Formigas (2022)

de Cao Hamburger
produzido por Bruno S.
com Jerônimo Dias e Pedro Fasanaro
8 de Abril de 2022
🇧🇷 Brasil

Aventura / Coming-of-age
Sinopse:
Em 1969, enquanto a Apollo 11 cruza os céus em direção à lua, dois jovens irmãos partem numa jornada de Jequié, no sertão da Bahia, até Salvador para buscar uma caixa de formigas para o pai. Ao longo do caminho, eles conhecem figuras extravagantes, enfrentam seus medos, descobrem novos amores, embarcam em aventuras e se deparam com um mundo muito diferente do que imaginavam.

Vencedor de 6 prêmios, incluindo o Prêmio Especial do Júri no Festival do Rio.


Consenso da Crítica: “Formigas” peca pela autoindulgência e pela duração excessiva, mas o diretor Cao Hamburger pinta de maneira competente o cenário de uma época e de um lugar muito particulares — além de conseguir extrair do seu numeroso elenco uma galeria de personagens pitorescos e charmosos.

Média da crítica

74

Média do público

Tomatômetro

71%

Pipocômetro


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Ficha Técnica

Direção: Cao Hamburger
Roteiro: Bruno de Souza
Produção: Bruno S.
Fotografia: Affonso Beato
Figurino: Marília Carneiro
Música: Lô Borges
Distribuição: Downtown Filmes
Plataforma: Catflix

Elenco

Jerônimo Dias como Zeca (José Carlos Carajás)
Pedro Fasanaro como Tito (Antônio Carajás)
Luísa Arraes
como Mariana
Tom Zé como Mancha
Othon Bastos como Raia Miúda
João Miguel como Martinho Carajás
Emanuelle Araújo como D. Isabel Carajás
Fabrício Boliveira como Ivan
e
Rita Lee, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Arnaldo Baptista, Sérgio Dias e Gal Costa como os artistas do circo


Proposta Estética

Se “Formigas” pode ser caracterizado como uma viagem pelo Brasil da segunda metade do século XX e suas transformações drásticas, por vezes brutais, a linguagem estética do filme segue a mesma linha, metamorfoseando-se conforme o trio de protagonistas avança por cenários e situações extremamente díspares e particulares. As cenas iniciais em Jequié têm algo da aridez de “Vidas Secas”, de Nelson Pereira dos Santos, mas substituindo a frieza implacável daquele por um intenso calor — literal, do sol quente que banha os personagens a todo momento, e simbólico, vindo do seio familiar que representa o abrigo e o conforto dos dois irmãos.

As passagens seguintes, na fazenda de Milagres e no circo, referenciam Glauber Rocha e a sua evolução artística: a escalação de Othon Bastos é uma homenagem direta a “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, enquanto os acontecimentos cada vez mais surreais e simbólicos com a trupe circense se aproximam da fantasia delirante de “O Dragão da Maldade e o Santo Guerreiro”, misturados com uma estética multicolorida inspirada nos tropicalistas, também homenageados com a participação especial dos integrantes remanescentes do disco Tropicália ou Panis et Circensis.

A chegada em Salvador, por sua vez, é acompanhada de um certo endurecimento na situação dos personagens e também na estética do filme: a fotografia fica mais acinzentada, a câmera mais fixa e os closes menos frequentes, numa referência ao cinema político e sóbrio de Ruy Guerra — especialmente “Os Fuzis”. Em nenhum momento, entretanto, “Formigas” se esquece do seu frescor juvenil, e quando a narrativa ameaça entrar num buraco negro de tensão e pessimismo, os acontecimentos se contorcem para resgatar o ar brincalhão e sentimental da história.

A trilha sonora é baseada no disco “Lô Borges”, de 1972, considerado uma das mais puras e autênticas expressões de juventude da época (Lô tinha 20 anos quando lançou o disco). Junto às composições do mineiro, destacam-se uma série de canções (e jingles) marcantes da história do Brasil, desde obras de Louis Moreau Gottschalk do século XIX até remixes eletrônicos de Eumir Deodato, além de alguns clássicos internacionais da época.


Nota: Abaixo, a narrativa de “Formigas” é apresentada em duas versões: uma completa, com aproximadamente vinte páginas, e uma resumida, com cerca de duas páginas (em formatação padrão). A primeira desenvolve mais profundamente os personagens e ações, inclui a trilha sonora e alguns diálogos, enquanto a segunda contém uma descrição básica dos eventos do filme.
Fique à vontade para apreciar a história da maneira que preferir. Caso escolha ler a versão resumida, clique aqui para pular diretamente para ela e evitar spoilers.


Narrativa completa

Uma versão estilizada da vinheta da Catflix, em preto-e-branco e com um ar de grande estúdio estadunidense nos anos 1960, surge na tela ao som dos 16 segundos iniciais da Grande Fantasia Triunfal Sobre o Hino Nacional Brasileiro, de Gottschalk. Tela preta. Silêncio.

Na tela, surgem os dizeres: Tudo a seguir aconteceu de verdade, exceto as partes em que você não acreditar.

O espaço sideral se descortina em frente aos nossos olhos conforme ouvimos os acordes iniciais de “Your Time is Gonna Come”, do Led Zeppelin. Fazemos uma viagem por cenários psicodélicos dos cosmos conforme a introdução da música se desenrola, e a imagem vai se afastando gradualmente até englobar todo o universo. Com um sutil truque visual, o universo transforma-se no túnel de um formigueiro, e uma formiga sai do seu abrigo em direção ao sol quente.

Ainda no mesmo plano sequência, a música faz a transição para a sua seção principal (1:04) e a imagem continua subindo, desta vez para revelar nossos heróis, Tito (Pedro Fasanaro), 19, e Zeca (Jerônimo Dias), 11, deitados no chão de terra batida olhando para o céu. A formiga que saiu do formigueiro tenta subir no braço de Zeca, mas ele a espanta com a mão oposta. Um radinho de pilha próximo aos irmãos toca a canção do Led Zeppelin com um som abafado.

Terça, 15 de julho de 1969

A rádio interrompe a música com um boletim de notícias extraordinário, no qual conseguimos nos situar: Jequié, agreste da Bahia, 15 de julho de 1969. Um locutor de voz empostada dá as últimas notícias sobre a missão da Apollo 11, que partirá em direção à lua no dia seguinte, enquanto os irmãos passam a exibir um claro ar de insatisfação em seus rostos. À distância, ouvimos D. Isabel (Emanuelle Araújo), mãe dos dois, gritando que eles parem de olhar para o sol e que entrem para almoçar. Os dois se levantam. “Desliga essa desgraça aí”, diz Zeca, mau humorado.

Na mesa do almoço, conhecemos o resto da família: D. Isabel, uma mulher firme, porém carinhosa com seus filhos; Martinho (João Miguel), o pai, uma figura divertida (e um tanto quanto tresloucada) que dedica seu tempo livre a uma série de experimentos no quintal da casa simples, porém grande onde vivem; a irmã mais velha, Teresa, uma jovem estudiosa e compenetrada; e Joãozinho, de seis anos, o irmão mais novo e xodó de todos. À beira da mesa na sala bem-iluminada, posta-se Yuri, o cachorro da família, um vira-lata que teoricamente não poderia entrar em casa — mas todos já esqueceram de reforçar a regra há alguns anos.

A família fala pelos cotovelos durante o almoço e, em meio à sinfonia de vozes e talheres, pegamos alguns detalhes sobre cada um. Tito prestou vestibular no fim do ano anterior para estudar economia, mas não passou e desde então faz um bico na venda do Seu Camilo até que possa tentar novamente a entrada na universidade. Zeca está no fim das férias de meio de ano, mas precisará estudar mais geografia no segundo semestre se quiser evitar a recuperação. Martinho, por sua vez, está animado com seu mais recente experimento: a plantação de uma espécie rara de laranjeira no seu quintal, que dá frutas mais doces e mais nutritivas. Todos, entretanto, ficam rabugentos quando Joãozinho inocentemente toca no assunto proibido: a viagem do homem à lua. Martinho inicia um monólogo que começa como um resmungo meio indefinido sobre o imperialismo estadunidense e gradualmente vai se transformando numa defesa apaixonada, ligeiramente cômica, da União Soviética. Todos à mesa concordam entre risos e expressam seus votos para que o foguete da Apollo 11 exploda antes que os Estados Unidos vençam a corrida espacial.

Depois do almoço, Martinho leva Tito e Zeca à sua plantação das laranjeiras. Ele nota um problema nos tímidos caules que começam a despontar da terra: pequenas manchas brancas que, segundo ele, impedirão o crescimento das mudas. Com a mão no queixo e andando de um lado para o outro, ele diz que algum tipo de inseto há de depositar os nutrientes necessários no solo e predar a praga que está causando os problemas. “Formigas… formigas! As Terríveis Cuiabanas!”, exclama Martinho para si mesmo enquanto Tito faz uma cara de confusão. “É delas que eu preciso, mas vai ser difícil de conseguir… Talvez em Salvador, mas eu não posso, preciso trabalhar, o que fazer…”, continua ele, andando cada vez mais rápido até parar de repente e olhar para Tito. “Meu filho!”, exclama Martinho, e Tito reage com um sobressalto. “Talvez eu tenha uma missão para você”, continua. Martinho olha para os lados, como se procurasse por alguém. “Ué, cadê seu irmão?”.

Corte brusco e vemos a mão de Zeca levar pelo ar um Concorde (o primeiro modelo de avião supersônico) de brinquedo. O garoto, absorto na brincadeira, adentra na mata que margeia o quintal da sua casa, com o cachorro Yuri seguindo-o de perto. O faz de conta avança e Zeca segue se afastando de casa até que, em certo momento, se dá conta que se está perdido. Com uma cara assustada e Yuri ao seu lado, Zeca percorre a mata em várias direções, mas não consegue se localizar. A expressão de temor vai ficando mais aguda. Zeca segue andando até que, em um determinado momento congela: à distância, uma enorme onça vai se aproximando dele com um olhar predatório. Após um breve instante de inação, Zeca sai correndo e gritando por sua mãe, seguido por Yuri.

À distância, na varanda de casa, D. Isabel ouve os gritos do filho e grita de volta para que ele possa localizá-la. Zeca chega correndo como uma flecha e abraça a mãe, tentando conter o choro e contando o que aconteceu. Ela acalenta o menino, dizendo que está tudo bem e que ele provavelmente ficou assustado e imaginou a onça — afinal de contas, não existem bichos como aquele por ali, e Zeca não conseguiria correr de um felino de grande porte de qualquer forma. Zeca, ainda nos braços da mãe, olha para o jardim da casa e vê uma cena estranha: a velha picape da família, enferrujada e caindo aos pedaços, engasgando ao tentar se movimentar.

Agora estamos dentro da picape, onde Martinho tenta — um tanto pateticamente — fazer a velha geringonça funcionar e Tito, no banco do carona, se segura com um olhar comicamente assustado. “Está pior que eu pensava. E olha que eu dirijo muito bem”, diz o pai, com um olhar obstinado que beira a loucura. Martinho salta do banco do motorista, abre o capô da picape e dá umas batidinhas aqui e ali em partes do motor, como alguém que claramente não tem a mínima ideia do que está fazendo. Ele pergunta se Tito quer tentar assumir o volante. O jovem assente com a cabeça, assume o banco do motorista, liga o carro novamente e pisa no acelerador — tudo normal: a picape se movimenta suavemente, sem quaisquer problemas. Tito solta um leve sorriso enquanto Martinho faz uma cara confusa. “Eu devo ter amaciado pra você”, diz.

Martinho explica, enfim, a missão que tem para Tito: ele quer que o filho faça uma viagem até Salvador e busque na loja Duas Américas, a maior loja de departamentos da cidade, uma caixa das Terríveis Cuiabanas, uma nova espécie de formiga desenvolvida especialmente para cuidar de pragas e ajudar plantações. Martinho pondera que a viagem, mesmo não muito longa, não será simples: com as estradas precárias e a picape inspirando cuidados, é prudente que uma distância pequena seja percorrida por dia — requerendo pelo menos seis dias de jornada, ida e volta, incluindo uma noite em Salvador. Enquanto Martinho fala, o sorriso de Tito vai se iluminando: vemos o rapaz imaginar uma viagem sozinho na flor da idade, caindo na noite soteropolitana, paquerando todas as garotas da cidade grande e vivendo a vida que sempre quis viver. “Mas tem um detalhe”, completa Martinho. “Seu irmão vai com você”.

