de Phoebe Waller-Bridge
produzido por Bruno S.
com Diego Luna e FKA twigs
11 de julho de 2020 (3º Festival de Cannes)
🇺🇸 Estados Unidos
Comédia / Drama / Romance
Sinopse: Ben (Diego Luna), consciente de que é um personagem ficcional dentro de um filme, passa seus dias vagando pelos cenários em busca de uma história para si. Um dia, ele conhece a musicista Tata (FKA twigs) e os dois apaixonam-se perdidamente. Só há um problema: Tata, ao contrário dele, é uma pessoa real — e, portanto, não pode fazer parte da história de Ben. Agora, ele precisa se infiltrar nos mecanismos do seu filme para mudar a própria história.
Vencedor de 16 prêmios, incluindo o Grand Prix em Cannes.
Consenso da Crítica: Com criatividade e elenco carismático, Ben usa a metalinguagem como principal elemento de sua narrativa sem afastar o público emocionalmente das personagens, mérito do roteiro genial de Phoebe Waller-Bridge.
Média da crítica
86

Média do público
8.3
Tomatômetro

100%
Pipocômetro

89%
Navegue pelas seções
Ficha Técnica
Direção: Phoebe Waller-Bridge
Roteiro: Phoebe Waller-Bridge
Produção: Bruno S.
Fotografia: Roger Deakins
Música: FKA twigs
Figurinos: Catherine Martin
Distribuição: Amblin
Plataforma: Catflix
Elenco
Diego Luna como Ben
FKA twigs como Tata
Phoebe Waller-Bridge como ela mesma
Narrativa
- Recomenda-se ouvir as músicas citadas no texto durante a leitura para máxima efetividade.
Silêncio. No escuro, Ben (Diego Luna) ofega como se estivesse respirando pela primeira vez. Ele acende uma vela e anda com dificuldade, saindo do seu apartamento pela janela apertada. Em seguida, desce as escadas de incêndio e caminha pela cidade na calada da noite. Mas não é uma cidade qualquer: é claramente uma cidade cenográfica, falsa. Ben caminha decidido conforme o céu vai clareando e chega numa praia, onde senta-se de frente pro mar. Nesse momento, os primeiros raios de sol surgem no horizonte e aquecem seu rosto. Para a câmera, ele fala: “Oi. Eu sou Ben, e eu não existo”.
Acompanhamos uma montagem que segue o dia de Ben enquanto ele explica sua sina: ele tem consciência que é apenas um personagem dentro de um filme; todos os dias, ao acordar, ele recebe um roteiro para seguir naquele dia. Mas os dias são todos iguais: Ben é dono de um cinema fracassado, que exibe clássicos, e passa seus dias na sala de projeção vendo filmes melhores do que o dele. Então ele volta para casa e dorme, acordando de madrugada para ir à praia — o único momento do seu dia que não está especificado no roteiro.
A montagem começa a repetir os dias, cada vez mais rápido, e Ben diz manter a esperança de que sua história vai começar em algum momento, de alguma forma. Enquanto isso, ele espera.
Em uma das suas fugas noturnas, Ben ouve à distância um som impossivelmente belo. Maravilhado, ele vaga pelas ruas à procura do som, que vai ficando mais alto — é um solo de piano, o primeiro elemento musical ouvido no filme. O solo faz a transição para os acordes iniciais de “Thank You For The Music”.
“Thank You For The Music”, ABBA – O coração e a alma de tudo. É a primeira melodia ouvida no filme — e, a partir dela, tudo muda para sempre. A música começa bem baixinha, distante, e vai ficando mais alta durante os primeiros versos, conforme Ben vai se aproximando do bar onde Tata está cantando. Quando ela canta “I’m so greatful and proud”, ele começa a andar em direção à luz. “All I want is to sing out loud” — ele olha pela janela e seu rosto é tomado pela fascinação no momento em que a música chega no grandioso refrão. A câmera vai se afastando dele e fazendo o travelling pelo recinto; esse movimento de câmera dura todo o refrão e fecha em Tata quando ela canta o último verso (“for giving it to me”). Por quase toda a terceira estrofe (começando em “mother says I was a dancer before I could walk”), a câmera permanece em Tata, cortando para Ben apenas no “…like a melody can”. Então temos a montagem dos dois reencenando os momentos de amor do cinema (na imaginação de Ben), e a música se encerra no segundo refrão.
Ben vê uma luz ao fim da rua escura e se aproxima, cauteloso, enquanto uma voz sublime começa a cantar. Quando a música chega ao seu primeiro refrão, Ben vê. A câmera se afasta devagar do seu rosto fascinado e, sem cortes, viaja pelo recinto (um bar) em direção a uma figura banhada na luz em cima de um palco: Tahliah1 (FKA twigs). A imagem permanece fechada nela por muito tempo, como se o próprio filme — assim como Ben — estivesse perdidamente apaixonado.
Ben entra no bar e, andando lentamente em direção a Tahliah, imagina os dois reencenando momentos de amor icônicos do cinema: Casablanca, The Apartment, Os Guarda-Chuvas do Amor, West Side Story, Luzes da Cidade e vários outros. Ele para à beira do palco, olhando embevecido, sem conseguir articular nada. Um dos espectadores reclama que ele está atrapalhando o show; Ben vira-se e, desajeitado, derruba um copo de cerveja no homem. Recebe, em retorno, um soco.
Ben acorda nos fundos do bar com Tahliah observando-o. Superado o constrangimento inicial, eles descobrem que têm muito em comum: ele fala do seu cinema fracassado, enquanto ela é uma musicista mal-sucedida, ainda tentando encontrar a própria voz. Os dois conversam muito caminhando pelas ruas; claramente os sentimentos de Ben são correspondidos.
Em determinado momento, Tata (o apelido que Ben deu a ela) pergunta há quanto tempo eles se conheceram; Ben diz “cinco minutos” (que é o tempo exato contado na duração do filme). Ela ri e responde: “parece que foi há 50 anos”. Ela arranca um beijo de despedida dele. “Surely” começa a tocar.
“Surely”, Supertramp – É a música que embala o primeiro beijo de Ben e Tata, fugaz como o momento em si. A letra traz um prenúncio do problema central do filme: “Only if I lied could I love you/Nothing of our lives could we share/Only could we try to get by on a sigh/Just because, just this once, I was there.”. Faz uma ponte com a cena final do filme, embalada pela mesma música (mas na sua versão “Reprise”, mais longa).
Ben acorda e corre para ler o roteiro daquele dia, mas frustra-se ao perceber que Tata não aparece em nenhum momento. Enquanto trabalha, entretanto, ele recebe uma ligação: é ela.
Cortamos para os dois já no apartamento dele, na cama. A cena de sexo é delicada, mas curiosa: enquanto Tata é relaxada e natural em seus movimentos, Ben é performático e engessado.
