de Monique Gardenberg
produzido por Bruno S.
com Antonio Pitanga e Carla Perez
4 de outubro de 2020 (4º Festival de Cannes)
🇧🇷 Brasil, 🇺🇸 Estados Unidos
Drama / Suspense / Ficção Científica
Sinopse: Tora (Carla Perez) foi uma grande estrela do Carnaval de Salvador que sumiu sem deixar rastros no auge da fama. Em 2050, cinco décadas após o seu sumiço, seu corpo surge boiando na Praia da Paciência. Enquanto isso, Políbio (Antonio Pitanga), seu ex-parceiro de trio e amante, passa a ter visões da jovem Tora vagando por Salvador — ao mesmo tempo em que pressente a iminente destruição da cidade.
Vencedor de 10 prêmios, incluindo a Palma de Ouro em Cannes (ex aequo). Parte da Criterion Collection.
Consenso da Crítica: Com um show caleidoscópico de imagens, sons e Carla Perez, “Baila” retumba de maneira vigorosa os seus versos e faz o chão do cinema tremer, mesmo com algumas decisões de roteiro discutíveis ao longo do caminho.
Média da crítica
84

Média do público
7.9
Tomatômetro

100%
Pipocômetro

93%
Navegue pelas seções
Ficha Técnica
Direção: Monique Gardenberg
Roteiro: Manuela Dias
Produção: Bruno S.
Fotografia: Hoyte van Hoytema
Música: Pepeu Gomes
Figurinos: Albert Wolsky
Distribuição: A24 (EUA) Embraflix (BRA)
Plataforma: Catflix
Elenco
Antonio Pitanga como Políbio
Carla Perez como Tora
Xavier Dolan como o Forasteiro
Paulo César Pereio como o Velho muito velho
Jackson Costa como o DJ
Proposta Estética
Uma mistura de Blade Runner com Cinderela Baiana, Baila se passa na Salvador de 2050, mas não há um visual explicitamente futurista: a cidade, por razões nunca totalmente explicadas, está num processo de profunda decadência e abandono. Por conta disso, o visual do filme tem pitadas futurísticas aqui e ali, mas no geral com um ar velho, de ruínas modernas.
A ação do filme se passa ao longo dos cinco dias de carnaval, todos demarcados com inscrições em tela. Ao contrário das imagens comumente ensolaradas da cidade, o filme se passa totalmente à noite; as partes pobres da cidade são precariamente iluminadas, enquanto as ricas são banhadas num neon multicolorido quase enjoativo. Vale notar que o tempo dos acontecimentos, num filme mais realista, obrigaria algumas das cenas a se passarem durante o dia; ainda assim, fez-se a escolha de toda a ação se passar à noite, como se a cidade estivesse numa eterna penumbra — o que dá o tom do filme e cria um efeito desorientador para quem assiste.
A atmosfera geral é distante, silenciosa — basicamente como os próprios habitantes da cidade, que parecem um tanto anestesiados e impassíveis quanto à decaída de tudo à volta deles. As pontuações musicais são raras, mas vão tornando-se mais frequentes conforme o desenrolar da narrativa — que vai, progressivamente, ganhando mais e mais um ar de sonho (ou pesadelo), subindo alguns degraus acima da realidade para algo que pode ser um grande delírio.
Sugestão: se possível, ouça as músicas no volume máximo que seus tímpanos permitirem.
Narrativa
Os timbales de “Girar o Mundo” entram com força, e a imagem abre de súbito: a câmera viaja devagar por um céu noturno arroxeado, com uma camada grossa de nuvens abaixo. Ao chegar no refrão, a câmera começa a descer e entrar pelas nuvens; ao mesmo tempo, os vocais de Cátia Guimma vão ficando mais fantasmagóricos e os instrumentos vão desaparecendo.
“Girar o Mundo”, Cátia Guimma – Sim, a letra da música tem relação com a temática do filme (“me esquecer não vai, nem por um segundo…”). Mas há somente uma razão para ela abrir o filme e é essa aqui.