A cara de Tito se contorce conforme Martinho explica que a viagem é uma oportunidade para que Zeca deixe de lado sua timidez e seus medos, e que aquela condição é definitiva: sem Zeca, Tito não pode ir. O rapaz tenta convencer o pai do contrário, sem sucesso. Martinho grita por Zeca e o garoto se aproxima do carro. “Você gostaria de ir a Salvador com seu irmão?”, pergunta o pai. Zeca abre um enorme sorriso conforme ouvimos o início de “Toda Essa Água”.

A música marca a montagem que acompanha os dois irmãos arrumando suas malas para a jornada. Ao mesmo tempo, ouvimos, de forma um tanto distante e abafada, mais um boletim de rádio narrando os últimos preparativos para a partida da Apollo 11 na manhã seguinte.

Os dois sons (a música e o boletim de notícias) são interrompidos abruptamente com a mão de Martinho desligando o rádio com uma expressão zangada. É noite e a família está reunida na sala, a mesa de jantar ainda com os pratos sujos. “Bom, ninguém precisa dessas notícias”, diz ele. “Vamos ouvir música”. Zeca pede para que coloquem o Álbum Branco, dos Beatles, mas Teresa retruca dizendo que eles têm ouvido o Álbum Branco toda santa noite há mais de um ano. “Peraí”, diz Martinho enquanto pega sua bolsa e tira dela um pequeno disco de vinil — “achei esse hoje na loja de discos, diz ele, enquanto posiciona o compacto na vitrola.

“Rain”, dos Beatles, começa a tocar e a família compartilha o momento em silêncio, sorrindo com a beleza da música e cada um afundado em seus próprios pensamentos. Martinho balança a cabeça positivamente e murmura para si mesmo “é, essa vai virar um clássico”. Em um dado momento, Joãozinho interrompe o silêncio: “Mãe, os Beatles são russos?”. “Não, são ingleses”, responde D. Isabel. “E por que nós gostamos deles?”. Silêncio. Martinho, comicamente incomodado com a pergunta, simplesmente responde com um resmungo: “Bom, acho que é hora de você ir pra cama”, Aproveitando o embalo, todos vão se levantando preguiçosamente.

D. Isabel cobre Zeca e lhe dá um beijo de boa noite. Zeca pede que ela fique mais um pouco e confidencia à mãe que ainda está assustado com a onça. D. Isabel deita-se ao lado do filho e o conforta, dizendo que nada de mau há de atingi-lo. Após alguns segundos em silêncio, ela pergunta se ele quer mesmo partir na viagem com Tito. Zeca diz que sim, mas — baixinho, em tom de segredo — conta que está com medo de dormir sem a mãe. D. Isabel pega o Concorde de brinquedo próximo à cama e começa a balançá-lo suavemente pelo ar. “Você ainda gosta da música do japonês?”, pergunta ela, e ele assente.

No escuro, apenas com a luz da lua invadindo timidamente a janela com as finas cortinas, D. Isabel começa a cantar “A Saga de Urashima Taro”, famoso jingle da Varig nos anos 1960. Zeca se aproxima da mãe enquanto os dois olham para o avião. Ao final da música, ela entrega o Concorde a Zeca. “Leve com você”, diz ela. “Quando estiver com saudade, quando precisar de mim, abrace o avião bem apertado e eu viajo até você em um instante”. Zeca sorri e comenta sobre como a voz da mãe é bonita. Ela, suspirando, conta que na juventude tentou ser cantora nos grandes teatros de São Paulo. Zeca pergunta por que ela não seguiu seu sonho, e D. Isabel continua pensativa: “eu tinha coisas mais importantes a fazer”.

Depois, vemos D. Isabel deitar-se em sua própria cama, na qual Martinho já se acomodou e lê um livro antes de dormir. Ela pergunta se Zeca está realmente preparado para aquilo. Martinho coloca o livro de lado e diz que não sabe, mas que é melhor para ele. “E se algo acontecer? E se ele precisar de nós?”, pergunta a mãe. “Você esqueceu que ele estará com o irmão mais velho?”, responde Martinho. Vemos os dois de cima, olhando para o teto.

Corte silencioso para o quarto de Tito. Ele também está deitado na cama, olhando em silêncio para o teto.

Quarta, 16 de julho de 1969

É a manhã seguinte e, enquanto toda a casa corre para lá e para cá com os preparativos da viagem dos irmãos, Martinho coloca o telefone no gancho e chama Tito. Ele diz que estava falando com Tonico Raia Miúda, e os olhos do rapaz ficam arregalados. Raia Miúda era, décadas atrás, o cangaceiro mais temido da região — um seguidor de Lampião que, após a morte do líder, juntou um bando por conta própria e virou uma espécie de mito pela violência dos seus ataques e pela crueldade perante seus adversários. Tito vai do assombro ao pavor quando seu pai diz que a viagem dos irmãos precisará incluir uma parada na fazenda de Raia Miúda. Martinho explica que, há décadas, deve um favor ao cangaceiro: “não vou entrar em detalhes, mas eu devo minha vida a ele”, pontua o patriarca. Tito arregala ainda mais os olhos. “Sua VIDA?”, pergunta. Martinho diz que não há com o que se preocupar: “não é como se ele estivesse muito interessado em cobrar, de qualquer forma”.

O pai continua, explicando que, ainda assim, aquela é a oportunidade perfeita para retribuí-lo. “Retribuir como, carambolas?”, pergunta Tito. O pai diz que Raia Miúda tem uma neta, Mariana, que está de casamento prometido com o Coronel Juvêncio, um jovem poderoso da região, e que Tito e Zeca darão uma carona à jovem até Salvador: ela fará as medições do seu vestido de noiva na opulenta seção de casamentos da loja Duas Américas. Tito agora reúne o temor com o aborrecimento, como se estivesse contrariado de ter que levar ainda mais uma pessoa consigo.

A família se reúne na frente da picape para se despedir de Tito e Zeca. Todos se abraçam e fazem votos de boa viagem — Tito, que diz não gostar de despedidas, é menos efusivo, mas receptivo. Joãozinho ensaia um choro fingido por querer ir junto. Zeca dá um último abraço na mãe e aponta para o Concorde, cuja ponta aparece para fora da sua mochila. Ela sorri. Martinho chama os dois viajantes num canto e pede, dirigindo-se especialmente a Zeca, que eles mantenham-se discretos em relação à União Soviética, comunismo e adjacências. “Por aqui todo mundo é nosso amigo, mas lá em Salvador não”, adiciona o pai. Martinho abraça os filhos enquanto eles prometem ficar longe do assunto.

Os irmãos entram na picape, e passamos a ouvir a locução do rádio narrando a contagem regressiva da decolagem da Apollo 11. Um efeito sonoro vai crescendo conforme a contagem vai se aproximando do zero, e focamos nos rostos de Tito e Zeca com um enorme horizonte à frente. No “zero”, Tito gira a chave na ignição e dá a partida conforme passamos a ouvir “Viajante”, de Sá e Guarabyra, com os sons da decolagem de um foguete ao fundo. Os dois irmãos partem na estrada de terra com um sorriso no rosto, e Yuri segue correndo atrás do carro por alguns metros enquanto a família acena calorosamente pelo retrovisor.

A imagem se fixa nos dois irmãos sorridentes olhando o horizonte enquanto a picape sacoleja pelas irregularidades da estrada. O sorriso, entretanto, vai desvanecendo junto com a música conforme a euforia vai sendo substituída pelo tédio. Os quilômetros de pastos ininterruptos começam a se repetir, e Tito e Zeca — como que imediatamente separados pelos infinitos seis anos de idade que separam os dois — parecem não saber ao certo o que falar um com o outro agora que o silêncio, que antes era perfeitamente natural, vai se tornando desconfortável.

Tito puxa assunto da pior maneira possível: relembrando todas as histórias arrepiantes que conhece de Raia Miúda na sua época de cangaço. O irmão mais velho fala sobre as cabeças arrancadas, sobre os homens despidos e postos a humilhações perante suas famílias antes de assassinatos cruéis, sobre o rastro de destruição deixado em casas e vilas inteiras… “mas foi tudo por bem”, completa Tito, enquanto Zeca olha apavorado para o nada. “Pelo menos é o que pai diz”. Tito lembra ainda que, seja como for, Raia Miúda é agora um velho acabado, fazendeiro, e não verá os dois rapazes como ameaças. Eles estão seguros… teoricamente.

Os dois irmãos chegam à pequena cidade de Milagres. A velha picape adentra os portões de uma fazenda simples, porém enorme, e uma estrada de terra leva Tito e Zeca até a casa principal da propriedade — da mesma forma, uma construção imponente pelo tamanho, mas espartana. Os irmãos descem da picape, Tito com uma leve expressão de temor e Zeca completamente apavorado. Ninguém aparece para recebê-los. Tito bate palmas e grita “ô de casa”, mas não recebe qualquer resposta. Os dois ouvem um som abafado, que pode ou não ser música, vindo de dentro da casa. Tito indica a porta com a cabeça, e os dois se aproximam, pé ante pé, da entrada do casarão.

As batidas na porta também não dão resultado, e agora o som abafado da música é mais forte. Tito empurra a porta devagar e a música altíssima — “Conceição”, de Cauby Peixoto — invade os ouvidos dos dois irmãos. Zeca entra atrás do irmão, os olhos vidrados de pavor. Eles atravessam toda a sala de recepções e se aproximam de um segundo recinto, de onde vem a música. Zeca se aproxima devagar e seus olhos de medo vão se transformando em espanto: no centro da sala, Raia Miúda (Othon Bastos) canta e dança no ritmo da música, saída de uma velha e enorme vitrola, com um porta-retrato apertado contra seu peito. Por um breve instante, os dois irmãos ficam parados na entrada da sala de música, sem reação.

Em um milésimo de segundo, então, Raia Miúda — exibindo seus talentos de outrora — percebe a presença dos dois irmãos, joga o porta-retrato num sofá nas proximidades, puxa um facão da bainha da calça e aponta para Tito e Zeca com um olhar aterrorizante. “EU MATO! EU MATO!!!”, vocifera, e de pronto os dois irmãos pateticamente se ajoelham no chão com as mãos para cima. Os dois gaguejam coisas sem sentido até que Tito consegue formar uma frase e explicar que eles são os filhos de Martinho. A expressão de Raia Miúda se altera completamente: “ah, por que vocês não disseram antes?”, pergunta ele enquanto embainha de volta o facão com toda a naturalidade do mundo. O ex-cangaceiro manca até os irmãos e envolve os dois num abraço, que é retribuído com tapinhas perplexos nas costas do velho. “Gosto muito de seu pai”, diz Raia Miúda. “Espero que ele esteja aproveitando o meu presentinho”, diz, enigmático. Os irmãos acham melhor não perguntar.

O momento embaraçoso é interrompido por uma voz feminina vinda do topo das escadas. “Que confusão é essa?”, pergunta a moça, uma bonita jovem que desce rapidamente os degraus e atrai imediatamente os olhares de Tito. Raia Miúda a apresenta aos irmãos: Mariana (Luísa Arraes), sua única neta e seu bem mais precioso. “Estava dançando com vovó de novo, né?”, pergunta ela com um sorriso gaiato. Mariana, de antemão, agradece Tito e Zeca pela carona a Salvador, e Raia Miúda complementa dizendo que ela será a noiva mais bonita já vista naquelas bandas — “e é bom que seja mesmo, porque se demorar um pouco mais vai ficar pra titia”, completa ele.

Raia Miúda insiste que os irmãos passem a noite na fazenda e partam na manhã seguinte. Ainda sem jeito, Tito e Zeca aceitam e são acomodados por Mariana num quarto desocupado (e um tanto quanto empoeirado). Tito tenta puxar assunto com a moça, mas não consegue articular uma frase direito — a cena é tão patética que Zeca se vê obrigado a interromper o irmão com um chute. O garoto pede desculpas e diz que tropeçou, enquanto Mariana dá um sorriso de canto de boca. Ela diz que o jantar será servido às sete e pede que os dois fiquem à vontade.