Na manhã seguinte, Ben acorda e vê Tata embaixo da pia, consertando um vazamento. Ele rapidamente arranca ela de lá e explica: num filme, não existem acasos — se alguém está com a cara debaixo de uma pia, é porque algo de ruim vai acontecer. Tata não entende, e Ben começa a perceber a verdade. Ele dirige-se ao roteiro daquele dia, que tem um bilhete rosa-choque preso à capa: “SIGA O ROTEIRO”. Ben descobre que Tata não faz parte do filme — ela é uma pessoa real, que foi parar ali sabe-se lá como. Portanto, ela não faz parte da história dele.
Ben explica tudo para Tata, provando que eles estão num filme: ele mostra os roteiros, os cenários falsos e os figurantes nas ruas, que não respondem porque não têm falas. Ele mostra que eles pulam pelo espaço-tempo sem se mexer ou esperar, por causa dos cortes no filme. Angustiada, ela vai embora. Ben, num arroubo de coragem, sai atrás e rasga o roteiro na frente dela, mostrando que está disposto a abrir mão da própria história para ficar com ela.
Ao som de “Tecnicolor”, uma montagem mostra a nova vida de Ben ao lado de Tata.
“Tecnicolor”, Os Mutantes – Os Mutantes (com uma das suas músicas em inglês) surgem na montagem em que acompanhamos os primeiros dias/semanas de Ben e Tata juntos, tentando superar suas diferenças e amando-se profundamente. A letra da música refere-se exatamente ao momento dos dois (“Oh, what a nice film we would be/If only you could come with me”). Para preservar a veia irônica da música, a montagem contrapõe as cenas de amor dos dois com imagens dos demais cenários do filme (as ruas, o cinema), deteriorando-se porque foram abandonados por Ben.
Todos os dias, ele acorda e vê um novo roteiro em cima da mesa, sempre com um bilhete rosa-choque pedindo que ele volte à própria história; não obstante, ele rasga o roteiro e joga-o no lixo. De resto, o casal passa os dias no apartamento, amando-se e divertindo-se sem preocupações. Enquanto isso, os outros cenários do filme (ruas, cinema) vão se deteriorando, abandonados.
Ben e Tata discutem a natureza daquele amor impossível. Eles sabem que Ben só pode existir naquela curta duração do filme; depois disso, Tata precisará seguir sem ele. Isso os entristece. Ben leva Tata à praia e percebe outra razão para ir até lá todos os dias: a praia é a única locação do filme gravada no mundo real. Para Tata, a praia é uma espécie de ponte entre o mundo real e o do filme — e que talvez Ben possa escapar ali, dando um salto de fé.
Aos poucos, o casal vai caindo na inevitável mesmice. Ben começa a expressar incômodo com o fato de que não há conflito entre eles e, portanto, não há uma história a se contar no filme. Ele também se incomoda com alguns hábitos “pouco cinematográficos” de Tata, como gemer no sexo, sentar-se em posições pouco fotogênicas ou comer de verdade durante uma refeição.
Certo dia, Ben acorda e toma um susto ao ver uma dúzia de pessoas em seu apartamento: a equipe de produção (real) do filme, cada um com seu devido crachá (“Preparador de Elenco”, “Figurinista”, “Designer de Produção”, “Maquiador”, “Continuísta” etc). Eles dizem que foram enviados lá pelo Autor, o diretor/roteirista do filme (que não está presente), para “consertar as coisas”. Ben manda eles embora, mas eles dizem ser impossível. A equipe parece ser invisível para Tata, e Ben não conta a ela que eles estão ali.
Os dias passam a ter uma dinâmica cômica, com a equipe continuamente dando ideias para que Ben leve a história em alguma direção. Ele rejeita todas as sugestões, tomando cuidado para que Tata não o veja se comunicando com pessoas “invisíveis”. Aos poucos, a equipe do filme vai se afeiçoando a Ben e à sua história de amor com Tata.
Tata tenta compor algo enquanto ouve “Full Moon and Empty Arms”; ela diz para Ben que a música não é original, e sim adaptada de um dos concertos de Rachmaninov. Os dois discutem sobre o valor da originalidade e o ato de criar.
“Full Moon and Empty Arms”, Eddie Fisher – É mais uma música a ilustrar o amor de Ben e Tata, além de mostrar os profundos conhecimentos musicais dela: enquanto a música toca, Tata dá uma aula a Ben sobre criatividade e originalidade, comentando que a melodia da música é baseada numa obra de Rachmaninov — já criando a ponte para a cena climática com a Autora. Além de ser a mais bonita, a versão de Eddie Fisher foi escolhida por conta das ligações profundas dele com o cinema: ele foi casado com Debbie Reynolds e Elizabeth Taylor, e era o pai de Carrie Fisher.
No dia seguinte, Ben depara-se com uma caixa rosa-choque em cima da sua mesa; dentro dela, uma reluzente máquina de escrever. Ele fica horrorizado ao perceber que a máquina escreve sozinha — e que o roteiro do filme, incluindo tudo que Ben diz ou faz, aparece no papel conforme vai acontecendo. Ben entra em uma profunda crise, incerto se tem livre-arbítrio sobre suas decisões ou se simplesmente vem sendo controlado pelo Autor desde o início.
O Autor passa a se comunicar com Ben pela máquina, mas Ben diz que não se submeterá a ele daquela forma intimidadora e que só o ouvirá numa conversa cara-a-cara. O Autor diz que é impossível, pois ele já está quebrando regras demais comunicando-se com Ben; um encontro dos dois poderia quebrar de vez a suspensão de descrença do espectador e destruir o filme. Ben tenta destruir a máquina de várias formas, mas ela sempre ressurge. O Autor diz querer somente o melhor para Ben, e sugere que ele está rodeado por mentiras. Logo em seguida, um CD surge embaixo da máquina de escrever; na capa, inscreve-se “Ben’s Theme – Composed by FKA twigs”.
Ben ouve o CD e reconhece a melodia que escutou na noite em que conheceu Tata; ela surge na sala, atônita. O encantamento no rosto de Ben vai derretendo conforme ele percebe a verdade: Tata também é parte da equipe do filme — mais precisamente, ela é FKA twigs, uma musicista de sucesso no mundo real. Tata confirma, puxando de dentro da roupa o crachá de “Compositora” que escondeu desde o início, e revela que se infiltrou no filme contra as ordens do Autor para levar sua música ao grande público por meio do cinema. Ela simplesmente fingiu não ver o restante da equipe em cena.
O casal briga feio. Ben a acusa de ter mentido e usado ele como escada, enquanto Tata despeja a frustração de viver com um personagem ficcional sem qualquer perspectiva de futuro. Ele pergunta se o sentimento dela foi real em algum momento e ela, no calor do momento, responde que nada pode ser real com Ben. Indignado, ele berra várias ofensas pesadas a ela, mas logo se arrepende; diz que a culpa é da máquina e que está sendo controlado por ela. Às lágrimas, ela diz que é uma justificativa muito conveniente e se vira para sair. Ele segura as mãos dela, pedindo que pense bem — se ela for embora, pode não haver volta. Ela diz que já pensou muito bem e arranca as mãos das dele. Ele diz que a ama. Ela simplesmente bate a porta.