Quando o refrão acaba (“e sei que vai voltar…”), superamos a camada de nuvens, a música dissolve e vemos uma larga avenida à beira mar, vazia. Uma luzinha cruza a avenida e a tela indica: SALVADOR, 2050.
Políbio (Antônio Pitanga) estaciona, desce da moto e entra em uma casa quase em ruínas. Lá dentro, um velho muito velho (Paulo César Pereio) vê o resto da vida passar sentado numa poltrona, sozinho. Políbio diz que pressentiu, sabe-se lá como, a destruição de Salvador e foi até o velho, que, segundo ele, “entende de destruição”. Apesar dos dois se conhecerem de longa data, o diálogo não é amigável. O velho diz que o fim é o destino de tudo que vive, incluindo a cidade, e que alguém só morre de verdade após a morte da última pessoa que lembrava desse alguém. Após uma breve pausa, o velho se pergunta: “será que alguém lembrará de nós?”. Políbio, duro, responde: “espero que não”.
Políbio sai e percorre novamente as avenidas, absolutamente vazias. Fechamos no perfil do seu rosto, a moto em movimento, o olhar distante. “Sonhos Marginais” vai crescendo enquanto surgem os créditos iniciais; ao mesmo tempo, uma linha brilhante surge à esquerda da tela e vai cruzando toda a sua extensão, formando o título “Baila”, em cursivas, no centro.
“Sonhos Marginais”, Pepeu Gomes – A música que acompanha os créditos iniciais cria uma atmosfera romântica, mas ao mesmo tempo levemente sinistra, que dá o tom para todo o resto do filme. É a versão soteropolitana de um Bond theme.
O que segue é uma sequência de créditos que pode ser descrita como a mistura entre uma abertura de James Bond e uma vinheta da Globeleza: vemos uma sequência de estátuas de pedra que contam uma história visual, de duas pessoas que se amavam e se separaram. Ao longo da sequência, a figura masculina vai decaindo e arruinando-se, enquanto a feminina permanece gloriosa e brilhante. Ao final, a estátua da mulher ascende aos céus, enquanto a do homem, abandonada, vira pó.
Chegando em casa, Políbio olha de relance as notícias pela TV. É o primeiro dia de carnaval, mas não como o conhecemos: toda a festa agora acontece dentro de galpões, divididos entres classes sociais — ricos festejam com ricos, pobres com pobres. As avenidas foram abandonadas porque o Centro Histórico, em ruínas há décadas, corre o risco de desabar completamente com os tremores gerados pela folia. Por fim, uma última notinha no jornal noticia a morte de Tora Gabrilardi (Carla Perez), ex-estrela do Axé, desaparecida há 50 anos. Seu corpo foi encontrado boiando na Praia da Paciência.
Políbio se levanta subitamente, o olhar horrorizado. Ele se dirige a uma parede do seu apartamento, toda coberta com fotos dele e de Tora — ambos jovens e felizes, 50 anos antes, em cima de um trio elétrico. Fechamos em seu rosto chocado e o relógio bate meia-noite.
SEXTA
Deprimido, Políbio anda pelas ruas escuras, impessoais, na parte pobre da cidade. Senta-se sozinho no balcão de um bar relativamente cheio, mas silencioso. Ao seu lado, está sentado o Forasteiro (Xavier Dolan). Os dois parecem se conhecer e ter alguma simpatia um pelo outro, mas sem nenhuma efusividade.
Depois de tomar umas, Políbio lamenta a morte de Tora e conta, meio atravessado, a história dos dois: eles se conheceram nos ensaios do Olodum, no início da década de 1990, e rapidamente se apaixonaram. Ao longo dos anos seguintes, formaram uma dupla de axé que teve ascensão meteórica no cenário baiano, regendo multidões nos carnavais, até que, sem explicação, Tora sumiu sem deixar rastros no auge da fama. Políbio, que nunca foi muito afeito à fama, retirou-se às sombras e passou anos investigando o sumiço da amada, sem qualquer resultado.