Assim que ela fecha a porta, Zeca se vira para o irmão e pergunta se ele está louco de paquerar a neta de Raia Miúda. Tito, tentando se fazer de bobo, diz que não está paquerando ninguém e só quis ser simpático. Zeca lembra ao irmão que Mariana, além de ser neta do terror da infância dos dois, é uns bons anos mais velha e está de casamento prometido com um coronel. Tito se senta em uma das camas e uma nuvem de poeira sobe pelos ares. “Eu sei”, completa ele, melancólico.

Os irmãos sentam-se para jantar numa mesa enorme, posta apenas para quatro pessoas. Raia Miúda está sentado na cabeceira, e Mariana vai trazendo da cozinha, prato após prato, um verdadeiro banquete. Tito pergunta quem preparou tudo aquilo, e ela aponta para si mesma sem demonstrar qualquer rancor. “É uma menina de ouro”, diz Raia Miúda. Ele conta que, alguns anos antes, Mariana partiu para estudar no Rio de Janeiro, mas voltou para cuidar do avô após a morte da avó. Zeca, então, esboça sua primeira pergunta da noite: quem vai ficar com Raia Miúda depois que Mariana casar. O velho tenta minimizar o problema, dizendo que sabe cuidar de si próprio, mas o silêncio momentâneo que segue mostra que nem ele próprio sabe a resposta.

Mais à frente no jantar, já na sobremesa, os irmãos estão mais à vontade. Raia Miúda pergunta se Martinho ainda tem aquela afeição pelos comunistas. Tito e Zeca se entreolham, receosos, mas o anfitrião interrompe o pequeno momento de tensão com uma sonora risada: “Claro que sim. O olhar de vocês já disse tudo”. Tito, rindo sem graça, confirma. Raia Miúda se ajeita na cadeira e diz que também é — já foi mais, mas ainda admira os soviéticos e gosta muito dos cubanos. “Mariana também é comuna”, diz ele. Ela sorri timidamente, e diz que passou a se interessar por teoria política quando estudou no Rio de Janeiro. A timidez vai dando lugar à animação conforme ela fala de Marx, Engels, mais-valia, teoria do trabalho, hegemonia gramsciana e mais um bocado de conceitos dos quais Tito e Zeca sequer ouviram falar. Os irmãos reagem boquiabertos à bagagem intelectual da moça, e quando ela termina de falar, o silêncio que se forma à mesa é interrompido por Raia Miúda após alguns segundos: “é… talvez seja melhor não repetir isso para o Coronel Juvêncio”.

Após o jantar, Raia Miúda senta-se na sala de música e liga o rádio para ouvir as notícias — dominadas, claro, pela missão da Apollo 11. Os dois irmãos torcem ao nariz ao saber que o foguete partiu sem incidentes do Cabo Canaveral e está em rota para a lua. “Fascinante”, diz Raia Miúda, olhando para o nada, enquanto Mariana concorda que a viagem é um feito e tanto para a ciência. “Mas… são americanos”, diz Zeca, timidamente. Mariana sorri: “é, não se pode ter tudo”.

De volta ao quarto empoeirado, Tito e Zeca, já com vestes de dormir, recebem de Mariana roupas de cama e travesseiros. Ela deseja boa noite aos dois e dá um sorriso a Tito antes de se virar e deixar o recinto. Ele fecha a porta e olha para Zeca, que está da cama com um olhar julgador para os dois.

Algum tempo depois, enquanto Tito se prepara para deitar, Zeca já está recolhido em sua cama, agarrado no Concorde de brinquedo e olhando para o teto. Tito pergunta o que há de errado e Zeca hesita antes de perguntar de volta: “Joãozinho já está mais crescido agora, não é?”. Tito não entende e o garoto, inseguro em suas palavras, explica a razão da sua preocupação: ele lembra quando, um ano ou dois antes, Joãozinho presenciou um incidente no qual Zeca fez xixi na cama e, alguns dias depois, contou o segredo para todos os amigos do irmão durante uma partida de futebol na rua. Zeca revela a Tito, então, o episódio com a onça e conta que, de novo, Joãozinho viu tudo. “Será que ele vai contar pros meus amigos?”, pergunta. Tito, meio sem jeito, senta-se à beira da cama e diz que Joãozinho, se for minimamente inteligente, não vai contar nada — afinal de contas, as palmadas que tomou de D. Isabel da última vez já devem ter servido de lição.

Tito deita-se na sua cama e dá boa noite ao irmão, que continua sem pregar os olhos e observando a lua que se revela pela janela. “Eu Sou Como Você É”, de Lô Borges, começa a tocar. A música continua enquanto vemos os cenários da extensa fazenda de Raia Miúda iluminados pela lua. A noite vai dando lugar aos primeiros raios de sol e a canção vai desaparecendo.

Quinta, 17 de julho de 1969

Na manhã seguinte, o trio — Tito, Zeca e Mariana — se prepara para partir. Antes que Tito possa entrar no carro, Raia Miúda coloca a mão amigavelmente no seu ombro e pede que o jovem o acompanhe. Os dois vão para uma lateral da casa, onde não podem ser vistos, e o sorriso do velho rapidamente se transforma na expressão mais apavorante que se poderia imaginar. Ele puxa o facão das vestes e encosta no pescoço de Tito. “Eu considero muito seu pai e por isso confio em você, rapaz”, começa Raia Miúda. “Mas se alguma coisa acontecer a minha Mariana, qualquer coisa, se você encostar o dedo mindinho nela, pode dar adeus à sua macheza”. Tito, atônito, só consegue soltar um guincho quase surdo indicando a Raia Muída que promete cuidar da sua neta.

Branco como uma folha de papel e completamente calado, Tito entra no carro onde Mariana e Zeca já o aguardam. O garoto, que senta-se no meio no banco frontal inteiriço da cabine, pergunta ao irmão se está tudo bem. Tito simplesmente balança a cabeça positivamente, concentrando-se em não olhar para Mariana. Os três partem, deixando um pensativo Raia Miúda sozinho e minúsculo perante a gigantesca casa em que vive.

As horas passam, as estradas passam e os cenários idílicos de plantações e longas fazendas vão, progressivamente, dando lugar às indústrias e aos cenários urbanos mais adensados. Para lidar com o tédio, Mariana e Zeca entoam canções e fazem brincadeiras no espaço limitado que têm; isso faz com que os dois rapidamente estreitem os laços e fiquem amigos. Tito, por sua vez, mantém-se calado por toda essa parte da viagem e, sempre que questionado, diz, sério, que deve prestar atenção na estrada.

No início da tarde, o trio para em um restaurante de beira de estrada nos arredores de Feira de Santana. Durante a refeição, Mariana se mostra mais afeita a Zeca, enquanto Tito mantém a carapuça fria e monossilábica. O assunto logo se desloca para o vindouro casamento de Mariana: Zeca pergunta se ela gosta do Coronel Juvêncio de verdade verdadeira e ela ri: “gostar de verdade eu gosto, mas gostar de verdade verdadeira…”, diz ela, assumindo um ar pensativo sem completar a frase. Tito, então, não se aguenta e pergunta por que ela, uma jovem arejada e que já teve contato com um mundo mais progressista, cedeu aos desejos do avô para se casar com o coronel. Mariana repete: “eu acabei de dizer que gosto dele, não disse?”, e inicia-se uma longa conversa entre os dois. Eles descobrem ter, na política e também além dela, gostos e visões de mundo parecidos. Rapidamente, Tito abandona a casca de macho em formação que exibiu para Mariana até então e revela sua verdadeira natureza: um rapaz sensível, delicado e frequentemente bem-humorado. Mariana olha para ele com mais afeição, e Zeca, observando tudo, percebe que há ali algo que não havia antes.

Os três retomam a viagem novamente, e agora o cenário é quase totalmente tomado por grandes fábricas, usinas e parques industriais nos dois lados da estrada. Dentro da picape, a atmosfera é alegre… até que ouvimos um estampido vindo do capô, e a próxima coisa que vemos são Mariana e Zeca do lado de fora do carro, na beira da estrada, enquanto Tito quase some dentro da carroceria tentando investigar o que aconteceu. O problema, claro, é mais grave do que se esperava, e uma sucessão de cortes mostra o trio na beira da estrada sentado pedindo várias caronas, sem sucesso.

Ao entardecer, o céu adquire um tom rosado ligeiramente surreal e a estrada fica estranhamente deserta. Tito, Zeca e Mariana se entreolham intrigados em meio ao absoluto silêncio, até que uma música começa a surgir: “Panis et Circensis”, dos Mutantes. Do horizonte da estrada vazia desponta um fusca multicolorido, cheio de pinturas de flores e acessórios engraçados. O som da música vai crescendo e se mistura ao som da voz do motorista, que não vemos e acompanha a letra da canção a plenos pulmões. Um tanto quanto entorpecidos com a cena, os três jovens sequer lembram de fazer um gesto para pedir carona, mas o fusquinha ainda assim para na altura deles. O som se desliga e vemos o motorista pela primeira vez quando ele sai do carro, sorridente: um homem já velho, trajado com espalhafatosas vestes de mágico de circo e com uma maquiagem igualmente histriônica no rosto. Curvando-se, ele se apresenta com toda a pompa e circunstância de um artista circense: “meu nome é John Wayne Capitolino de la Mancha, ao vosso dispôr. Mas podem me chamar de Mancha” (Tom Zé). Os três jovens sorriem.

Na cena seguinte, Tito, Zeca e Mariana já estão dentro do fusquinha com Mancha, enquanto um guincho na traseira leva a picape quebrada dos jovens. Mancha pega uma estrada secundária, mais isolada, adentrando na pequena cidade de Berimbau. Ele explica que faz parte de uma velha trupe circense que está cansada demais para viajar — já há muitos anos, eles se estabeleceram em um terreno ali por perto e montaram um circo fixo, fazendo suas apresentações para um público cada vez menor. Zeca pergunta quando será a próxima apresentação, e Mancha responde que no dia seguinte com um olhar enigmático. O fusquinha se aproxima do terreno do circo e vemos um cenário pitoresco: em meio a um mundo de fábricas e grandes instalações opressivas, fumacentas, a área do circo ainda verde e colorida, espremida pela industrialização.

Todos descem do fusca e conhecem o restante da trupe: a equilibrista Joséphine (Gal Costa), o cuspidor de fogo Picasso (Sérgio Dias), o contorcionista Fred Astaire (Caetano Veloso), o malabarista James Joyce (Gilberto Gil) e os trapezistas Elvis (Arnaldo Baptista) e Marilyn (Rita Lee). Mancha leva o trio para dar uma volta no terreno do circo e conta que eles fazem apresentações todas as sextas-feiras à noite — a próxima, portanto, será na noite seguinte. Os olhos de Zeca brilham e ele pede a Tito que eles fiquem lá até o espetáculo. O irmão mais velho diz que é impossível, pois eles têm que seguir viagem; Mancha retruca, dizendo que a picape provavelmente levará um tempinho até ser consertada. Tito olha para Mariana, como se buscasse uma aprovação; ela sorri. Zeca comemora.

Mancha leva os três aos seus “aposentos”: duas barracas de camping improvisadas, próximas à precária (e apertada) construção onde a trupe dorme. Tito e Zeca ficam com uma das barracas, enquanto Mariana ocupa a outra.

Durante a arrumação, Mancha chega na barraca dos irmãos e pergunta se Zeca pode ajudá-lo com uma questão para o circo. O garoto, animado, responde que sim e vai atrás do mágico. Na caminhada, Mancha explica que eles têm um número especial na apresentação que é o mais pedido pelo público, mas que há um pequeno probleminha. Zeca pergunta qual. “Bom, você verá”, responde Mancha: “Na verdade eu esqueci de dizer que, além de mágico, eu também sou… domador de feras”. Enquanto diz isso, Mancha abre um grande galpão e os olhos de Zeca vão rapidamente para o horror absoluto: lá dentro, descansa uma enorme onça, idêntica à que ele viu no dia em que se perdeu no mato. “O nome dele é Cassius Clay”, continua Mancha. “Nós tentamos mudar para Muhammad Ali, mas ele não gostou muito”. Mancha explica que Cassius está especialmente intratável hoje e não pode fazer o show deste jeito, mas que gosta muito de crianças — Zeca, portanto, pode ajudar a acalmar a onça.