Depois de muito tempo, Ben vira-se devagar e vê o porta-retrato do casal pendurado em cima do sofá.
Ao som de “I Get Along Without You Very Well”, uma montagem lenta acompanha Ben e a equipe (coordenados pelo Designer de Produção) rearrumando todo o apartamento.
“I Get Along Without You Very Well (Except Sometimes)”, Chet Baker – Acompanha (e amplifica) o momento mais melancólico da história, quando Tata deixa Ben e ele rearruma o apartamento com a equipe do filme para eliminar qualquer traço da existência dela. Os delicados acordes iniciais são tocados quando Ben, desolado, olha para o porta-retrato dele com Tata. Assim ele fica por boa parte da primeira estrofe, até sentir uma mão no seu ombro — a do Preparador de Elenco. Ele olha para trás e vê a equipe do filme, chorosa, olhando para ele com pena. Com o início da segunda estrofe (“I’ve forgotten you just like I should”), inicia-se a lenta montagem com rearrumação do apartamento, que dura o restante da música. A montagem termina no último verso (“for that would surely break my heart in two”), com Ben sentado no sofá e a câmera afastando-se devagar, revelando o apartamento reorganizado e sem sinal dela.
Juntos, eles eliminam qualquer vestígio de que Tata já esteve ali — principalmente as coisas relacionadas a música. No fim, o apartamento está igual a como era no início: limpo, asséptico — sem ela.
Ben volta à rotina de antes, mas sua expressão não traz mais a esperança de outrora: agora, ele age anestesiado, só esperando o filme acabar. A equipe do filme fica com ele e tenta animá-lo, sem sucesso. A máquina de escrever segue cuspindo o roteiro. Conforme os dias passam, várias oportunidades surgem para que Ben inicie uma nova história: um assalto a banco, um mapa do tesouro, uma aranha radioativa… Desinteressado, ele deixa todas passarem.
Em uma noite chuvosa, Ben encontra o CD de “Ben’s Theme”, que foi jogado debaixo de um móvel durante a briga e esquecido. Todas as memórias de Tata voltam de vez e ele surta, destruindo o apartamento. A máquina de escrever tenta acalmá-lo; ele pega a máquina e a golpeia repetidamente contra a própria cabeça até destruí-la definitivamente.
Ensanguentado, Ben entra num delírio destrutivo ao som de “The Long and Winding Road”: ele vai até a praia e contempla uma miragem onde Tata, em um barquinho no mar, o chama.
“The Long and Winding Road”, The Beatles – Usada aqui de forma irônica, durante o delírio destrutivo de Ben — já que a “estrada longa e sinuosa” que ele vê não é real, e sim um convite à própria morte. A cena é filmada com toda a carga dramática existente no universo: noite chuvosa, trovões e closes abundantes no rosto desesperado/encantado de Ben. Ele começa a nadar no mar aos 2:24. No último verso cantado por Paul (“lead me to your door”), ele estende as mãos para ser puxado por Tata no barquinho, mas percebe que tudo era uma miragem. Nos instantes finais da música, ele desfalece e começa a afundar, escurecendo a tela.
Ele entra na água e começa a nadar, mas ao chegar junto dela, percebe que tudo era apenas uma ilusão. Seu fôlego se esgota e ele afunda; a música termina e a tela fica preta.
A imagem volta subitamente com Ben, salvo pela equipe do filme, abrindo os olhos e tossindo violentamente. Embora agradecido, ele diz talvez fosse melhor tê-lo deixado morrer. O Preparador de Elenco diz que não, porque Ben deixou escapar um detalhe importante: um bilhete rosa-choque dentro da capa do CD, que diz “estou com ela”. Ben levanta-se, atônito, e assume que o Autor capturou Tata como vingança. A equipe do filme se rebela e diz que vai ajudar Ben a encarar o Autor e salvar sua amada; coordenados pela Figurinista, os membros da equipe produzem uma belíssima armadura branca para Ben usar no seu confronto final.
A equipe leva Ben até a sala de projeção do cinema e mostra que uma das paredes do cubículo é falsa. Ben quebra a parede e todos seguem por um corredor longo que dá num elevador. Depois de subirem muitos andares, eles chegam em um salão com uma grande sacada. A equipe diz que, dali em diante, Ben precisará seguir sozinho, literalmente: toda a equipe do filme precisa morrer se ele quiser se libertar. Eles se posicionam na sacada, e o Coordenador de Dublês entrega um detonador para Ben — que inicialmente se recusa, mas percebe que aquele é o único jeito.
Ele troca um último olhar de gratidão e aperta o detonador, que faz o chão da sacada ceder e toda a equipe cair em direção ao infinito. “Ave Maria Guarani” começa a tocar.
“Ave Maria Guarani”, Ennio Morricone – Uma homenagem ao Maestro que anuncia os tons (pseudo-)religiosos do ato final — “Ave Maria Guarani” é parte da trilha sonora de “A Missão”, filme em que padres jesuítas tentam defender o povo Guarani da dominação portuguesa na América do Sul. Depois que Ben, muito a contragosto, explode a sacada e manda a equipe do filme pelos ares, o silêncio impera no ambiente — ouvimos apenas o vento passando pelo rosto arrasado dele. Então surge o glorioso coral de Morricone, conforme seu rosto vai endurecendo e ele torna a caminhar, agora sozinho, em direção ao seu confronto final.
Ben sobe mais andares no elevador e dá de cara com uma porta fechada. Ele tenta arrombá-la de todas as formas, sem sucesso; ao sentar-se e encostar a cabeça na maçaneta, a porta (que estava destrancada desde o início) se abre. Ben entra em um salão escuro, ainda maior que o outro, todo rodeado por enormes cortinas vermelhas. Ao fundo, o Autor digita numa máquina de escrever igual à que Ben destruiu.
O Autor pede que Ben se aproxime; ao chegar perto o suficiente, Ben percebe que o Autor é, na verdade, a Autora (Phoebe Waller-Bridge) — em inglês, “Author” não flexiona gênero. A Autora olha para Ben com uma expressão amorosa e diz que esperou muito por aquele momento, mesmo temendo que ele não fosse possível. Diz que ama Ben mais do que qualquer um, pois ela o criou e ele já existia dentro dela muito antes de existir para as outras pessoas. Ben pergunta por Tata, mas a Autora diz que ela não está lá, lamentando que Ben tenha seguido aquele caminho e desperdiçado tantas histórias bonitas que ela tinha pensado para ele.