O Forasteiro parece desconcertado, pois nunca tinha visto aquele homem, sempre tão reservado, falar sobre si mesmo. Políbio engole o choro ao comentar que a morte de Tora, outrora uma enorme estrela, tenha virado apenas uma notinha de rodapé num telejornal noturno: o ato final da grande Tora, despercebido por uma cidade que tanto necessitava dela.
Voltando para casa, inebriado, Políbio se depara com uma visão aparentemente sobrenatural num beco escuro: Tora, ainda com seus vinte e poucos anos, sorrindo para ele. Ela diz que o aguarda. Políbio diz que vai com ela, mas Tora some quando ele tenta alcançá-la. Novamente sozinho, ele classifica o episódio como o delírio de um bêbado.
SÁBADO
Sem conseguir esquecer o ocorrido, Políbio vai até o IML para ver o corpo de Tora com os próprios olhos. Ele invade o local (que está fechado, pois é sábado de carnaval) e encontra o que queria — sua amada, com seus setenta e poucos anos, pacificamente morta.
Então a mágica acontece: o corpo de Tora reanima-se e levanta. Políbio, estranhamente, não está assustado. Ela pergunta por que ele a deixou. Ele diz que quem sumiu foi ela. Ela diz que tudo que queria era uma filha, e ele não quis. Ele pede desculpas. Ela pede desculpas. Ambos iniciam um terno dueto de “O Seu Amor”, performado na sala do necrotério.
“O Seu Amor”, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Gal Costa – A belíssima canção dos Doces Bárbaros é performada por Políbio e Tora — ele assume as vozes de Caetano e Gil, enquanto ela assume as vozes de Gal e Betânia. Há uma atmosfera meio “Sinfonia da Necrópole”, pois a música é entoada durante um delírio de Políbio com o cadáver reanimado da velha Tora, em meio a um necrotério.
Retornando à realidade, Políbio percebe algo incomum entre os pertences de Tora: uma insígnia da Casa de Oxumarê, um dos mais importantes terreiros de candomblé da cidade. Querendo descobrir mais sobre os últimos dias da amada, Políbio vai até o terreiro.
Somos imersos numa atmosfera totalmente distinta, vívida, vibrante. Ao som de “Depois que o Ilê Passar”, jovens do projeto social mantido pelo terreiro festejam o carnaval à própria maneira tocando atabaques, agogôs e afoxés num ritmo pulsante que, pela primeira vez, acende uma faísca no olhar de Políbio.
“Depois Que O Ilê Passar”, Ilê Aiyê – É a música performada pelos meninos da Casa de Oxumarê durante a visita de Políbio ao terreiro, e também já cria a ponte para o final climático no trio elétrico: aqui, pela primeira vez, a percussão dá alguma vida ao olhar dos personagens, simbolizando o aspecto quase extasiante da música ao longo do filme.
Pela sua conversa com o babalorixá, percebemos que Políbio cresceu naquele lugar e, ali, desenvolveu seus dons musicais há décadas adormecidos. O babalorixá diz que Tora nunca esteve ali, mas relata acontecimentos estranhos: ao longo dos últimos meses, vários jovens do projeto social desapareceram sem deixar rastros. A única pista que eles têm é um “estrangeiro” que esteve no terreiro antes dos primeiros sumiços. Políbio logo pensa no Forasteiro, uma das últimas pessoas de fora ainda em Salvador.
DOMINGO
Em busca do Forasteiro, Políbio vai parar num baile de carnaval na parte rica de Salvador. A festa, realizada num grande galpão, é totalmente silenciosa: para não abalar as frágeis estruturas da cidade, os foliões usam fones de ouvido e dançam timidamente, afastados uns dos outros. Todos os presentes, jovens e velhos, têm os rostos plastificados, cheios de cirurgias plásticas, o que cria um contraste com as feições envelhecidas e marcadas de Políbio.