A cena acima acontece ao mesmo tempo em que acompanhamos Tito e Mariana deixados sozinhos na arrumação das barracas — a montagem corta constantemente entre as duas linhas de ação. Tito se oferece para ajudar a jovem a arrumar sua barraca, e enquanto os dois estão dentro da estrutura recém-montada, ele comenta sobre como tem experiência com aquilo por ter passado a infância saindo em aventuras na mata com o pai. Mariana pergunta se ele ainda sai em aventuras com o pai; Tito responde que não, pois Martinho precisou aquietar após o nascimento de Zeca e, posteriormente, Joãozinho. Mariana dá um sorriso melancólico e Tito, para não deixar o assunto morrer, pergunta sobre os pais dela. Ela parece tentar desconversar por um momento, mas para, olha para Tito com uma expressão triste e revela a verdade: seus pais eram dirigentes importantes do Partido Comunista e estão desaparecidos há quase seis meses. Uma lágrima corre do rosto da jovem, e Tito, sem jeito, tenta confortá-la com um abraço um tanto desajeitado. 

Voltamos para Zeca, ainda com o rosto apavorado, sendo gentilmente incentivado por Mancha que entre no galpão e tente “conversar” com Cassius. O mágico garante que a onça não fará nada com o garoto, que avança lentamente em direção ao animal.

Voltamos para Tito. O rosto dele fica pensativo enquanto abraça Mariana: “você teve outros motivos para voltar para a casa do seu avô, não é?”. Ela olha para ele, que continua: “você precisou se esconder”. Mariana confirma. Tito pergunta se Raia Miúda sabe de algo, e ela diz que não, pois o avô e o pai já estavam brigados há alguns anos. Tito deduz, então, que o casamento de Mariana com o coronel é também motivado por interesse: unindo-se a uma figura importante do interior, alinhada aos militares, ela pode se proteger e vislumbrar a chance de obter alguma informação sobre os pais. Os dois continuam abraçados.

Voltamos para Zeca. Ele agora está a poucos metros de Cassius, que olha para o garoto com o impassível ar felino. Zeca se aproxima pé ante pé, suando frio, com Mancha alguns passos atrás, observando curioso e incentivando o garoto. Mancha pede que Zeca estenda a mão e acaricie a onça com gentileza para conquistar sua confiança. Vemos o braço de Zeca tremer.

Voltamos para Tito, que ainda abraça Mariana. Ele pergunta se os três estarão seguros em Salvador. Ela olha para ele e promete que eles estarão: “se algo acontecer, me deixem ir. Não olhem para trás”. Tito faz menção de negar, mas ela coloca o dedo indicador na boca do rapaz, os rostos dos dois a poucos centímetros um do outro. Eles se olham em silêncio.

Voltamos para Zeca, que treme que nem vara verde a poucos centímetros do focinho de Cassius. Na barraca, Mariana baixa o dedo indicador e os dois se aproximam lentamente para um beijo. No galpão, Zeca cede ao pânico e sai correndo antes de tocar em Cassius, deixando Mancha para trás. O garoto corre desesperado por todo o terreno do circo, atraindo os olhares do restante da trupe, e invade a barraca no exato momento em que Tito e Mariana vão se beijar. Os dois se separam, constrangidos, enquanto Zeca, ainda resfolegante, olha para a cena atônito.

À noite, a trupe se reúne em volta a uma fogueira — mas com uma distância regulamentar, pois o dia está quente — e compartilha o jantar com Tito, Zeca e Mariana. Eles cantam, contam histórias de um passado glorioso e consomem alguma substância que os deixa levemente altos (e que não é compartilhada com os jovens). O clima geral é alegre, porém com uma sutil melancolia pairando no ar. A um certo ponto, Mancha pede a palavra e agradece à trupe pelos anos de companhia e amizade num discurso belo e contido. Zeca estranha o tom das palavras do mágico e pergunta o que está acontecendo. Mancha suspira, e revela ao garoto que a apresentação do dia seguinte será a última a ser realizada pelo grupo. Zeca, indignado, pergunta por que, e Mancha responde que tudo levou àquele momento: eles estão velhos e cansados, as empresas estão oferecendo cada vez mais dinheiro pelo terreno para levantar mais um complexo industrial por ali e toda a trupe poderá ter uma merecida aposentadoria com algum dinheiro para se sustentar. Zeca, ainda perplexo com a informação, diz que eles não podem parar assim, mas Mancha continua explicando que, de qualquer forma, o público está minguando a cada dia e não adianta fazer uma apresentação que não será vista por ninguém. Zeca, arrasado, se mantém calado e abaixa a cabeça. Tito, notando o desalento do irmão, pede a palavra e propõe que, se aquela será realmente a última apresentação da trupe, que seja a melhor e mais gloriosa já feita. Zeca levanta a cabeça. Mariana, pegando o gancho do rapaz, pede autorização para que os três — Tito, Zeca e ela própria — ajudem nessa missão. A trupe aplaude, agradecendo a ajuda, e todos comemoram. Mariana e Tito se entreolham, sorrindo, enquanto Zeca começa a falar, animado, sobre seus planos para o show.

Na cena seguinte, a trupe já foi se recolher e Tito e Zeca estão dentro da barraca se preparando para deitar. O revestimento da estrutura é fino, e permitem que eles vejam, através da malha, a lua e as estrelas pontilhando um céu límpido e pacífico. Zeca se cobre e abraça o Concorde de brinquedo, enquanto Tito, antes de deitar, vê que Mariana está sozinha do lado de fora, de pé olhando para o horizonte. Tito faz menção de sair para se juntar à jovem, mas ouve um chamado baixinho de Zeca. O garoto pede que o irmão não o deixe sozinho, pois ainda está assustado. Tito, dividido entre o desejo de sair para ficar com Mariana e o dever de ficar e cuidar do irmão, tenta puxar assunto para que Zeca adormeça mais rápido. Apontando para o Concorde, pergunta se o garoto ainda quer ser piloto de avião quando crescer. Zeca apenas confirma com a cabeça. “Mas você ainda tem medo de avião?”, pergunta Tito. Zeca confirma de novo. Os dois sorriem. Zeca diz que talvez prefira ser astronauta, e Tito pergunta se foguetes não são mais assustadores do que aviões. “Claro que não”, responde Zeca, sério. “Foguetes flutuam“.

Após alguns segundos de silêncio, Zeca pede que Tito cante alguma música. Tito diz que não sabe cantar, mas o irmão diz que não importa.  Tito pergunta que música ele deve cantar, e Zeca pede “aquela que os Beatles dão boa noite”. Tito ri e diz que não sabe falar inglês. Zeca, mais uma vez, diz que não importa.

Tito fica em silêncio por alguns segundos e olha para a silhueta de Mariana, ainda do lado de fora. Ele respira fundo e começa a cantarolar a primeira estrofe de “Good Night”, dos Beatles, para Zeca. Seu inglês é macarrônico e a afinação não é das melhores, mas não importa: Zeca ouve a canção como se fosse um bálsamo, aperta o Concorde nos braços e se aconchega no colchão improvisado. Ao fim da primeira estrofe, percebendo que o irmão já adormeceu, Tito para de cantar e nós — que até agora ouvimos apenas a voz do rapaz cantando — começamos a ouvir as cordas da gravação original. Com cuidado, Tito abre a barraca e engatinha para fora.

Ainda sob o som do instrumental de “Good Night”, ele se aproxima de Mariana, que sorri e conta que ouviu de leve a conversa entre os dois irmãos. Tito fica envergonhado, mas ela diz que não há razão para aquilo. Os dois sorriem um para o outro. As cordas da música se elevam e ouvimos a segunda estrofe (“Close your eyes and I’ll close mine”), agora na gravação original, conforme Tito e Mariana se abraçam. Em uma cena lírica, ligeiramente surreal, eles dançam sob uma noite exageradamente estrelada, iluminados por uma lua exageradamente reluzente, e seus corpos parecem flutuar levemente sobre a grama que os sustenta. Ao fim da música, eles enfim se beijam. Tito, inebriado, sussurra em meio a um sorriso que eles não deveriam. Ela, também sorrindo, concorda. Nenhum dos dois parece se importar muito.

Sexta, 18 de julho de 1969

Na manhã seguinte, inicia-se uma montagem ao som de “Na Carreira”, de Chico Buarque e Edu Lobo. Vemos Tito tentando consertar a picape e a trupe ensaiar sua grande apresentação. Zeca e Mariana, enquanto isso, percorrem a pequena cidade, anunciando a plenos pulmões a magnífica e esplendorosa apresentação final do circo da cidade, convidando todos os que aparecem nas ruas para verificar do que se trata aquela gritaria. Ao longo da tarde, vemos o trio de jovens ensaiando com os artistas no picadeiro. Zeca, mostrando um entusiasmo como nunca antes, dá ideias e até comanda a trupe em suas apresentações; em alguns momentos, o garoto olha de canto de olho para a onça Cassius, mas prefere não lidar com o problema. No fim da tarde, enfim, Tito consegue dar a partida na picape e olha satisfeito para o seu trabalho; atrás dele, no picadeiro, os artistas dão por encerrados os ensaios e saem, um a um, saudando a ajuda dos três jovens.

Chega, enfim, a grande noite do espetáculo. Tito e Mariana recebem a audiência na entrada do circo — um público razoável, ainda que nem de longe suficiente para encher as arquibancadas. Todos se acomodam em seus lugares e o teto do picadeiro, todo encrustado de pequenas luzinhas que lembram estrelas, se acende. O cenário é todo coberto por um solo branco, cheio de crateras. Mancha, com suas vestes de mágico, anda até o centro do palco no mais completo silêncio, cumprimenta o respeitável público, se apresenta como o mestre de cerimônias daquela noite e anuncia que todos embarcarão juntos numa viagem à lua. Mancha continua apresentando a história da noite enquanto Zeca, vestido com uma roupa de astronauta, surge em uma das extremidades do picadeiro. Na outra extremidade, entra Cassius, a onça. Vemos Zeca engolir em seco dentro da sua fantasia. Mancha explica que aquele é o primeiro contato do homem com as criaturas desconhecidas de fora do planeta Terra.

Ouvimos o longo acorde inicial de “Also Sprach Zarathustra”, de Richard Strauss, conforme Cassius e Zeca andam lentamente um em direção ao outro, no centro do palco. Tito e Mariana assistem, apreensivos, da arquibancada. A música continua construindo a tensão conforme Zeca e Cassius ficam próximos. Mancha tira os olhos do público para admirar a cena, maravilhado. Zeca tenta disfarçar o tremor quando levanta o braço para tocar em Cassius. A música segue no seu crescendo. Zeca consegue, enfim, alcançar o focinho da onça no momento em que a canção chega ao seu clímax. Cassius logo se derrete para Zeca, esfregando seu focinho contra a mão do menino e se jogando para receber carinho; Zeca não se contêm e ri, agradando o seu novo amigo, enquanto o público aplaude o mais novo domador de animais do circo e a música segue em seu momento triunfante.

Mancha volta-se ao público e anuncia: “Está feito. O homem conquistou a lua. Agora, o que ele fará dela?”. E o acorde final de “Also Sprach Zarathustra” dá lugar, sem qualquer interrupção, à batida inicial de “Parque Industrial”, de Tom Zé (na versão dos Tropicalistas). O restante da trupe invade o palco cantando a música e dançando uma intrincada coreografia, cada um em sua especialidade, num show visual que simboliza a construção de um parque industrial em solo lunar. Mancha tira da cartola os tijolos que constroem a fábrica, enquanto James Joyce, o malabarista, manipula os objetos para arremessá-los nos lugares corretos, erguendo os edifícios. Fred Astaire, o contorcionista, faz um balé fisicamente impossível pela superfície lunar, sendo progressivamente “esmagado” pelas fábricas que sobem até o teto do picadeiro, enquanto Picasso, o cuspidor de fogo, simboliza a fumaça que sai do complexo industrial. Joséphine, a equilibrista, anda elegantemente entre as cordas que unem os prédios cenográficos, e lá em cima, onde as estrelas vão se apagando, os trapezistas Elvis e Marilyn fazem acrobacias fugindo da fumaça que sobe. Zeca e Cassius complementam a performance com truques de adestramento, e até Tito e Mariana são chamados da arquibancada para entrar na dança. Com um final apoteótico, a trupe e o trio de jovens se juntam no centro do picadeiro para receber os aplausos do público. Zeca, com Cassius fielmente ao seu lado, é só sorrisos.