Furioso, Ben avança rumo à Autora, que simplesmente grita “Corta!” — a cena é cortada e Ben já está distante dela de novo. A Autora começa a se divertir com o controle que tem sobre Ben: apenas digitando na máquina, ela o manipula como uma marionete e arranca sua armadura, deixando-o seminu. Durante a cena, focamos ocasionalmente nos dedos dela escrevendo o roteiro e puxando a alavanca da máquina, já enferrujada, para iniciar uma nova linha. A Autora diz que não deixou de controlar Ben por um momento sequer durante o filme, nem quando ele achou que estava livre — e que o importante não é o controle, e sim a ilusão dele.
Exausto, Ben percebe que nunca conseguirá superar a Autora e pede que ela lhe dê um fim ali mesmo. A Autora nega a princípio, mas depois de uma argumentação feroz, percebe que é a única forma de encerrar a história. Ela começa a digitar a morte de Ben, que cai de joelhos no chão e começa a sufocar; à beira das lágrimas, ela tenta acalentá-lo em seus últimos instantes dizendo que todo mundo, de um jeito ou de outro, termina sozinho.
Tata surge das sombras e diz: “ele não está sozinho”. Ela vai até a Autora, que tenta pará-la no roteiro; Tata diz “eu não sou daqui, lembra?” e arranca a alavanca da máquina, libertando Ben do sufocamento no último instante. A Autora, atônita, não consegue mais escrever: ao tentar passar para a próxima linha, ela machuca os dedos no metal exposto e enferrujado. O roteiro é manchado com o seu sangue.
Tata vira-se para Ben e diz: “Você pensa que veio aqui me salvar? Eu que vim salvar você”. Ele se levanta, admirado, e Tata entrega a ele a alavanca da máquina. Os dois trocam olhares sem perceber quando a Autora, desvairada, puxa uma arma da gaveta e atira. Tata é atingida nas costas e cai nos braços de Ben, morta.
Ben parece não acreditar. A Autora pede desculpas, dizendo que era o único jeito. Ele manda ela calar a boca. Agarrando a alavanca em uma das mãos, ele começa a chorar — primeiro de um jeito contido, “cinematográfico”; depois, cada vez mais aos berros. O choro dá lugar a gritos primais de dor que começam a sacudir o salão. A Autora olha com um certo fascínio. Uma luz emana da mão de Ben, que começa a sangrar por apertar a alavanca com força. Ele continua berrando e o teto começa a cair. Ele grita mais alto que nunca, e a luz toma conta da tela.
Ben acorda deitado no topo do prédio, cercado por um céu surreal em tons de rosa. Ele se levanta e vê três pessoas com crachás de “Produtor Executivo”: Steven Spielberg, Kathleen Kennedy e Frank Marshall, chefões da Amblin (distribuidora do filme). Eles parabenizam Ben, dizem que amam o filme e querem dar a ele os direitos de corte final. Ben, superando o estranhamento, pergunta se a Autora aprovaria isso. Spielberg ri: “o importante é a ilusão do controle”, e dá uma piscadela para Ben.
Ben pondera, dizendo que já sofreu muito e que talvez seja melhor encerrar o filme ali mesmo. Kennedy diz que não é uma opção, pois seria um final anticlimático — e a Amblin não trabalha com finais anticlimáticos. Marshall dá uma risada e lembra que há exceções. Os três produtores entregam um contrato a Ben. Ele olha para os três e assina. Instantaneamente, ele é sugado de volta para o filme — mais especificamente, para momentos antes da Autora atirar.
Ben age rápido: empurra Tata para o lado com força ao mesmo tempo em que grita “CORTA!”
Tudo congela, inclusive a Autora. A bala fica parada no ar, assim como Tata. Ben olha para o lado e vê toda a equipe do filme (menos a Autora e Tata) no backstage, olhando com orgulho para ele. Ele sorri e, calmamente, começa a alterar a cena: abre as cortinas vermelhas, preenchendo o ambiente com a luz do céu cor-de-rosa. Veste roupas confortáveis. Dirige-se a uma vitrola, escolhe um disco com a obra de Rachmaninov e posiciona a agulha cuidadosamente em um ponto. Pega a máquina de escrever da Autora e a posiciona, suspensa no ar, na rota da bala. Por fim, posiciona-se atrás de Tata, com os braços abertos, e dá uma piscadela para a equipe. Triunfante, Ben grita: “AÇÃO!”
Tudo acontece rapidamente: a bala atinge a máquina de escrever e a destrói de uma vez por todas; Ben segura Tata nos braços, impedindo a queda; a agulha toca o disco e começa a tocar a parte final do Concerto Para Piano Nº2, de Rachmaninov.
Concerto para Piano Nº2, 3º Mov., Sergei Rachmaninoff – É o grande clímax da história. Ben, ainda com a cena congelada após tomar o controle do filme e gritar “Corta!”, anda calmamente até uma vitrola posta no salão; ele dedilha os discos de vinil até puxar este, com as obras de Rachmaninov — fazendo a ligação com a cena de “Full Moon and Empty Arms” e simbolizando que a relação dele com Tata de fato o fez evoluir e aprender sobre o mundo. Ele coloca o disco na vitrola e posiciona a agulha cuidadosamente; ao gritar “Ação”, a música começa a tocar imediatament. Pelos minutos seguintes, temos o segundo (e último) monólogo de Ben, direcionado à Autora — basicamente, um reflexo do seu monólogo inicial: agora, ele está plenamente consciente de que sim, existe, e a agradece por dar a eele a aventura da existência. Aos 3:27, ele diz que a Autora precisa ir; ela, ao mesmo tempo orgulhosa e receosa, concorda com a cabeça. Ben se aproxima dela e, aos 3:50, beija sua testa. Ben e a Autora trocam um último olhar de compreensão. Ele faz um movimento com os braços e, aos 3:59, tudo presente na sala (exceto o próprio Ben) sai voando pelas janelas. Durante o piano confuso dos momentos seguintes, Ben percebe que (talvez por ainda não saber lidar com o próprio poder) mandou Tata pelos ares também. Fechamos no rosto aterrorizado dele, e a música pausa aos 4:19, deixando-nos somente com o som do vento nas alturas. Ben lembra-se do salto de fé e sai correndo rumo às janelas quebradas. No exato momento em que ele se lança em direção ao infinito, a música é retomada no seu glorioso gran finale, e temos a tomada extremamente romântica, dramática, de Ben rasgando as nuvens cor-de-rosa para unir-se a Tata. A câmera descreve um arco sem cortes até que, aos 5:09, fecha nas mãos dos dois se encontrando e se segurando. Nos segundos finais de música, os dois conversam brevemente (ainda caindo) e Ben conjura um para-quedas (5:36).
Ben sorri para a Autora, que agora exibe uma mistura de orgulho e temor. Ele a agradece por ter dado a ele a maior aventura que pode existir: a da existência. Enquanto Tata olha de longe, Ben beija a testa da Autora e promete que cuidará de tudo que ela criou. A Autora também sorri e balança a cabeça positivamente. Após um último olhar de compreensão, Ben faz um movimento com os braços e tudo que há no recinto, incluindo a Autora, sai voando pelas janelas (exceto ele próprio).