Políbio percebe que o DJ (Jackson Costa) da festa é um velho conhecido, que trabalhava como músico de apoio na sua época de trio elétrico. Os dois conversam tranquilamente, já que a festa é silenciosa e todos estão absortos na música; ainda assim, a relação entre ambos não chega a ser amigável. O DJ lamenta os acontecimentos de 50 anos atrás, afirmando que, após o sumiço de Tora, passou dificuldades por anos por não conseguir trabalho. Políbio diz que conseguiu se manter com o pouco que ganhou na época, mas que era Tora, a grande estrela da dupla, quem recebia os rios de dinheiro — rios de dinheiro que sumiram junto com ela, diga-se. Os dois se entreolham, com um ar de certa melancolia.
Em um certo momento, Políbio avista, à distância, o Forasteiro conversando com uma loira não identificada, de costas. Políbio vai atrás dele e o Forasteiro sai andando ao perceber. A perseguição começa sutil, com o Forasteiro andando apressado e Políbio acompanhando-o de longe; conforme o mais velho vai se aproximando, o Forasteiro aperta o passo. Para despistar Políbio, ele mexe no quadro de som da festa e a música, “Swing da Cor”, começa a sair dos alto-falantes.
“Swing da Cor”, Daniela Mercury – As fortes batidas da canção de Daniela dão o tom da cena na festa dos ricos, em que Políbio persegue o Forasteiro e, em seguida, depara-se com mais uma visão da jovem Tora. Há uma correlação com a temática do filme, já que Daniela é uma cantora branca cantando sobre o candomblé com o acompanhamento de uma batida característica do Olodum.
Os foliões, confusos, tiram os fones de ouvido e começam a dançar mais próximos uns dos outros, com mais ânimo, como se estivessem numa espécie de transe. Políbio continua correndo atrás do Forasteiro, esgueirando-se entre as pessoas que, agora, dançam loucamente.
A perseguição se estende para fora do galpão: os dois correm numa larga avenida, completamente vazia e banhada por luzes de neon vindas de dentro dos galpões. Políbio sente o peso da idade e vê o Forasteiro se afastar, mas continua correndo até que, de repente, a jovem Tora surge alguns metros à sua frente. Políbio para subitamente; a música some. “Venha comigo”, diz Tora. Políbio, sorrindo, vai andando até ela. Elegantemente, Tora puxa da roupa um bilhete e o solta no chão; Políbio se abaixo para pegar o bilhete e, ao levantar, se vê sozinho. Ele desdobra o bilhete — um panfleto turístico velhíssimo sobre a Ilha de Itaparica — e seu rosto é tomado pela compreensão. O vento sopra e o bilhete voa longe.
SEGUNDA
Políbio chega ao Porto de Salvador, aparentemente abandonado há décadas, e embarca numa pequena jangada minimamente navegável. Enquanto ele começa a remar em direção à ilha, vemos ao fundo a ponte Salvador-Itaparica — ou, mais precisamente, metade dela, já que sua construção foi interrompida no meio do caminho muitos anos antes, derrubando consigo a intensa especulação imobiliária da ilha e deixando no seu lugar apenas uma área arrasada, totalmente desabitada.
Ele rema, rema e rema um pouco mais para vencer os 15km de água que separam Salvador da ilha. No meio do caminho, exausto, ele deita-se na jangada e passa um bom tempo somente olhando para as estrelas. Eventualmente, ele pega no sono e acorda horas depois com os trovões de uma tempestade, o barco encostado na areia da ilha.
Políbio caminha em meio às ruínas do lugar, parecendo saber exatamente para onde ir, e eventualmente chega em uma espécie de fortaleza de pedra à beira-mar. Ao som dos cantos gregorianos de “Pra Você”, a atmosfera é inicialmente aterrorizante, com relâmpagos e trovões ameaçadores.
“Pra Você”, Gal Costa – O ponto de virada do filme, e o momento em que toda a atmosfera de sonho ou alucinação dá um salto. Tora desce da fortaleza como um feixe de luz e performa a música para Políbio, mas a voz que ouvimos não é de Carla Perez, e sim de Gal Costa.