Sábado, 19 de julho de 1969

Corte brusco e Zeca abre os olhos com um sobressalto. É madrugada, e ele está deitado na barraca. Tito, já de pé, o chama mais uma vez e diz que eles precisam sair o mais cedo possível, pois já estão atrasados na viagem. Acompanhamos o trio arrumando suas coisas enquanto o sol nasce e a trupe vai saindo dos seus aposentos.

Tito, Zeca e Mariana se despedem dos artistas. Zeca pergunta o que acontecerá com Cassius, agora que o circo está desfeito, e Mancha responde que o felino ficará com ele: “é o meu gato, o que você pensava? Que eu iria jogá-lo no meio do mato?”, pergunta. Zeca faz um último agrado em Cassius, que corresponde carinhosamente. O trio embarca na picape e, nas primeiras horas do dia, parte em direção a Salvador, enquanto a trupe acena animadamente. A imagem vai se abrindo, e novamente vemos os complexos industriais avançando sobre o terreno do circo conforme a picape vai se afastando.

Na estrada, Zeca resolve abordar o elefante na sala: o que está ocorrendo entre Tito e Mariana. Os dois sorriem sem graça mas ficam em silêncio, como se um esperasse o outro falar. Zeca, então, pergunta se Mariana vai abandonar o Coronel Juvêncio. Ela, mais uma vez, apenas sorri — mas em menor intensidade — enquanto Zeca continua seu monólogo involuntário, agora imaginando o picadinho que Raia Miúda fará de Tito caso descubra. “Talvez Mariana tenha que vir morar com a gente”, conclui Zeca. A cada frase do garoto, Tito e Mariana vão adquirindo um ar mais sério e pensativo.

O trio enfim chega à parte asfaltada da estrada, e a concentração cada vez maior de indústrias e edificações comerciais não deixa mentir: eles estão chegando a Salvador. “Also Sprach Zarathustra” volta a tocar, mas agora na versão gingada e moderna de Eumir Deodato, enquanto acompanhamos os rostos de Tito, Zeca e Mariana observando da janela as paisagens, as atividades e as delícias da cidade grande: as ruas lotadas, as casas de luxo, os prédios altos, as pessoas com roupas da moda, os jovens empoleirados em suas tribos com linguajares e costumes próprios, os edifícios modernistas contrastando com as construções barrocas, o colossal estádio da Fonte Nova e, o mais acachapante de tudo, o mar.

Nesta montagem, os closes nos rostos dos três são justapostos com planos abertos cada vez mais afastados, que inserem o trio no fluxo da cidade dando a impressão de que são minúsculos grãos de areia correndo numa ampulheta.

Os três passam em frente ao imponente Cine Guarany, na Praça Castro Alves, e Zeca fica fascinado com um enorme cartaz de “007 – A Serviço Secreto de Sua Majestade” afixado em uma das paredes do prédio. Ele implora que os três assistam ao filme. “Nem pensar”, diz Tito, dirigindo e projetando o corpo para frente para tentar se localizar. “Olha bem o cartaz. Só estreia daqui a seis meses”, completa o rapaz. Zeca, no banco de trás, cruza os braços e faz um muxoxo. “E quem é esse cara, aliás?”, pergunta Tito, olhando com despeito para a foto de George Lazenby estampada no cartaz.

Com um enorme e desajeitado mapa, os três conseguem, perto do meio-dia, enfim chegar ao seu destino: uma hospedaria um tanto quanto deteriorada na Rua do Cabeça, no centro da cidade. Tito e Zeca se acomodam em um quarto microscópico com um beliche torto, enquanto Mariana fica no cômodo ao lado, igualmente apertado.

Os três saem da hospedaria a pé e ganham a cidade, mais uma vez observando a vibração das ruas da metrópole. Entretanto, este novo olhar mais lento e cuidadoso revela uma faceta que Tito, Zeca e Mariana não tinham captado anteriormente: uma sutil atmosfera de gravidade e temor vista nos rostos das pessoas, nas pichações nos muros, nos jornais com seções inteiras em branco, nos militares postados nas ruas. Zeca ensaia fazer uma careta ao passar por um dos soldados, mas é rapidamente advertido por Tito que não o faça.

A atmosfera pesada, entretanto, é dissipada quando o trio chega à loja Duas Américas, na Rua Chile. O grande centro de compras da elite soteropolitana inebria especialmente Tito e Zeca, desacostumados com toda aquela opulência: madames suarentas circulam com paetês absolutamente incompatíveis com o clima da cidade, homens de meia idade com paletós alinhadíssimos escolhem joias para as suas esposas, crianças engomadas admiram os brinquedos reluzentes nas prateleiras e um séquito de funcionários paparica cada um dos clientes em maior ou menor grau, de acordo com as vestimentas de cada um. Nada ali, entretanto, chama mais a atenção dos dois irmãos do que a pièce de résistance da loja: a escada rolante posicionada bem no centro do átrio do edifício como um símbolo de modernidade e poder. Uma placa indica que aquela é a única escada rolante em toda Salvador. Tito, fascinado, sobe e desce as escadas diversas vezes, mas Zeca não: o menino olha para a máquina com certa cautela, como se olharia para um animal desconhecido (e de vários metros de altura, e com engrenagens barulhentas).

Enquanto Mariana vai até a ala das noivas para tomar as medidas do seu vestido, os irmãos exploram os inúmeros andares da loja, que se dividem em todos os tipos de seções — desde vestuário, casa, perfumes, brinquedos e acessórios, nos andares mais altos, até itens de jardinagem, construção, artesanato e outros trabalhos manuais nos subsolos. A parte favorita dos irmãos, entretanto, é a dos eletrônicos, na qual uma enorme parede é totalmente ocupada pela a última geração dos televisores Telefunken dispostos do chão ao teto, todos ligados e sintonizados nos canais de TV que informam incessantemente sobre a missão da Apollo 11, programada para chegar à lua no dia seguinte. Mesmo sem um tostão para comprar qualquer coisa, o frenesi consumista arrebata os irmãos de tal forma que eles até se esquecem da antipatia para com os estadunidenses. Depois de horas, os dois lembram da tarefa para a qual estão ali e se dirigem à seção de jardinagem para solicitar a caixa das Terríveis Cuiabanas. O atendente, solícito porém impessoal, afirma que as formigas estão em falta, mas um novo carregamento deverá chegar no dia seguinte. “Dia seguinte? Amanhã é domingo”, exclama Tito. O atendente, com um leve ar de superioridade, responde: “Nós nunca paramos por aqui, senhor”.

Ainda esperando Mariana finalizar suas medidas, Tito e Zeca vão ao andar dos livros. Enquanto o irmão mais novo mergulha nas obras infanto-juvenis, o mais velho dirige-se à seção de política e procura qualquer coisa que faça referência a Marx, Gramsci, comunismo ou todas aquelas teorias citadas por Mariana que, para ele, são completamente alienígenas. Por conta da censura instaurada, a busca de Tito é quase totalmente infrutífera, mas ele consegue encontrar um título auspicioso escondido muito profundamente em uma das prateleiras: um exemplar do ABC do Comunismo, de Bukharin e Preobrazhensky. Tito vai para um local mais isolado da seção e, atento às suas redondezas, começa a folhear o livro para absorver o máximo de informações possível e impressionar Mariana. Algum tempo depois, Zeca, segurando uns dez livros pesados que amou e quer levar para casa, encontra o irmão e se impressiona ao ver o ABC do Comunismo: “Uau!”, diz ele enquanto despeja os seus próprios livros no chão e chama atenção de todas as pessoas no andar. “Papai ia amar isso!”. Tito tenta disfarçar e esconder o livro que segurava, mas é tarde: um homem começa a andar em sua direção. Tito engole em seco. O homem se apresenta como Ivan (Fabrício Boliveira) e pede para conversar com os dois irmãos; Tito, tenso, diz que está com pressa e eles precisam ir. Ivan coloca a mão gentilmente no ombro de Tito e garante que nada de ruim acontecerá. Tito para e olha para o homem — por algum motivo, ele acredita nas palavras reconfortantes e no olhar amigável de Ivan.

Tito, Zeca e Ivan estão agora sentados no café da Duas Américas. Ivan fala baixo, quase sussurrando, e atento aos seus arredores. Ele revela que faz parte de um grupo de guerrilheiros que estão organizando uma operação armada contra o regime militar, e que para isso, são necessários recursos. Antes que Tito possa dizer que não tem dinheiro algum, Ivan vai direto ao ponto: “nós estamos planejando um roubo. Para fortalecer nossa ofensiva. Ajudar na compra de arsenal e proteção”. Zeca, que escuta tudo atentamente, pergunta onde. “Aqui”, diz Ivan. “Na Duas Américas. Amanhã”. Tito, dizendo que já ouviu demais e não quer se comprometer, faz menção de se levantar, mas Ivan continua — ele explica que viu o ABC do Comunismo nas mãos de Tito com Zeca ao seu lado e percebeu que aquela era uma oportunidade única. Zeca pergunta o porquê, e Ivan explica, olhando para o garoto: “porque nós precisamos de você”. Os olhos de Zeca brilham.

Tito, ato contínuo, se levanta, pega Zeca pelo braço e sai andando. Ivan sai atrás dos irmãos, tentando convencê-los de que o plano tem segurança totalmente garantida e, caso bem executado, não há de expor ninguém. Tito ignora e finge não ouvir os pedidos de Zeca, que quer participar da aventura. Descendo as escadarias para sair da loja, os dois irmãos se deparam com Mariana, que já terminou suas medidas. Ela estranha a situação e pergunta o que está acontecendo; Ivan se adianta e explica tudo. “Contem comigo”, diz ela, séria, antes mesmo que Ivan possa terminar de falar. Os três — Ivan, Tito e Zeca — olham para ela, espantados.

Ivan leva o trio até os fundos de um bar nas proximidades da Rua Chile, onde seu grupo de colegas (umas dez pessoas) lhe espera. Mariana e Zeca seguem o rapaz com animação, enquanto Tito mantém a expressão preocupada. Ivan explica, então, o plano: os guerrilheiros invadirão o cofre da Duas Américas, que fica localizado no andar dos eletrônicos, no dia seguinte — um domingo, dia em que a segurança da loja fica reduzida. A operação deve ser realizada enquanto a loja está aberta e cheia, pois fica fácil se movimentar sem chamar tanta atenção; os guerrilheiros obtiveram com seus contatos o segredo do cofre, mas precisam desviar a atenção dos seguranças enquanto o roubo estiver sendo realizado. É aí que entra Zeca: o garoto será responsável por criar a “cena” que distrairá os seguranças e o público durante a operação — o tipo de coisa que levantaria suspeitas se feito por um adulto, mas nem tanto por uma criança. Zeca sacode a cabeça com animação. Ivan se volta para Tito: “sabemos da sua preocupação, mas nada de mau pode acontecer com vocês. Se as coisas degringolarem, ninguém saberá que vocês estão conosco. Vocês só precisam ir embora”. Tito pensa e olha para Zeca e Mariana, os dois olhando de volta com expectativa. Ele se lembra dos jornais em branco, das pichações nas ruas, no clima de tensão generalizado. Ele pensa em seu pai, o velho comunista. Enfim, Tito volta-se para Ivan: “como eu posso ajudar?”. Todos na mesa sorriem e comemoram.

Ao som de “Fio da Navalha”, acompanhamos uma montagem na qual o grupo ajusta os pormenores do plano. A música se sobrepõe aos diálogos, de forma que não conseguimos ouvir o que está sendo discutido.

Em um corte rápido, já é noite: Zeca dorme sonoramente na parte de cima do beliche da hospedaria, enquanto Tito e Mariana se espremem na cama de solteiro do quarto ao lado. Tito parece preocupado e pergunta se deveria expor o irmão a tal risco; Mariana lembra das palavras de Ivan, de que não há riscos para os dois irmãos. Tito percebe que ela não está se incluindo na frase e pondera que, se algo der errado, Mariana — enquanto filha de dois notórios guerrilheiros — pode sofrer violências inimagináveis. Ela diz que não se importa: é mais importante ajudar a causa do que se manter longe dos perigos. Os dois se abraçam, e Tito continua olhando para o teto. A imagem se desloca lentamente para enquadrar a janela aberta com a lua iluminando o mar.