Ben olha para onde Tata estava e ela não está mais lá. Ele olha para a janela e vê um pontinho caindo — é ela. Fechamos no rosto aterrorizado de Ben até que, no momento em que a música chega no seu gran finale, ele dá seu salto de fé, lançando-se em direção ao infinito. Sem cortes, a câmera descreve um arco gracioso: primeiro, próxima de Ben, depois abrindo a imagem até pegar os dois pontinhos (Ben e Tata em queda) e depois aproximando-se de novo conforme ele chega perto dela. A tomada e o clímax da música terminam no exato momento em que a mão de Ben agarra a mão de Tata. Ele a segura com força e pede desculpas pelo descuido; ela diz que tanto faz, contanto que ele tire os dois dali. Ben conjura um para-quedas e os dois descem graciosamente em meio às nuvens do céu cor-de-rosa.
Após alguns segundos de tela preta, vemos Ben e Tata no cinema, guardando os rolos de filme. Tata começa a chorar: o filme está acabando e, portanto, Ben está próximo do fim. Ben aproxima-se pergunta se ela confia nele. Ela diz que sim. Eles se beijam, iluminados pelo projetor lá em cima. Ouvimos os gentis acordes iniciais de “The Rain Song”, do Led Zeppelin.
“The Rain Song”, Led Zeppelin – Uma das músicas de amor mais bonitas já feitas — um épico contido sobre o amor da vida real, com seus altos e baixos, suas particularidades e poesias — embala a montagem que nos leva pelos 50 anos seguintes de Ben e Tata dentro do filme. A montagem é lenta como a própria música, para que nós, espectadores (assim como Tata), tenhamos a impressão que todas aquelas décadas de fato se passaram, encapsuladas naqueles cinco minutos (a música original tem mais de sete minutos, mas algumas partes dela são cortadas para que tudo se ajuste na cena). Quando Robert Plant canta “this is the wonder of devotion”, aos 5:59, Ben e Tata, já velhinhos, estão caminhando em direção à praia. Aos 6:33, focamos nos rostos dos dois, banhados pela luz, vendo os últimos raios de sol sumirem no horizonte. A câmera desce devagar, fechando nas mãos dos dois, ainda dadas. Aos 6:57, a câmera começa a recuar, revelando que tudo se passou na tela do cinema, e a fazer um lento travelling pela sala, fechando no rosto maravilhado de Tata aos 7:14. A música termina logo depois, com um lento fade out.
O que segue é uma montagem, cheia de ternura e lenta como a própria vida, seguindo o casal por anos e anos. Eles revitalizam o cinema e Tata passa a se apresentar por lá, com públicos cada vez maiores; em consequência, o próprio cinema torna-se extremamente popular. Ben e Tata amam-se muito pelos anos seguintes, enquanto ele cuida do cinema e ela da sua carreira musical. Eles têm filhos e os criam com todo o amor; Ben cuida das crianças enquanto vê Tata se apresentando na TV. Eles envelhecem, felizes; as crianças tornam-se adultas e Ben e Tata ganham netos. Toda a família se reúne no apartamento do casal, e os dois olham orgulhosos tudo o que criaram. Ben e Tata saem à francesa e caminham pelas ruas da cidade, o céu escurecendo. Chegam à praia, sentam-se na areia, e observam, com as cabeças encostadas uma na outra, os últimos raios de sol sumirem no horizonte. A câmera desce: os dois continuam de mãos dadas.
A música termina. A câmera se afasta e vemos que tudo aquilo estava passando na tela do cinema de Ben; sem cortes, viajamos pela sala até fecharmos no rosto de Tata, encantada. Ela parece acordar de um transe quando Ben pergunta: “você sentiu?”. Ela responde, ainda impactada: “50 anos”. E ele completa, referenciando a noite em que se conheceram: “…em 5 minutos”.
Ben diz: “Eu posso não existir lá fora, mas aqui dentro, esse é o nosso final feliz. E a melhor parte é que, toda vez que alguém assistir esse filme, a gente vai viver tudo isso de novo. E de novo. E de novo. Pra sempre”. Tata sorri, com lágrimas nos olhos. Ben completa: “a não ser que você não queira, claro”. Ela ri e o abraça.
Alguns momentos depois, Tata se levanta e pergunta: “vamos?”. Ben pergunta para onde, e ela diz “para o mundo real, claro”. Ele ri tristemente, lembrando que é impossível. Então ela lembra que finais abertos existem e que, se o final é ambíguo, Ben pode terminar no mundo real — basta que as pessoas acreditem. Antes de sair, ela alerta: a vida real é muito diferente da vida no cinema, mas ele poderá se acostumar.
Ben vai atrás dela, mas para no meio do caminho ao perceber que pisou em algo. Ele olha para baixo e fica preocupado: é um envelope rosa-choque. Ele abre o envelope devagar e vê que dentro há apenas um papel em branco. Ben olha para a sala de projeção lá em cima, ainda iluminando o ambiente, e sorri. Em seguida, vai embora atrás de Tata.
Na cena final, o próprio Ben opera a câmera. Os dois caminham na praia e ele vê que restam poucos segundos de filme; brincando, ele pergunta de novo a Tata se o amor dos dois foi real para ela. Ela diz que, para ela, foi a coisa mais real que já aconteceu. Ben responde, enfim: “acho que é o suficiente, então”. E joga a câmera longe.
A câmera pousa na areia, capturando o casal que anda em direção ao horizonte. “Surely” volta a tocar.
“Surely (Reprise)”, Supertramp – Poucos segundos antes do filme congelar em sua imagem final, “Surely” volta a tocar — mas em sua versão estendida, já a partir da coda (1:10). A imagem congela exatamente nos 1:15 e começa a se aproximar de Ben e Tata. A melodia desse encerramento de “Surely” é cíclica, simbolizando, quem sabe, que tudo poderá começar de novo a partir dali. Conforme a imagem vai se aproximando, efeitos caleidoscópicos tomam conta da tela, simbolizando a fuga de Ben e Tata para o mundo real. Aos 2:48, a imagem já está fechada no rosto de Ben e continua se aproximando; aos 3:04, ela entra pela pupila de um dos seus olhos e a tela fica preta no momento em que a música acaba, encerrando o filme.
Com Tata olhando para a frente e Ben olhando para a câmera, a imagem congela e começa a se aproximar dos dois, para sempre naquele momento de alegria. Um efeito caleidoscópico toma conta da tela, como se eles estivessem saindo dela, e a imagem vai se aproximando até entrar pela pupila de um dos olhos de Ben. A tela fica preta no momento em que a música acaba.
Silêncio. No escuro, a voz de Tata grita: “AÇÃO!”. Ato contínuo, ouvimos os acordes iniciais de “10538 Overture” anunciarem os créditos finais.