Eventualmente, quando a música vai chegando em sua parte mais melódica, uma luz branca desce do topo da fortaleza; dela, materializa-se a jovem Tora. Ela canta para Políbio, embalando-o (e, quem sabe, seduzindo-o) com sua impossível beleza jovial.
Ao final da música, Tora diz que esteve esperando por ele; ele responde que o bilhete era tudo que ele precisava. Os dois rememoram os planos feitos 50 anos antes, quando prometeram ir morar em Itaparica quando o estrelato não estivesse mais no auge. Ela o guia até o topo da fortaleza, onde ambos são recebidos pelo Forasteiro — que revela ser o lacaio de Tora, simplesmente por absoluta admiração e devoção à estrela.
A mansão no topo da fortaleza é luxuosíssima; Tora serve um enorme banquete para Políbio, servido por empregados que nunca são vistos. Políbio come e bebe de se fartar. Todas as vezes em que ele faz menção de perguntar como tudo aquilo é possível, ela desconversa — e ele, inebriado, parece não se importar tanto assim. Ao fim da refeição, emotivo, ele pergunta para Tora por que ela o deixou. Tora se diverte e parece saborear cada palavra da sua resposta:
“Não foi você que eu deixei — foram eles. Porque eu sabia, Políbio, eu sabia o que me aguardava. Essa cidade só mastiga, digere o quanto pode e depois vomita seus ídolos. Quantos anos me restariam ali em cima daquele trio? Três, quatro, dez? E depois a decadência e o esquecimento. Não, Políbio. Não. Não para mim. Eu preciso de mais, e eu darei mais a eles. Eu esperei você tanto tempo, até você perder essa esperança boba nas pessoas, e agora nós daremos a essa cidade o que ela merece.”
Políbio pergunta o que é. Tora responde, os olhos arregalados e sorridentes: “a luz”.
Tora guia Políbio pela mansão até chegar em uma grande porta ao fim de um corredor. Ela abre a porta silenciosamente, e Políbio surpreende-se ao ver lá dentro, em aposentos requintadíssimos, os meninos sumidos da Casa de Oxumarê, todos dormindo confortavelmente. Tora explica que esteve convocando-os para o seu grande ato, prometendo em troca reconhecimento mundial para todo o sempre.
Políbio continua confuso, levemente preocupado, e Tora revela seu grande plano: ela vai colocar nas ruas o maior e mais brilhante trio elétrico já visto na história da cidade. O povo, maravilhado pela gloriosa ressurreição da estrela , vai sair dos galpões, descer dos terreiros, deixar suas casas e ocupar a avenida uma última vez — todos juntos, no mais intenso frenesi carnavalesco já visto. Políbio fica horrorizado: Salvador não aguentará tal êxtase e ruirá. Tora sorri: “exatamente”.
Políbio olha para ela, sem reação. Tora conclui: “por muitos anos eu chamei isso de vingança, mas hoje eu vejo… não, não é vingança. É um presente. Essa cidade merece mais do que caminhar lentamente para o esquecimento, Políbio. Nós vamos dar a eles um final glorioso, e o mundo lembrará de nós. É o mínimo que nós merecemos.”
Tora entra por uma outra porta. Políbio hesita por um instante… e vai atrás dela.
TERÇA
Nos aposentos de Tora, Políbio é ao mesmo tempo atraído e repelido por ela. Tora se deita e olha para ele; Políbio faz menção de se aproximar, mas para, como se uma força interior o impedisse. Reunindo todas as suas forças, então, ele se vira e sai do quarto, dando de cara com o Forasteiro atrás da porta. Políbio, absolutamente exasperado, fecha a porta e pergunta ao Forasteiro quem é aquela mulher. O jovem não responde. Políbio, então, o agarra pelo pescoço e o coloca contra a parede, repetindo a pergunta. O Forasteiro sorri maliciosamente e abre a boca para falar.