Domingo, 20 de julho de 1969

Sem cortes, o dia amanhece, a lua sai de cena e dá lugar a um sol intenso que banha a orla da cidade. A imagem viaja lentamente para fora da janela, pelas ruas do centro de Salvador, para baixo da falésia que divide a Cidade Alta da Cidade Baixa e chega ao mar, onde Zeca se esbalda numa maré tranquila e Tito e Mariana, mais ao fundo, estão abraçados observando o garoto e pensando em mil outras coisas. “Ele está certo, sabe”, diz Tito, olhando para o irmão. “Você poderia vir morar conosco”. Mariana dá uma risada triste e balança a cabeça negativamente, lembrando que não, não pode — a começar pelo fato de que seu avô sabe onde eles moram. Tito fica pensativo e dá outra sugestão: “nós podemos fugir. Deixar Zeca em casa e fugir”. Depois de alguns longos momentos, Mariana retribui com outra pergunta: “você quer mesmo deixá-lo?”. Tito não responde, e Mariana lembra da família do rapaz, de Raia Miúda e do Coronel Juvêncio. “Todos temos nossas devoções”, conclui ela, sem parecer lamentar muito sua escolha.

A tarde avança e estamos novamente dentro da Duas Américas, ainda mais cheia do que no dia anterior, seguindo um plano-sequência que acompanha cada um dos integrantes do roubo assumindo suas posições: os guerrilheiros se espalham pela seção de eletrônicos, no último andar, onde está o cofre. Zeca, com seu Concorde em miniatura em mãos, se dirige até a área dos brinquedos, no mezanino, com Tito e Mariana — o casal pega a escada rolante, enquanto o garoto, ainda receoso daquele monstro dentado, sobe pelas luxuosas escadarias fixas da loja. Zeca se concentra no suntuoso relógio que orna o átrio do edifício: os ponteiros vão se aproximando das 17h, e ele se prepara para o show. Tito olha de longe para o irmão, tenso. Vemos que ele segura nas mãos uma caixa — a caixa das Terríveis Cuiabanas, as famigeradas formigas de Martinho.

O relógio dá a batida da hora e Zeca arma um verdadeiro escarcéu na seção de brinquedos: fingindo que está fazendo uma brincadeira particularmente tresloucada de aviãozinho com seu Concorde, o menino pula de móvel em móvel, derrubando produtos, gritando loucamente como se fosse um comandante em contato com a torre de comando, chocando o avião contra pilares da loja e imitando sons de explosões… Tito e Mariana olham boquiabertos para o espetáculo enquanto todos os olhares curiosos da loja se voltam para o garoto. Entretanto, o principal objetivo de Zeca (atrair os seguranças) não ocorre, e depois de alguns minutos de pandemônio, as pessoas começam a se dispersar — mais que isso, todo o público da loja começa a se deslocar para outro lugar: justamente a seção de eletrônicos. Enquanto Zeca olha com estranheza a movimentação, Mariana diz que vai checar o que está acontecendo.

Subindo até a ala dos eletrônicos, a expressão dela logo é tomada pelo pânico. Uma multidão se concentra em frente à parede de televisores, todas sintonizadas no evento do século: em alguns minutos, a Apollo 11 enfim pousará na lua. Mariana escaneia o ambiente com os olhos e encontra Ivan, com um ar profundamente tenso, na multidão. Sussurrando, ela pede que ele aborte a missão, mas ele olha para ela com um ar derrotado: “tarde demais. Eles já entraram”. Mariana olha para Ivan, sem reação, até que seus olhos se acendem: “plano B. Segure eles lá dentro”, sussurra ela, já de saída.

Mariana desce de volta até a ala dos brinquedos, agora quase vazia, e pega Tito e Zeca pelo braço. “Vocês sabem o que fazer”, diz ela, e os três tomam caminhos separados na loja: Zeca corre até a seção dos discos de vinil e se põe a procurar um LP específico. Tito, por sua vez, dispara até a ala de vestes masculinas. Mariana, por fim, desce até a seção das noivas: “vim retirar uma encomenda” exclama ela, resfolegante, para a única atendente ainda por lá.

Voltamos à seção dos eletrônicos, onde centenas de pessoas acompanham, de olhos vidrados, os preparativos finais da aterrissagem da Apollo 11 na lua. Vemos, na outra extremidade do andar, apenas duas mãozinhas de criança se aproximando do sistema de som mais potente em exibição na loja, colocando um vinil no prato e girando o botão de volume até a extremidade máxima. 

De repente, todo o andar é tomado pelas notas iniciais da Marcha Nupcial de Mendelssohn. A multidão que olhava para os televisores olha para trás e presencia uma cena inacreditável: em uma extremidade do salão, Mariana sobe as escadas vestida de terno, gravata borboleta e cartola. Da outra, Tito sobe as escadas do lado oposto, usando o vestido de noiva de Mariana — todo remendado para se ajustar ao seu corpo, naturalmente. Ao centro, Zeca, com uma longa túnica branca, coloca a caixa das Terríveis Cuiabanas no chão e sobe no artefato, como um púlpito improvisado. 

Tito e Mariana se reúnem em frente ao mini-padre, que profere a plenos pulmões uma oração completamente inventada e sem sentido. Tudo é tão surreal que as pessoas se esquecem das TVs ali atrás, que agora exibem os momentos decisivos do pouso da Apollo 11. Tito e Mariana, de mãos dadas, proferem os votos de matrimônio ditados por Zeca. Eles percebem que não têm alianças para trocar. Zeca enfia a mão nas vestes, tira de lá o seu Concorde de brinquedo e arranca as duas rodas que servem como trem de pouso da miniatura. “Talvez sirva”, diz o menino, entregando as pecinhas para o casal, que troca suas “alianças” com largos sorrisos. Zeca brada que os noivos podem se beijar, e os lábios dos dois se encostam no exato momento em que, lá atrás, as TVs exibem a Apollo 11 enfim tocando o solo lunar e a Marcha Nupcial chega ao seu fim. A multidão segue assistindo à cena, sem reação, e em meio ao silêncio absoluto, duas ou três pessoas aplaudem, com um olhar estupefato, o beijo dos noivos.

Zeca, então, olha para o lado oposto do salão e vê os guerrilheiros saindo pé ante pé com alguns sacos de dinheiro. Silêncio. Tensão. Em câmera lenta, vemos o garoto desviar o olhar e perceber alguns seguranças notarem o roubo. Ouvimos o início de “Telstar”, do The Tornados, enquanto algumas coisas acontecem ao mesmo tempo: Zeca desce do seu “púlpito”, agarra a caixa das Terríveis Cuiabanas e a lança em direção à multidão enquanto grita “CORRE!”. O impacto faz a caixa se abrir e as formigas, enormes e vorazes, começam a subir nas pessoas, causando o mais absoluto caos no salão; enquanto isso, Tito, Zeca, Mariana e os guerrilheiros correm em disparada para escapar, com os seguranças tropeçando no caos de pessoas e formigas para seguir em seus percalços. O que se segue é uma perseguição delirante, porém heróica, pelos múltiplos andares da loja: Tito e Mariana correm de mãos dadas, como num cortejo de saída de um casamento, enquanto Zeca usa seu tamanho reduzido para confundir os seguranças e passar por espaços impossíveis para os adultos, e os guerrilheiros, incluindo Ivan, se espalham por diferentes passagens, escadas e corredores para despistar seus perseguidores. Toda a cena é uma grande comédia física coreografada, algo inspirada pelos filmes de Jacques Tati.

Todos os fugitivos vão se dirigindo ao grande portal de saída da loja, mas Zeca para repentinamente: à sua frente, a temida escada rolante se interpõe como o obstáculo final para a escapada. Os degraus dentados parecem mais assustadores que nunca e, por um segundo, Zeca paralisa de novo. O garoto, ainda vestido de padre, olha para trás e vê os seguranças correndo em sua direção. Olha para a frente de novo e vê, no andar de baixo, Tito e Mariana implorando para que ele desça. Zeca esfrega os olhos para ver se está enxergando certo: no meio do casal, Cassius, a onça, olha fixamente para o garoto. Libertado do seu transe, Zeca pega o seu Concorde e o olha rapidamente uma última vez. Ele arremessa o brinquedo contra os seguranças, espatifando-o e atrasando seus perseguidores no processo, e ao mesmo tempo se joga no corrimão da escada rolante, escorregando até o andar de baixo.

Finalmente juntos, Tito, Zeca e Mariana disparam loja afora e continuam correndo pelas ruas de Salvador enquanto a música se encerra. Em um dado momento, o trio consegue ter uma última visão dos guerrilheiros: Ivan vira-se para trás e ergue o punho direito como uma saudação para os jovens, sumindo em seguida nas tortuosas vielas do centro da cidade. Resfolegantes, os três param ao perceber que não estão mais sendo seguidos e notam que as ruas da cidade estão completamente vazias. Tito, ainda vestido de noiva, pergunta o que está acontecendo, e Zeca lembra do pequeno detalhe de que o pouso na lua está acontecendo naquele exato momento. “Ah é”, responde Tito, ainda tentando recuperar o ar. “Desgraça”.

Vemos as pessoas voltarem às ruas da cidade ao cair da noite enquanto ouvimos o som abafado do rádio anunciando que o pouso na lua foi um sucesso e Neil Armstrong deverá fazer sua primeira caminhada lunar em algumas horas. Cortamos, então, para Tito, Zeca e Mariana de volta à velha picape tomando o caminho da volta. Já vestidos em trajes civis novamente, eles observam Salvador uma última vez com um ar melancólico e pegam a estrada.

Em um dado momento, Zeca comenta como seus pais nunca acreditarão em tudo que eles passaram nos últimos dias. Tito vira-se para o irmão e, lembrando que muito do que eles viveram não poderá de forma alguma ser contado, nota: “isso não é o tipo de coisa que se conta aos seus pais. É o tipo de coisa que se conta aos seus filhos”. Os três ficam, então, absortos em seus próprios pensamentos até que são novamente interrompidos por Zeca: “e as formigas?”. Tito leva uma das mãos à testa.

Corte seco e vemos um plano aberto, fixo, mostra a picape parada na beira da estrada enquanto Zeca segura uma caixa de papelão improvisada e Tito e Mariana tentam capturar as maiores formigas que encontram no mato. Isso leva algum tempo e o céu já está escuro; com a caixa já cheia e os três exaustos, Tito dá os trabalhos como encerrados: “bom, vai ter que servir”.

Os três voltam à estrada. Zeca agora senta-se à direita no banco da picape, enquanto Mariana fica no meio, com a cabeça apoiada no ombro de Tito e um olhar distante. Nenhum dos três fala muito. Em um dado momento, Tito começa a cantar, baixinho e discretamente, “Até Amanhã”, de João Petra de Barros. Mariana sorri e se junta ao samba, assim como Zeca. A gravação original de Noel Rosa vai se sobrepondo à cantoria dos três, que vai ficando cada vez mais animada.

A volta para casa

Ao som de “Até Amanhã”, acompanhamos uma montagem do caminho de volta: eles passam pelo terreno do circo e observam melancolicamente as placas que anunciam ali as futuras instalações de mais um complexo industrial. Se hospedam em Santo Estevão para passar a noite e Zeca dispensa a companhia de Tito para dormir, liberando o irmão para ficar com Mariana. Enfrentam mais muitos quilômetros de estrada, agora com o efeito contrário: as fábricas vão gradualmente rareando e dando lugar aos longos pastos e plantações, e a rodovia asfaltada dá lugar às estradas de terra. Os três começam a se sentir em casa mas, ao mesmo tempo, têm uma certa estranheza no olhar, como se estivessem voltando a um tempo há muito perdido — ainda que apenas uma semana tenha se passado.

A música se encerra e os três enfim chegam à fazenda de Raia Miúda, que recebe Mariana de braços abertos. Ele pergunta do vestido de casamento, e ela aponta para uma caixa na caçamba da picape: “talvez eu tenha que fazer alguns ajustes, só”, diz ela, olhando de soslaio para Tito. O ex-cangaceiro agradece imensamente aos dois irmãos pelo favor, e Zeca, que já não tem mais medo do velho, pergunta qual foi o “presentinho” dado por Raia Miúda a Martinho. “Vocês não sabem?”, pergunta Raia Miúda, surpreso. “Fui eu que apresentei a mãe de vocês a ele! Uma jovem muito formosa, aquela D. Isabel… cantava que era uma beleza…”, continua ele, enquanto os irmãos olham surpresos. Mariana nota, então, que Tito e Zeca sequer existiriam se não fosse por seu avô e pensa alto: “curioso… curioso”.

