oficial — em vez de uma arte elaborada, existe apenas uma palavra, escrita à mão com caneta: BEATLES. Ela puxa o disco da embalagem e coloca na vitrola, conectando o fone de ouvido no aparelho para não incomodar Moisés. Enquanto ajusta a agulha para começar a tocar, Carolina percebe que há outra coisa dentro da capa do disco; ela coloca a mão dentro da capa e tira de lá um bilhete, cuidadosamente dobrado e escrito “PARA CAROLINA”. Com uma expressão assombrada, ela abre o bilhete conforme a agulha toca o disco. Ouvimos, em off, a voz de Mateus começar a ler o conteúdo do bilhete: “minha filha…”.

A voz de Mateus, entretanto, é rapidamente abafada pela música que começa a sair dos fones de ouvido de Carolina: Revolution, dos Beatles. E, com ela, a cena viaja no tempo e no espaço e começamos a ver uma montagem de Mateus e Moisés jovens, em Salvador, em cenas de protestos e confrontos contra a polícia junto com seus amigos. Apesar do contexto politico conturbado, as cenas são imbuídas de um espírito de diversão juvenil, como se retratassem um período em que os dois amigos ainda não tinham muita ideia do perigo que estavam enfrentando e, em vez disso, estavam ali apenas pela rebeldia e pela contestação. 

A montagem e a música são interrompidas bruscamente no momento em que Carolina levanta a agulha e para o funcionamento da vitrola. Ela está levemente ofegante e com os olhos marejados, a mão apertando o bilhete com força.

Sem bater, Carolina entra no quarto de Moisés, que está deitado em sua cama lendo um livro. Ela mostra o bilhete para o pai. “O que é isso?”, pergunta ela com a voz trêmula.

Moisés tira os óculos e repousa o livro na mesa lateral lentamente, como se aproveitasse cada segundo para pensar nas suas próximas palavras. Ele explica que aquele momento era inevitável e, por mais que ele tenha tentado adiá-lo pelo máximo de tempo possível, não era mais possível esperar: Carolina está perto da maioridade, ele próprio está vendo sua doença tornar-se mais grave e não há mais tempo a perder. Carolina precisa saber da verdade — Carolina precisa saber da sua história.

Agora com os olhos cheios de lágrimas, Carolina se aproxima da cama e deita ao lado de Moisés, aconchegando-se no seu ombro. “O que eu preciso saber?”, pergunta ela.

Moisés abraça a filha e passa a mão pelos seus cabelos. “Você é forte”, diz Moisés, olhando para o teto. “Você é forte como ele”.

Moisés continua fazendo cafuné na filha enquanto a câmera vai se afastando dos dois e ouvimos os acordes iniciais de Acalanto, na versão de Dorival e Nana Caymmi. Junto com a introdução da música, voltamos a ouvir a narração em off de Mateus lendo o bilhete para Carolina:

“Minha filha,

Como sua mãe costumava dizer, quando você ouvir o som das ondas, você estará em casa. Neste momento, todos nós estamos em casa. Todos estamos bem. Todos estamos felizes. E eu espero que, quando você finalmente estiver crescida o suficiente para ler este bilhete, você também esteja em casa… também esteja bem… também esteja feliz. 

Esta não é uma história alegre, mas é a nossa história.”

Enquanto ouvimos o início da música e a leitura de Mateus, a câmera continua se afastando lentamente de Moisés e Carolina e, num movimento lateral combinado com um efeito visual, viaja para um outro quarto, décadas antes e a um continente de distância. Reconhecemos este quarto como o mesmo quarto que Mateus adentrou na primeira cena do capítulo, com o berço no centro do recinto, mas agora é noite. A música entra no seu primeiro verso (“É tão tarde, a manhã já vem…”) quando a imagem se fixa na porta do quarto e vemos um jovem Moisés, ainda sem cicatrizes ou deformidades, entrar lentamente no recinto, com a expressão aterrorizada.

Ele se aproxima devagar do berço e, no escuro, iluminado apenas pela luz da lua que invade as janelas, ele carrega a Carolina bebê nos braços, assim como Mateus o fez na cena inicial. Ao contrário da expressão de júbilo de Mateus, entretanto, a face de Moisés é indecifrável: sua expressão mistura desespero, esperança e espanto conforme ele carrega a pequena criança nos braços e a aperta, cada vez mais forte, contra seu peito.

A câmera vai se aproximando daquela unidade de dois, naquele momento íntimo e inabalável, enquanto a música vai chegando no seu refrão (“Boi da cara preta”). Num close-up, Moisés olha diretamente para a câmera, a expressão ainda indecifrável, e não temos a mínima ideia do que ele fará a seguir. A imagem corta bruscamente para a tela preta, mas a música segue. Os créditos finais sobem ao som de “Acalanto”.

FIM DO CAPÍTULO I


Notícias e Imagens

Em breve.


Prêmios

Em breve.


Críticas do Júri

Em breve.


Comentários do Público

Em breve.

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