—
Corte abrupto para um flashback. No ano 2000, Tora chega nadando à Ilha de Itaparica na calada da noite. Grávida. Na surdina, ela usa os rios de dinheiro que ganhou no estrelato para construir sua mansão no topo da fortaleza — e para pagar o silêncio de cada pessoa envolvida. Sozinha, ela dá a luz a uma menina, a quem chama de Gabriela. Gabriela tem feições que lembram as da mãe, mas a pele escura do pai.
Tora passa os anos seguintes arquitetando seu plano de vingança, mas eventualmente percebe que, quando chegar o momento, estará velha demais para colocá-lo em prática. Ela coloca, então, sobre os ombros da filha a responsabilidade de continuar com o trabalho da sua vida. Para isso, entretanto, Gabriela precisará ser reesculpida à imagem da mãe: Tora contrata profissionais do mundo inteiro para realizar inúmeras cirurgias na filha, embranquecendo sua pele e tornando-a uma cópia fiel, cristalizada, da Tora de vinte e poucos anos.
O processo leva décadas para ser concluído, e a própria mente de Gabriela vai sendo deformada ao longo dos anos: inicialmente forçada no plano delirante, ela vai gradualmente assumindo as obsessões de Tora — tornando-se, efetivamente, a própria mãe não só em corpo, mas também em alma. Em 2050, a Tora original, já velha, exibe um pequeno traço de arrependimento por toda a violência que impôs à filha, e uma leve sugestão de repensar os planos. É tarde demais, entretanto: encarando aquilo como uma fundamental traição, a nova Tora mata a mãe sem hesitação, jogando seu corpo ao mar para dar início aos planos há tanto arquitetados.
—
Voltamos ao presente, e Políbio solta a gola do Forasteiro, horrorizado. O Forasteiro olha para baixo e percebe que sangra profusamente, um buraco no meio do peito. Tora sai dos seus aposentos com uma arma na mão e alisa o rosto do Forasteiro. “Você foi valioso pra mim. Você me trouxe a última peça que faltava, e eu serei eternamente grata. Mas hoje você foi um garoto mau — e agora é hora de ir”. O Forasteiro, em seu último suspiro, põe a mão no rosto de Tora, com uma expressão de amor profundo e genuíno. Então cai, morto.
Políbio perde o chão abaixo de si, e olha para Tora como se ela fosse um fantasma. Ela diz que, mesmo que agora ele saiba do seu pequeno segredo, nada muda: o plano já foi iniciado e nada poderá pará-lo, queira Políbio ou não. Tora aproxima-se do pai, aparentemente indiferente ao grau de parentesco dos dois, e tenta mais uma vez jogar sobre ele sua aura de sedução encantadora. Políbio parece entrar em colapso: ao mesmo tempo em que é sua filha à sua frente, é também a imagem perfeitamente esculpida da mulher que ele passou a vida amando e desejando profundamente, preservada toda a beleza da juventude. Mas é sua filha. Esmagado pelo choque e pelo conflito dilacerante, Políbio desmaia.
Um solavanco acorda Políbio horas depois. Ele se levanta e percebe que foi vestido com seus antigos trajes azuis de Filho de Gandhy, com os quais costumava se apresentar em cima do trio 50 anos antes. Em seguida, Políbio percebe que está em movimento: ele chega até uma balaustrada e percebe que está em cima de um trio elétrico — não um trio elétrico qualquer, mas o maior e mais brilhante trio elétrico já visto na história da cidade, movendo-se silenciosamente pela Rua Chile completamente vazia e iluminando com força seus arredores.
Então, como uma miragem, Tora ascende ao topo do trio com um traje branco extremamente elaborado. Políbio, até então assustado, parece começar a entrar de novo pelo transe provocado por ela. Tora caminha devagar até a ponta do trio e vê a avenida completamente vazia. Ela pega o microfone, respira profundamente e grita com toda a sua força: “EU FALEI FARAÓ!”