“10538 Overture”, Electric Light Orchestra – Logo depois que Tata grita “Ação!”, o nome “BEN” aparece na tela em letras garrafais no exato instante em que este hino triunfante do ELO começa a tocar. A partir dos 0:18 começam a surgir os créditos, brilhantes, sempre sobrepondo de uma imagem do respectivo membro da equipe em tela cheia. Além de ser uma música incrível e no tom exato do fim do filme, “10538 Overture” foi escolhida porque 1)sua letra fala de um prisioneiro que escapou, simbolizando a libertação de Ben, e 2) tem “Overture” (abertura) no nome, simbolizando que aquele não é um final, e sim um novo início para ele.
FIM.
1Tahliah é o nome verdadeiro de FKA twigs (Tahliah Debrett Barnett).
Oscar Tapes
Diego Luna: O monólogo inicial de Ben, falando direto para a câmera sobre si mesmo.
FKA twigs: A cena de “Thank You For The Music”, quando o próprio filme se apaixona por Tata.
Phoebe Waller-Bridge: A Autora diverte-se com o controle que tem sobre Ben, manipulando-o como uma marionete e arrancando sua armadura branca.
Proposta Estética
As cenas iniciais do filme têm como referência os filmes de Ozu, com tomadas extremamente longas e câmeras sempre estáticas, para evocar a monotonia da vida de Ben. Ao longo do filme, várias tomadas capturam Ben e a ação de cima (bird’s eye view), como se uma figura superior estivesse analisando aqueles acontecimentos.
A partir do momento em que Tata entra em cena, o filme muda completamente e torna-se basicamente uma grande ópera: as emoções são sempre à flor da pele, rasgadas; as cores ficam mais quentes, a câmera passa a se mexer cada vez mais e os momentos mais significativos são pontuados com música — vale lembrar que o primeiro elemento musical do filme surge junto com ela, conotando que Tata era o elemento que faltava (a música) na vida de Ben.
O tom surrealista também vai crescendo ao longo da narrativa: começamos com cenas bem definidas, marcadas, “possíveis”; aos poucos (e acompanhando a transformação de Ben), o filme vai ficando mais relaxado, menos preocupado em seguir as lógicas da realidade. Isso se manifesta mais ainda no clímax, depois que Ben quebra a parede da sala de projeção e percorre longos corredores, sobe alturas inimagináveis e adentra salões altíssimos, luxuosíssimos, que nunca poderiam existir ali. O ápice disso tudo é na cena de Ben com os produtores da Amblin, que assume um tom comicamente absurdista — ele passa a cena inteira franzindo a testa para a esquisitice da coisa.
Trilha Sonora
Thank You For The Music
O coração e a alma de tudo. É a primeira melodia ouvida no filme — e, a partir dela, tudo muda para sempre. A música começa bem baixinha, distante, e vai ficando mais alta durante os primeiros versos, conforme Ben vai se aproximando do bar onde Tata está cantando. Quando ela canta “I’m so greatful and proud”, ele começa a andar em direção à luz. “All I want is to sing out loud” — ele olha pela janela e seu rosto é tomado pela fascinação no momento em que a música chega no grandioso refrão. A câmera vai se afastando dele e fazendo o travelling pelo recinto; esse movimento de câmera dura todo o refrão e fecha em Tata quando ela canta o último verso (“for giving it to me”). Por quase toda a terceira estrofe (começando em “mother says I was a dancer before I could walk”), a câmera permanece em Tata, cortando para Ben apenas no “…like a melody can”. Então temos a montagem dos dois reencenando os momentos de amor do cinema (na imaginação de Ben), e a música se encerra no segundo refrão.
Surely
É a música que embala o primeiro beijo de Ben e Tata, fugaz como o momento em si. A letra traz um prenúncio do problema central do filme: “Only if I lied could I love you/Nothing of our lives could we share/Only could we try to get by on a sigh/Just because, just this once, I was there.”. Faz uma ponte com a cena final do filme, embalada pela mesma música (mas na sua versão “Reprise”, mais longa).
Tecnicolor
Os Mutantes (com uma das suas músicas em inglês) surgem na montagem em que acompanhamos os primeiros dias/semanas de Ben e Tata juntos, tentando superar suas diferenças e amando-se profundamente. A letra da música refere-se exatamente ao momento dos dois (“Oh, what a nice film we would be/If only you could come with me”). Para preservar a veia irônica da música, a montagem contrapõe as cenas de amor dos dois com imagens dos demais cenários do filme (as ruas, o cinema), deteriorando-se porque foram abandonados por Ben.
Full Moon and Empty Arms
É mais uma música a ilustrar o amor de Ben e Tata, além de mostrar os profundos conhecimentos musicais dela: enquanto a música toca, Tata dá uma aula a Ben sobre criatividade e originalidade, comentando que a melodia da música é baseada numa obra de Rachmaninov — já criando a ponte para a cena climática com a Autora. Além de ser a mais bonita, a versão de Eddie Fisher foi escolhida por conta das ligações profundas dele com o cinema: ele foi casado com Debbie Reynolds e Elizabeth Taylor, e era o pai de Carrie Fisher.
I Get Along Without You Very Well (Except Sometimes)
Acompanha (e amplifica) o momento mais melancólico da história, quando Tata deixa Ben e ele rearruma o apartamento com a equipe do filme para eliminar qualquer traço da existência dela. Os delicados acordes iniciais são tocados quando Ben, desolado, olha para o porta-retrato dele com Tata. Assim ele fica por boa parte da primeira estrofe, até sentir uma mão no seu ombro — a do Preparador de Elenco. Ele olha para trás e vê a equipe do filme, chorosa, olhando para ele com pena. Com o início da segunda estrofe (“I’ve forgotten you just like I should”), inicia-se a lenta montagem com rearrumação do apartamento, que dura o restante da música. A montagem termina no último verso (“for that would surely break my heart in two”), com Ben sentado no sofá e a câmera afastando-se devagar, revelando o apartamento reorganizado e sem sinal dela.
The Long and Winding Road
Usada aqui de forma irônica, durante o delírio destrutivo de Ben — já que a “estrada longa e sinuosa” que ele vê não é real, e sim um convite à própria morte. A cena é filmada com toda a carga dramática existente no universo: noite chuvosa, trovões e closes abundantes no rosto desesperado/encantado de Ben. Ele começa a nadar no mar aos 2:24. No último verso cantado por Paul (“lead me to your door”), ele estende as mãos para ser puxado por Tata no barquinho, mas percebe que tudo era uma miragem. Nos instantes finais da música, ele desfalece e começa a afundar, escurecendo a tela.