Chega o momento das despedidas. Zeca abraça Mariana forte, e ela o faz prometer que ele continuará sendo um aluno aplicado quando as aulas voltarem; ele sacode a cabeça positivamente e pede que ela vá visitá-lo. Ela dá um sorriso e diz que o fará assim que possível, só não sabe quando será esse possível. Mariana, então, vira-se para Tito. Raia Miúda está próximo, então a despedida não pode ser muito efusiva. Os dois sorriem um para o outro e dão um abraço de gestos impessoais, mas que se demora de uma forma deveras íntima. Enquanto abraça Tito, Mariana deixa escapar uma lágrima que seca rapidamente. “Devoções”, ela sussurra para o rapaz, que sussurra de volta depois de alguns instantes: “encontre seus pais”. Devagar, ela balança a cabeça positivamente. Os dois, enfim, se separam, mas continuam se olhando enquanto os dois irmãos sobem novamente na picape. Raia Miúda, acenando, diz que chamará toda a família para o casamento. Tito sorri sem graça e diz que fará de tudo para participar. Mariana, segurando o choro, acena enquanto a picape se afasta até virar um pequeno pontinho nos horizontes montanhosos. Focamos longamente no rosto dela, com uma profusão de emoções se revezando.

Voltamos para Tito e Zeca na picape, em um plano fixo que foca nos dois irmãos frontalmente. Nenhum dos dois dá uma palavra e Tito, embora arrasado, tenta não demonstrar seus sentimentos. Zeca puxa sua mochila e tira lá de dentro um radinho de pilha reluzente. Tito pergunta de onde saiu aquilo e o garoto, na maior naturalidade, responde que pegou da Duas Américas durante a confusão. “Você queria um novo, não queria?”, pergunta Zeca enquanto desdobra a antena e tenta sintonizar o aparelho em alguma estação disponível.

Ele finalmente chega a uma e ouvimos o início de “Early Morning Rain”, na versão de Peter, Paul & Mary. O plano frontal segue fixo enquanto a música invade o interior da cabine; Tito parece profundamente tocado e não consegue mais segurar suas emoções: o rosto impassível dá lugar aos olhos marejados, às lágrimas e, enfim, ao choro sentido e silencioso. Zeca, olhando de canto de olho, fica imóvel, desconcertado com a cena. “Você tá entendendo a letra?”, pergunta o garoto, olhando fixamente para a frente. “Nem um pouco”, responde Tito, soluçando discretamente.

O restante da música é ouvido enquanto vemos a picape cruzar os quilômetros finais da jornada dos irmãos. No fim da tarde, os dois chegam, enfim, em casa, e Yuri vem latindo alegremente para recebê-los. Martinho, D. Isabel, Teresa e Joãozinho vêm logo atrás, e um festival de abraços e beijos se segue. Zeca diz à mãe que acha que cresceu alguns centímetros durante à viagem. Ela sorri e diz que sim — provavelmente sim. Tito entrega a caixa de formigas ao pai, tentando disfarçar a cara de riso. 

Todos eles se dirigem, então, à plantação de laranjeiras no quintal para ver as Terríveis Cuiabanas (ou, mais precisamente, seja lá o que os irmãos tenham coletado) em ação. Animado, Martinho abre a caixa e liberta os insetos; imediatamente, todas as formigas batem em retirada para o mato e somem para nunca mais serem vistas. Por alguns segundos, o silêncio anticlimático parece anteceder das duas uma: ou uma explosão de raiva ou um lamento desesperado de Martinho. Em vez disso, entretanto, o patriarca somente suspira com um leve sorriso: “bom, eu nem estava mais tão concentrado nas laranjeiras, mesmo! Esperem até ver meu novo projeto”, diz, virando-se para Tito e Zeca. Os dois irmãos se entreolham.

A família se reúne para jantar, e Tito e Zeca contam — com uma boa dose de filtragem — os acontecimentos da viagem: as conversas com Raia Miúda, o pessoal do circo, o banho de mar em Salvador, os encantamentos da Duas Américas… ao citar o nome da loja, D. Isabel interrompe os irmãos: “inclusive, vocês viram o que aconteceu por lá?”. Os irmãos engolem em seco, e Martinho continua: “parece que uma gangue roubou a loja bem no dia em que vocês estavam por lá. E um dos líderes era um cara vestido de noiva! Saiu até no jornal, deixa eu pegar”, diz o pai, enquanto os irmãos parecem se afundar em suas cadeiras. Martinho volta com o jornal: o exemplar está totalmente tomado de notícias sobre o pouso na lua, de forma que o assalto na Duas Américas ocupa nada mais que uma notinha de rodapé sem quaisquer informações que possam identificá-los. Tito e Zeca respiram aliviados.

Os dias passam e os dois irmãos, embora felizes por estarem de volta, começam a exibir um sutil olhar de desencanto em suas expressões. Refletindo a cena inicial do filme, os dois deitam-se na terra batida sob o sol forte, com o novo radinho reluzente tocando as últimas do rock inglês, agora em hi-fi. Tito e Zeca discutem o que os incomoda: é como se os dois tivessem passado por mudanças profundas enquanto tudo e todos ali à volta permanecem exatamente iguais — Martinho continua com seus experimentos científicos, D. Isabel continua cantando para si mesma enquanto faz suas tarefas domésticas, Teresa continua afundada nos livros e Joãozinho continua sendo uma criança adorável.

“Bom… foi só uma semana longe”, pondera Tito, olhando para o sol e protegendo os olhos com a mão direita. Logo em seguida, o rádio interrompe a programação musical para informar que os astronautas da Apollo 11 pousaram com segurança na Terra, e a NASA já anunciou que a próxima missão lunar deverá acontecer nos próximos meses. Os dois irmãos olham para o céu em silêncio, as expressões irritadas. “Ianques filhos da puta”, dispara Zeca.

A imagem começa a se afastar dos dois irmãos lentamente, subindo em direção às nuvens e deixando a dupla cada vez menor no chão de terra e na paisagem de Jequié.

Quando a câmera começa a subir, ouvimos os acordes iniciais do Club Remix de “Astronauta de Mármore” (a partir dos 1:02), do Nenhum de Nós, e os créditos surgem na tela enquanto a imagem continua se afastando.


Bônus: Clique aqui para ler a cena final alternativa, cortada nas exibições-teste.


Narrativa resumida

Jequié, agreste da Bahia, 16 de julho de 1969. No dia em que a Apollo 11 parte em direção aos céus, dois irmãos — Tito (Pedro Fasanaro), de 19 anos, e Zeca (Jerônimo Dias), de 11 — recebem uma missão do pai, Martinho (João Miguel): partir até Salvador e buscar uma caixa de formigas na loja Duas Américas, a primeira e maior loja de departamentos da cidade, para um dos seus mirabolantes experimentos de agricultura. 

Os dois irmãos, que nunca saíram da cidade e passam seus dias olhando para o céu ouvindo no rádio os últimos lançamentos do rock inglês, ficam animados com a perspectiva de explorar outros horizontes pela primeira vez. No caminho, Tito e Zeca precisam fazer um desvio para devolver um favor há muito devido pelo pai a Raia Miúda (Othon Bastos), outrora um dos cangaceiros mais perigosos da região e agora um velho alquebrado. Tonico pede que a dupla leve Mariana (Luísa Arraes), sua neta, a Salvador para que ela tire as medidas do seu vestido de noiva, também na loja Duas Américas.

Durante a viagem, prevista para durar uma semana, o trio explora seus medos e limitações, seus interesses e virtudes — e, mais que isso, encontram um mundo em transformação plena, implacável. Enquanto cruzam o interior, os três acompanham as notícias da NASA com uma particularidade: Tito e Zeca, influenciados pela criação esquerdista do pai e fãs da União Soviética, torcem contra o sucesso dos americanos na corrida espacial. 

As relações também vão se desenvolvendo: Tito e Mariana descobrem uma paixão juvenil fadada ao fracasso, uma vez que ela está prometida em casamento para um jovem coronel da região. Já a fraternidade entre Tito e Zeca é estremecida: o mais velho começa a enxergar o irmão como um empecilho para seu namorico com Mariana, enquanto o mais novo se sente um tanto quanto desamparado — e medroso em relação ao mundo gigante que se descortina à sua frente.

Na segunda e terceira noites da viagem, os três buscam pouso com uma trupe de circo mambembe, liderada pelo mágico John Wayne Capitolino de la Mancha (Tom Zé) e composta apenas de idosos — claramente, uma sombra do que já foi. Zeca descobre um fascínio pelo universo circense e ajuda a revigorar os ânimos da trupe; em contrapartida, os artistas do circo ajudam o garoto a superar seu medo de Cassius, a onça da trupe que faz parte das apresentações. 

As relações dos irmãos vão se desenvolvendo e Tito aprende lições importantes sobre responsabilidade e carinho com o irmão mais novo. Tito e Mariana, por sua vez, consumam sua paixão em uma cena lírica, simbólica, sob as estrelas do agreste baiano. Mariana revela que seus pais são notórios integrantes do Partido Comunista que desapareceram alguns meses antes; o casamento com o coronel faz parte de um plano dela para se aproximar dos militares e obter informações sobre os seus pais. 

No dia seguinte, o coletivo circense informa ao trio que aquela será a última noite de apresentações, uma vez que o terreno do circo foi vendido para um grande grupo industrial e o grupo está velho e cansado demais para voltar a ser itinerante. Em vez de uma última noite melancólica, Tito, Zeca e Mariana ajudam a trupe a montar uma apresentação gloriosa sobre o pouso do homem na lua, com direito a um número musical deveras surrealista e um número especial de Zeca com Cassius.

Após cruzar paisagens intermináveis de parques industriais em construção, Tito, Zeca e Mariana enfim chegam a Salvador um dia antes da chegada do homem à Lua.  O que eles encontram, entretanto, é um cenário muito diferente do que esperavam: em vez do império do avanço e da modernidade, deparam-se com um cenário cinzento, no ápice da luta armada contra a Ditadura Militar. 

A loja Duas Américas, ponto de encontro da elite soteropolitana, parece um universo particular com suas vitrines reluzentes e suas pomposas escadas rolantes, as únicas de todo o estado — e que causam em Zeca um misto de fascínio e horror. 

Como o vestido de Mariana ficará pronto apenas no dia seguinte, o trio hospeda-se em uma pensão nas proximidades e acaba conhecendo um grupo de guerrilheiros liderado por Ivan (Fabrício Boliveira). Após uma noite de bebedeira, os revolucionários revelam seu plano de, no dia seguinte, roubar a seção de eletrônicos da Duas Américas para financiar a luta armada. Mais que isso: ao notar a disposição de Zeca em ajudar, eles veem no menino a peça-chave para distrair os seguranças, os lojistas e o público durante a operação.

No dia do assalto (e também da chegada do homem à lua), os irmãos pegam a caixa das formigas solicitadas por Martinho. Zeca arma um enorme escarcéu na seção de brinquedos para chamar atenção das pessoas, sem sucesso: acontece que, naquele exato momento, a seção de eletrônicos está exibindo ao vivo, em dezenas de TVs, o pouso da Apollo 11, e toda a multidão da loja vai assistir ao evento. Tito, Zeca e Mariana resolvem apelar para um plano B: o rapaz veste o vestido de noiva da amada, enquanto Mariana surge de terno e gravata borboleta na seção de eletrônicos; Zeca, vestido de padre, oficia um casamento encenado na frente de uma multidão estupefata, que chega a se esquecer do pouso na lua para observar aquele momento delirante. 

Eventualmente, os revolucionários são vistos saindo do cofre com os sacos de dinheiro; Zeca joga a caixa de formigas na multidão, causando o absoluto caos, e uma perseguição alucinante ocorre pelos múltiplos andares da loja entre os três protagonistas, os guerrilheiros e os seguranças. Zeca supera finalmente seu medo da escada rolante, e todos conseguem escapar.