Silêncio absoluto. Tora se apruma, respira um pouco mais e grita ainda mais alto que antes: “EU FALEI FARAÓOOO!”. Novamente, o silêncio. Tora vira-se para trás e vê Políbio olhando para ela, com um misto de encantamento e terror. Ela sorri, volta-se para a avenida e tira do fundo da sua alma a força para gritar mais alto que nunca: “EU FALEI FARAÓOOOOOO!”
Então, lá à distância, ela ouve uma resposta quase imperceptível: “Êeeee, faraó”. Os olhos de Tora se iluminam e ela abre um sorriso majestoso. Os meninos da Casa de Oxumarê sobem ao trio com seus timbales, tambores e bumbos. A bateria inicia uma percussão fortíssima, envolvente, e Tora começa a cantar “Faraó, Divindade do Egito” gloriosamente enquanto as pessoas vão chegando à avenida, impressionadas com aquela visão belíssima e impossível.
“Faraó, Divindade do Egito”, Olodum – É a convocação de Tora para a cidade — inspirada no fato de que, ao menos em Salvador, é impossível cantar “Eu falei faraó” sem que alguém responda de imediato “Êeeee, faraó”. Em seguida, entra a percussão dos meninos da Casa de Oxumarê e inicia-se o transe gradual da cidade, com o povo chegando na avenida.
Políbio também se deixa levar pelo ritmo e, ao chegar na beira do trio, é recebido com fanfarra e aplausos pelos foliões. As pessoas começam a chegar de todos os cantos da cidade: ricos e pobres, brancos e pretos, velhos e jovens, todos atraídos pela ressurreição de Tora e por aquele momento de absoluto frenesi coletivo. Todos dançam e se mexem loucamente, e Tora comanda a multidão com absoluta maestria, como se estar no poder daquela forma tivesse o efeito de uma droga estimulante no seu corpo. Rapidamente, torna-se impossível ver o chão: a avenida está absolutamente lotada. A cidade inteira está aos pés de Tora.
A música acaba e a multidão explode em palmas e gritos. O trio estaciona na beirada da Praça Castro Alves para ser visto pelas cinco milhões de pessoas presentes. Tora chama Políbio e entrega a ele uma guitarra baiana, pedindo que ele faça o que faz de melhor. Políbio, de olhos vidrados, canta os versos iniciais de “Chão da Praça” com maestria, a multidão atenta. Ele encosta os dedos na guitarra e inicia um solo que leva todos ao delírio; em seguida, ele e Tora dividem os vocais da música, como se nem um dia sequer tivesse passado nos últimos 50 anos.
“Chão da Praça”, Moraes Moreira, Armandinho, Dodô e Osmar – O clímax de tudo. Quem começa cantando é Políbio, que proclama os versos iniciais e, em seguida, faz um elaboradíssimo solo de guitarra baiana. Em seguida, Tora e Políbio entoam juntos boa parte da música, até que ele começa a se desprender do transe e perceber a iminente destruição de tudo. A versão da música no filme é parecida com essa aqui linkada, mas com uma percussão mais vibrante; seu final caótico é multiplicado por 100 na tela, já que o verso final (“balança o chão da praça, ôoooo”) é repetido ainda mais vezes, mais rápido e mais forte, até ser interrompido bruscamente pela ação de Políbio.
Os meninos da bateria batem mais forte que nunca, e a multidão ensandecida pula sem parar. O chão começa a tremer. Políbio e Tora cantam como nunca, e tudo vai adquirindo um ritmo cada vez mais frenético, mais pulsante, mais delirante, conforme os dois cantam o verso “balança o chão da praça, ôoo” centenas de vezes, em sequência, e o chão treme mais, e o povo pula, e os dois cantam, e os meninos batem, e todos cantam junto, e a terra começa a chacoalhar, e Políbio percebe que há algo de errado, e Tora continua bradando, e o povo pula, e os meninos batem, e Políbio percebe que o chão vai ceder, e a Cidade Alta cairá sobre a Cidade Baixa e todos morrerão, e todos cantam e dançam e despejam suas dores, e Tora rege a multidão, e Políbio grita para que os meninos desçam do trio, rápido, e o povo continua a pular loucamente, e Tora a gritar, e Políbio se joga na cabine do motorista e puxa o freio de mão, e o trio despenca pela ribanceira atrás da praça, descendo desgovernado pela Ladeira da Montanha e se espatifando na Cidade Baixa. Tela preta.