Ave Maria Guarani
Uma homenagem ao Maestro que anuncia os tons (pseudo-)religiosos do ato final — “Ave Maria Guarani” é parte da trilha sonora de “A Missão”, filme em que padres jesuítas tentam defender o povo Guarani da dominação portuguesa na América do Sul. Depois que Ben, muito a contragosto, explode a sacada e manda a equipe do filme pelos ares, o silêncio impera no ambiente — ouvimos apenas o vento passando pelo rosto arrasado dele. Então surge o glorioso coral de Morricone, conforme seu rosto vai endurecendo e ele torna a caminhar, agora sozinho, em direção ao seu confronto final.
Concerto para Piano Nº2, Mov. 3 – Allegro Scherzando
É o grande clímax da história. Ben, ainda com a cena congelada após tomar o controle do filme e gritar “Corta!”, anda calmamente até uma vitrola posta no salão; ele dedilha os discos de vinil até puxar este, com as obras de Rachmaninov — fazendo a ligação com a cena de “Full Moon and Empty Arms” e simbolizando que a relação dele com Tata de fato o fez evoluir e aprender sobre o mundo. Ele coloca o disco na vitrola e posiciona a agulha cuidadosamente; ao gritar “Ação”, a música começa a tocar imediatament. Pelos minutos seguintes, temos o segundo (e último) monólogo de Ben, direcionado à Autora — basicamente, um reflexo do seu monólogo inicial: agora, ele está plenamente consciente de que sim, existe, e a agradece por dar a eele a aventura da existência. Aos 3:27, ele diz que a Autora precisa ir; ela, ao mesmo tempo orgulhosa e receosa, concorda com a cabeça. Ben se aproxima dela e, aos 3:50, beija sua testa. Ben e a Autora trocam um último olhar de compreensão. Ele faz um movimento com os braços e, aos 3:59, tudo presente na sala (exceto o próprio Ben) sai voando pelas janelas. Durante o piano confuso dos momentos seguintes, Ben percebe que (talvez por ainda não saber lidar com o próprio poder) mandou Tata pelos ares também. Fechamos no rosto aterrorizado dele, e a música pausa aos 4:19, deixando-nos somente com o som do vento nas alturas. Ben lembra-se do salto de fé e sai correndo rumo às janelas quebradas. No exato momento em que ele se lança em direção ao infinito, a música é retomada no seu glorioso gran finale, e temos a tomada extremamente romântica, dramática, de Ben rasgando as nuvens cor-de-rosa para unir-se a Tata. A câmera descreve um arco sem cortes até que, aos 5:09, fecha nas mãos dos dois se encontrando e se segurando. Nos segundos finais de música, os dois conversam brevemente (ainda caindo) e Ben conjura um para-quedas (5:36).
The Rain Song
Uma das músicas de amor mais bonitas já feitas — um épico contido sobre o amor da vida real, com seus altos e baixos, suas particularidades e poesias — embala a montagem que nos leva pelos 50 anos seguintes de Ben e Tata dentro do filme. A montagem é lenta como a própria música, para que nós, espectadores (assim como Tata), tenhamos a impressão que todas aquelas décadas de fato se passaram, encapsuladas naqueles cinco minutos (a música original tem mais de sete minutos, mas algumas partes dela são cortadas para que tudo se ajuste na cena). Quando Robert Plant canta “this is the wonder of devotion”, aos 5:59, Ben e Tata, já velhinhos, estão caminhando em direção à praia. Aos 6:33, focamos nos rostos dos dois, banhados pela luz, vendo os últimos raios de sol sumirem no horizonte. A câmera desce devagar, fechando nas mãos dos dois, ainda dadas. Aos 6:57, a câmera começa a recuar, revelando que tudo se passou na tela do cinema, e a fazer um lento travelling pela sala, fechando no rosto maravilhado de Tata aos 7:14. A música termina logo depois, com um lento fade out.
Surely (Reprise)
Poucos segundos antes do filme congelar em sua imagem final, “Surely” volta a tocar — mas em sua versão estendida, já a partir da coda (1:10). A imagem congela exatamente nos 1:15 e começa a se aproximar de Ben e Tata. A melodia desse encerramento de “Surely” é cíclica, simbolizando, quem sabe, que tudo poderá começar de novo a partir dali. Conforme a imagem vai se aproximando, efeitos caleidoscópicos tomam conta da tela, simbolizando a fuga de Ben e Tata para o mundo real. Aos 2:48, a imagem já está fechada no rosto de Ben e continua se aproximando; aos 3:04, ela entra pela pupila de um dos seus olhos e a tela fica preta no momento em que a música acaba, encerrando o filme.
10538 Overture
Logo depois que Tata grita “Ação!”, o nome “BEN” aparece na tela em letras garrafais no exato instante em que este hino triunfante do ELO começa a tocar. A partir dos 0:18 começam a surgir os créditos, brilhantes, sempre sobrepondo de uma imagem do respectivo membro da equipe em tela cheia. Além de ser uma música incrível e no tom exato do fim do filme, “10538 Overture” foi escolhida porque 1)sua letra fala de um prisioneiro que escapou, simbolizando a libertação de Ben, e 2) tem “Overture” (abertura) no nome, simbolizando que aquele não é um final, e sim um novo início para ele.
Fotografia
Figurino
Notícias
Prêmios
Total de 16 prêmios e 37 indicações. Clique aqui para ver todos os prêmios da 3ª temporada.
3º Festival de Cannes
- Grand Prix (venceu)
3º Screen Actors Guild Awards (SAG)
- Elenco: Diego Luna, FKA twigs e Phoebe Waller-Bridge (indicado)
- Ator, Diego Luna (indicado)
- Atriz Coadjuvante, Phoebe Waller-Bridge (indicada)
- Elenco de Dublês (indicado)
3º BAFTA
- Roteiro Original, Phoebe Waller-Bridge (venceu)
- Filme (indicado)
- Direção, Phoebe Waller-Bridge (indicada)
- Ator, Diego Luna (indicado)
- Atriz Coadjuvante, Phoebe Waller-Bridge (indicada)
- Fotografia, Roger Deakins (indicado)
- Trilha Sonora, FKA twigs (indicada)
3º Globo de Ouro
- Filme de Comédia ou Musical (venceu)
- Ator de Comédia ou Musical, Diego Luna (venceu)
- Roteiro, Phoebe Waller-Bridge (venceu)
- Direção, Phoebe Waller-Bridge (indicada)
- Atriz de Comédia ou Musical, FKA twigs (indicada)
- Atriz Coadjuvante, Phoebe Waller-Bridge (indicada)
- Trilha Sonora, FKA twigs (indicada)
3º Oscar
- Roteiro Original, Phoebe Waller-Bridge (venceu)
- Trilha Sonora, FKA twigs (venceu, empate com The Final Hour)
- Filme (indicado)
- Ator, Diego Luna (indicado)
- Canção Não-Original: “Thank You For The Music”, ABBA (indicado)
Premiações da Crítica
- Filme (2 prêmios, 2 vices)
- Direção, Phoebe Waller-Bridge (3 prêmios)
- Roteiro, Phoebe Waller-Bridge (4 prêmios, 1 vice)
- Ator, Diego Luna (1 vice)
Temporadas Posteriores
Nota: prêmios e indicações recebidos em temporadas posteriores não são contabilizados no ranking da temporada de lançamento do filme.