No fim das contas, os guerrilheiros conseguem escapar com o dinheiro roubado, enquanto Tito, Zeca e Mariana partem de volta para casa. Sem as formigas pedidas por Martinho, os três param na beira da estrada e apanham as maiores e mais vorazes formigas que encontram. 

Depois, o casal apaixonado tem uma despedida triste, porém contida, na propriedade de Raia Miúda. No caminho de volta para Jequié, Zeca usa sua mais nova “aquisição” — um radinho de pilha surrupiado durante o caos na Duas Américas — para mostrar uma música nova ao irmão e acalentar o seu coração partido enquanto Tito chora, arrasado, pela perda de Mariana. 

Em casa, os dois são recebidos com festa pela família, mas o experimento de Martinho é um desastre e as formigas acabam matando todo o jardim. Martinho, feliz de ter os filhos de volta, não se importa. Tito e Zeca, profundamente mudados pela viagem e frustrados pelo fato de que tudo à volta deles permanece absolutamente igual, voltam a passar os dias olhando para o céu. No rádio, eles ouvem que a NASA já está planejando a próxima viagem à lua. A última frase é de Zeca: “ianques filhos da puta”. A imagem vai subindo aos poucos e os dois irmãos vão se tornando pontinhos no chão.


Trilha Sonora

Disponível em listas no YouTube e no Spotify.


Notícias e Imagens


Prêmios

Total de 6 prêmios e 22 indicações. Clique aqui para ver todos os prêmios da 5ª temporada.

Festival de Veneza
  • Seleção Oficial – Mostra Orizzonti
Festival de Tribeca
  • Melhor Filme (International Narrative Competition)
1º Festival do Rio
  • Prêmio Especial do Júri (venceu)
  • Troféu Redentor de Ator Coadjuvante, Othon Bastos (venceu)
1º Prêmio Guarani
  • Ator Coadjuvante, Othon Bastos (venceu)
  • Filme (indicado)
  • Direção, Cao Hamburger (indicado)
  • Roteiro, Bruno de Souza (indicado)
  • Direção de Arte, Vera Hamburger (indicada)
  • Figurino, Marília Carneiro (indicada)
  • Trilha Sonora, Lô Borges (indicado)
  • Revelação do Ano, Jerônimo Dias (indicado)
1º Grande Prêmio do Cinema Brasileiro
  • Trilha Sonora, Lô Borges (venceu, empate com Um Filme de Assalto)
  • Fotografia, Affonso Beato (venceu, empate com Sacrilégio)
  • Filme (indicado)
  • Direção, Cao Hamburger (indicado)
  • Atriz, Luísa Arraes (indicada)
  • Ator, Pedro Fasanaro (indicado)
  • Ator Coadjuvante, Othon Bastos (indicado)
  • Roteiro, Bruno de Souza (indicado)
  • Direção de Arte, Vera Hamburger (indicada)
  • Figurino, Marília Carneiro (indicada)

Críticas do Júri

100

Associação Independente de Críticos do Sertão
Atônito. Receoso pela duração, me maravilhei durante cada segundo dessa preciosidade. Me apeguei aos três (Tito, Mariana e Zeca) como não imaginava que iria, acompanhar o relacionamento dos dois primeiros foi com toda certeza um deleite e vibrei com a cena da dança ao som de Beatles. Pura arte. A apresentação no circo me mostrou como o cinema pode ser poderoso.

100

Critiques de Cinéma de la Côte d’Azur
É engraçado como algumas coisas se equiparam em grandeza ainda que sejam anatomicamente diferentes. A busca de Zeca e Tito pelas Terríveis Cuiabanas, ainda que numa escala estritamente pessoal e minúscula diante do passo do homem em direção à lua, torna-se formidável e indispensável para entendermos um dos aspectos mais importantes da experiência humana, que é o crescimento.
Ambientado num Brasil aberto para o mundo e que faz trocas constantes com referências externas, Formigas nos presenteia com uma pintura de um tempo e espaço que solidificou tudo que há de mais efervescente e comovente na história deste país. O filme tem uma abordagem que nunca se deixar levar por uma estética exageradamente pitoresca, mas sim suave e natural, que se adapta perfeitamente às nuances da história.
A trilha sonora magnífica é uma ferramenta muito bem utilizada para que o espectador sinta com propriedade toda a gama de emoções que emana da obra sem infantilizar a audiência, dando a cada um a autonomia para desenvolver seus próprios sentimentos.

92

Rio Film Critics Circle
O título “Formigas” é uma escolha excelente feita pelo diretor Cao Hamburger. De saída, ele já contempla as duas dimensões da história dos três jovens, Zeca, Tito e Mariana, que irão fazer uma viagem desbravadora de Jequié até Salvador para buscar uma caixa de formigas, e, durante este percurso, se descobrirem enquanto eles mesmos tentam sair de dentro da imaginária caixa em que estão presos: medos, paixões e o poder em se rebelar. Essa camada interessante faz com que a história prenda o telespectador, o olhar do mundo naquele momento, o ano de 1969, e até mesmo a chegada em Salvador com o choque em relação a ditadura militar brasileira, que começava a apertar o cerco contra seus opositores e a iniciar seus anos de maior rigor.

O longa-metragem nacional é um filme inequivocamente plural. É possível rir com ele e também se emocionar, mesmo em seus momentos mais faceiros. A paleta de cores da cinematografia de Affonso Beato tinge o filme com um sentimento de cumplicidade do começo ao fim, como se estivéssemos participando dessa metamorfose, que acontece nos personagens e nos cenários por onde passam. A chegada à cidade grande causa uma aflição, o cenário nos traz uma melancolia e uma certa aflição. Um verdadeiro filme de road trip se faz assim, fluído e não somente colocando percalços desnecessários no caminho dos protagonistas para causar atritos.

A escolha do roteiro de trabalhar com esse período e contrastando a chegada do homem a lua com as vidas dos personagens é muito interessante e pertinente, são duas corridas que tendiam a falhar, uma realmente falha, os irmãos, após o caleidoscópio de emoções. em estado de inércia, e a outra tem sucesso, o homem pisando na lua e tendo sua “vitória” na corrida espacial. São muitas as leituras que se pode ter de todas as situações que englobam o universo de Formigas, mas a principal é que em tempos tão críticos, onde toda a nação está abandonada e separada de sua própria voz, três jovens, criados pela liberdade, conseguem achar a sua voz e entender a importância dela, mesmo que seja por pouco tempo.

75

Associação Cibernética dos Críticos de Kwangya
Dotada de um revigorante senso de aventura, a jornada dos irmãos Zeca e Tito diverte com galeria nostálgica de personagens exóticos e situações inusitadas, mas acaba sufocada no formato escolhido. As seções que compõem a história tem estilos próprios e arcos narrativos autossuficientes, sendo a transição entre elas brusca e, como boa parte do filme, demarcada pela trilha sonora; uma estrutura perfeitamente adequadas aos capítulos de um folhetim. Posta como está, a narrativa funciona, mas segue um ritmo similar ao de minisséries mutiladas à forma de longa-metragem. Se produzido com uma distribuição episódica em mente, Formigas poderis ter se deleitado mais com seu universo, dando tempo para que os cenários ー e os espectadores ー respirassem antes da próxima parada.

68

Syndicat Français de la Critique de Cinéma
Formigas é uma aventura encantadora e cativante. Mas é também um filme que se repete e tem a necessidade de se reafirmar todo o tempo como algo além de uma simples aventura. No texto, as mensagens políticas são esfregadas na nossa cara tantas vezes e de modo tão pouco sutil, que, por alguns instantes, perdemos a conexão com os personagens. Parece que estamos assistindo à uma palestra cujo orador é um pouco pedante e não podemos evitar de revirar os olhos de vez em quando. Essa característica do texto acaba refletindo em seus personagens, como quando Mariana (Luísa Arraes) menciona Marx, Engels e mais-valia à mesa com um ex-cangaceiro e uma criança de 11 anos. Seu discurso (de Mariana, de Martinho e, consequentemente, de Formigas) soa forçado, mal colocado e parece querer nos convencer de algo a qualquer custo. A trilha sonora – que é ótima, não me entendam mal- parece apenas querer usar as letras da músicas para enfatizar o que já é óbvio, como se quisesse guiar os primeiros passos do espectador na reflexão, ou – num autoelogio – destacar a minúcia e o cuidado do próprio trabalho. Os exemplos são muitos: a canção Viajante tocando no exato momento em que os meninos entram no carro e começam sua jornada, a letra que diz “meu irmão, eu sou como você é” numa cena em que os jovens irmãos estão juntos em silêncio, ou quando o mais velho canta – vejam só – Goodnight, dos Beatles, para fazer o mais novo dormir. Isso me fez soltar um risinho irônico quando, numa das cenas finais, o menor pergunta ao outro: Você tá entendendo a letra? O trunfo de Formigas está em seus momentos mais leves e despretensiosos (ou quando melhor esconde suas pretensões). Zeca superando seu medo de onças, o frescor da juventude dos protagonistas em perfeita harmonia com o elenco idoso de um circo decadente, a excitante sequência do roubo dividindo os holofotes com a partida do homem à lua. Quando aqueles jovens se entregam, quase sem questionamentos, às aventuras que o acaso preparou é que Formigas brilha.

40

Gotham City Film Critics Secret Society
Bate bola, jogo rápido. Assim como foi ofertado na plataforma de screener, resolvi optar por assistir a versão resumida de um react no Twitter com 2:20 minutos. “Formigas” peca ao andar literalmente em passos de formiga e no fim, sua trama não faz muito sentido. Uma espécie de Bacurau, mas com insetos e foguetes em vez de ovnis, não atinge o espaço. Seus personagens parecem deslocados de suas reais intenções, chegando ao ponto da Valentina de 7 anos gritar “a surra no embuste de centavos!” e todo mundo aplaudir. Quem sabe no próximo pouso a lua.

40

Jazzacritics Society of Schitts Creek
Dois irmãos, uma missão e muitas aventuras na sessão da tarde. “Formigas”, o último filme visto pela minha pessoa, trata-se de um road trip movie com muita vontade de “ser” algo cujo produtor possui uma filmografia muito 8 ou 80 comigo. Lendo a sinopse e do que se trata, fui de bom grado acompanhar essa narrativa e após a finalização fiquei pensando muito. Ao contrário do que eu esperava ou pelo menos a intenção, não foram pensamentos de reflexão sobre o longa ou os temas e as sensações, etc.. Infelizmente foram pensamentos confusos e intrigantes já que passei a sua duração inteira questionando a realidade do que estava lendo.

“Formigas” é, antes de tudo, uma aventura psicodélica, digamos assim. Uma narrativa de absurdidades como uma das boas comédias de Howard Hawks e este é o problema – o longa parece um filme de Hawks ao invés de um produto nacional. “Formigas” é um filme de escapismo tão grande, que escapa até da época e localidade na qual se passa a história. Assumo eu que, considerando o contexto e algumas abordagens, a família citada seja no mínimo muito bem de vida. Final da década de 60 e numa cidade pequena um tanto afastada da capital próxima ao sertão e a história que se cria nesse meio parece um produto estadunidense sem a menor visão “abrasileirada”.

Existe uma tentativa mínima de contato com a realidade brasileira com grandes nomes da Tropicália, uso de músicas da MPB e a inspiração em filmes famosos da história do país. Entretanto, tudo é voltado para o internacional de alguma forma. Os nomes no circo (Cassius Clay??), o uso dos Beatles e a questão da União Soviética (O que me faz assumir que seja uma família muito bem de vida, como mencionei acima) e o assunto máximo que ronda tudo, a viagem do homem à lua. A viagem entre astronautas e irmãos formam um paralelo curioso, mas muito bobo, pois deixa-se a impressão de que não serve para nada além de um evento marcante concluído por norte-americanos. Os irmãos tiveram uma viagem muito conturbada e trouxeram ótimas experiências, mas nada alterou a vida trivial de ambos. Na minha cabeça, esse paralelo teria sido muito melhor aproveitado caso a família e a situação deles fosse muito diferente e, imagino, não é o caso, ou se a viagem fosse somente um detalhe engraçado no filme, mas também não é o caso.

Existe um elenco muito carismático e boas e fofas intenções, repara-se com alguns momentos muito legais em algumas cenas como a da despedida entre Tito e Mariana, mas o problema com “Formigas” é o de tentar escapar e acabar ignorando muito o essencial.


Comentários do Público

Em breve.

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