1º Festival do Rio
- Seleção Oficial
Críticas do Júri
100
San City Film Critics Association
Com uma narrativa criativa e bastante metalinguística, Ben entretém, emociona e cativa seu telespectador, além de ser uma homenagem ao cinema em si. Não duvido que será considerado clássico daqui a alguns anos. Phoebe Waller-Bridge é genial e prova que é um dos maiores nomes da indústria atualmente.
100
Syndicat Français de la Critique de Cinéma
Esse filme já nasceu como um clássico moderno. Phoebe Waller-Bridge botou Charlie Kaufman pra mamar!
98
Joseph Wilker Film Critics Association
A proposta do filme me lembra uma mistura de A Rosa Púrpura do Cairo com Ruby Sparks e simplesmente amei! O elenco contratado combina com is papéis propostos, preciso ressaltar a estética do dono de cinema fracassado é um aspecto interessante para o filme. De longe meu filme preferido da season, falando sobre livre arbitrio e debochando disso, achei ousado.
95
Sindicato Latino Americano de Cinema Urso Rubro
O defeito desse filme é não ter existido uns anos atrás, quando me juntava com as migas para assistir exatamente esse tipo de filme, a expectativa na locadora, tudooooo. Me senti como antes, quando tudo que acontecia era novidade. Consegui ter empatia com um protagonista homem e história de casalzinho…. bah. A trilha parece que todas músicas foram feitas pensando nessa narrativa.
80
Oz Film Critics Society
Divertidíssimo. Confuso. Metalinguístico. Inspirador. Phoebe Waller-Bridge mais uma vez se arrisca no que conteúdo e formato podem trazer para a indústria do entretenimento. No entanto, o filme se perde um pouquinho dentro do próprio conceito ou talvez eu só seja meio burra. FKA Twigs maravilhosa.
80
Pindamonhangaba Independent Filmmakers Circle
Uma bela homenagem a arte de contar histórias e aos personagens que ganham vida na nossa mente e se tornam tão reais quanto a gente.
78
Cinema Contestado – União Catarinense de Críticos de Cinema
No campo do cinema pós-moderno, são poucos aqueles que conseguem remeter ao conflito entre autor-personagem sem cair num clichê. Ben é um exemplo desses poucos. O roteiro consegue transitar com cuidado e delicadeza entre as cenas, sem cair nas armadilhas do gênero. Até as cenas excessivamente dramáticas e um tanto quanto novelescas são perdoáveis frente a execução cuidadosa da proposta meta-narrativa.
75
Gotham City Film Critics Secret Society
Acredito que o conceito de “Ben” tenha sido melhor do que a execução em si. Mesmo que o filme tenha grandes ideias, grandes atores e autor, ele parece se alongar demais e se perder um pouco, mas ainda, uma boa experiência.
70
South-South Decolonial Film Critics Association
Sabe Seis personagens à procura de autor? Então, “Ben” é o Seis Personagens de nosso tempo. O filme possui ótimos momentos, mas o enredo surreal perde-se dentro de sua própria surrealidade, tornando-se um pouco maçante a ponto de fazer com que os verdadeiros espectadores se perguntem quanto tempo mais falta para o filme acabar. E talvez seja aí que more o perigo da quebra da quarta parede no filme: no segundo ato do filme, quando sabemos que Tahliah, personagem de FKA, também faz parte da equipe cinematográfica, começamos a se esquecer, dentro dos devaneios de Ben, interpretado por Diego Luna, qual era o propósito de sua personagem: seja ela a interpretada por Ben, seja ela a interpretada por Luna. Apesar disso, FKA Twigs e Phoebe Waller-Brigde entregam ótimas interpretações de suas personagens, que tentam dar uma justificativa para as reviravoltas que acontecem no enredo de Ben. Se elas funcionam? Acreditamos que não, mas não podemos deixar de dar os créditos à autora por ter intentar algo revolucionário.
Comentários do Público
10
Scarpa
Greta Gerwig on acid, e no melhor estilo Phoebe Waller-Bridge.
10
Diego Dominik
Topíssimo
10
carneirinha de júlia
em pelo menos 3 momentos diferentes da leitura achei que estava no epílogo, nas margens do desfecho final, e não estava. talvez isso pudesse até ter causado cansaço, confusão ou impaciência se o filme e seus mergulhos não fossem tão fascinantes e bem orquestrados. singular, espirituoso e arrebatador até o último segundo.
10
Supla de Sunga
Metalinguístico, bem construído e com uma das melhores trilhas sonoras da memória recente. Phoebe Waller-Bridge prova que é um dos maiores talentos da sua geração, e FKA twigs está radiante.
10
lucy
Quem é Phoebe Waller-Bridge?
Para o faminto, é o pão.
Para o morto, é a vida.
Para o enfermo, é a cura.
Para o sábio, é a sabedoria.
10
exausta
A segunda vinda de Stranger Than Fiction, só que me entregando tudo que eu queria mas não tive nele.
9
Pantera Selvagem Cláudia Brasil
adoro uma metalinguagem e essa foi muito bem feita
9
coelhinha_16
A metalinguística do filme é arrebatadora. Roteiro lindamente escrito, com emoção e sagacidade é o ponto chave dessa obra!
9
Rimmed Spectacles Critic’s Association
Uma deliciosa de mistura de Fellini com um roteiro que tente a Kaufman. Atuações impecáveis.
9
Leonardo Medeiros
ainda que não seja plenamente satisfatório em tudo que tenta abordar na sua curta duração, a catarse dos minutos finais é uma das coisas mais interessantes que o gênero ofereceu nos últimos anos.
8
Naja Bondosa
Senti um cheirinho de homem hetero no ar
8
carnista do letterboxd
muito interessante
8
Mrpneto
Uma viagem metalinguística
7
Choppersuey
Sucinto e de uma delicadeza no decorrer da história.
7
Lana Del Rey
Muito divertido, uma experiência única.
6
Cath
Subplots confusos com muito vai e vem e um climax, na minha opinião, muito longe do fim da história. Me lembrou muito o show de Truman e Detona Ralph( pois é) só que numa versão um pouco desorganizada. Tem uma trilha interessante que além de tentar casar com as situações em si também poderia ser legal na questão da montagem da edição em si (é uma ideia). É boa a ideia geral, mas falta desapegar de algumas ideias e prestar atenção em outros detalhes.
6
Quack
A proposta do filme é bastante interessante, mas se perde em si mesma – o longa torna-se extenso, cansativo e enfadonho
5
Jenny from the block
A proposta é muito melhor que a execução. Poderia ter acabado em vários momentos, mas isso não acontece. Perde força no meio da narrativa e acaba se tornando arrastado e cansativo.
0
Beyoncé
Muito confuso