Na escuridão, ouvimos a voz de Tora repetir várias vezes, como um mantra: “Lembre de mim. Lembre de mim. Lembre de mim”. E a voz de Políbio responde, também repetidamente: “Eu lembro. Eu lembro. Eu lembro”. As duas vozes se sobrepõem e se confundem, tornando-se, eventualmente, uma coisa só.
QUARTA-FEIRA DE CINZAS
Políbio abre os olhos em meio ao silêncio absoluto. Extremamente machucado, ele mal consegue se mover pelos escombros do trio despedaçado. Políbio vai se arrastando pelas ferragens até encontrar Tora, desacordada, talvez morta. Reunindo todas as forças, ele a pega nos braços e tenta reanimá-la, sem sucesso. Ele olha para a filha e uma lágrima cai do seu rosto ensanguentado.
Então ele vê: à distância, em meio à completa escuridão, uma faixa luminosa vai se aproximando dos escombros do trio. Aos poucos, Políbio percebe que é a multidão, com tochas e luzes, marchando em direção a ele e Tora e iluminando a cidade à sua volta.
Pode ser uma procissão. Pode ser uma turba revoltada com sede de sangue. Para Políbio, não importa: pela primeira vez em tanto tempo, a cidade está, enfim, acesa. Ouvimos os coros iniciais de “Deixa a Gira Girar” enquanto fechamos no rosto de Políbio sendo gradualmente iluminado pelo fogo. Ele olha para a luz e um sorriso quase imperceptível surge em seu rosto. Corte para a tela preta.
“Deixa a Gira Girar”, Os Tincoãs – A Gira, na Umbanda, é a reuniào de vários espíritos que se incorporam numa reunião; a obra-prima dos Tincoãs, nesse sentido, é evocada para referenciar o espírito de Tora, ou das múltiplas Toras , que para sempre terão de pairar sobre a cidade. Os coros iniciais da música são pano de fundo para o plano final, do rosto de Políbio sendo gradualmente iluminado pelo fogo e sorrindo; no exato momento em que entra a percussão, aos 0:47, a tela fica preta, e os créditos começam a subir quando entra o primeiro verso.
Oscar Tapes
Antonio Pitanga: A performance de Pitanga é menos chamativa e mais sutil que a da sua parceira de cena, mas igualmente potente na sua quietude. Sua Oscar Tape está na cena inicial, do diálogo com o velho, em que Políbio exibe uma completa desesperança ao falar do futuro da cidade e chega a expressar seu desejo pela destruição de tudo..
Carla Perez: Carla está para Baila assim como Marlon Brando está para Apocalypse Now: seu tempo de tela é relativamente curto, mas sua presença é sentida a cada instante; quando ela finalmente surge em toda a sua glória, a tela treme. A cena escolhida é o início de “Faraó”, em que ela, ensandecida, grita para a avenida completamente vazia, convocando o povo para a morte.
Xavier Dolan: Cena em que ele morre.
Trilha Sonora
(Nota: a playlist do Spotify está incompleta porque algumas das músicas não estão disponíveis na plataforma; nos casos delas, há um link para o YouTube. Para quem preferir, a playlist completa do filme está disponível no YouTube.)
“Girar o Mundo”, Cátia Guimma
Sim, a letra da música tem relação com a temática do filme (“me esquecer não vai, nem por um segundo…”). Mas há somente uma razão para ela abrir o filme e é essa aqui.
“Sonhos Marginais”, Pepeu Gomes
A música que acompanha os créditos iniciais cria uma atmosfera romântica, mas ao mesmo tempo levemente sinistra, que dá o tom para todo o resto do filme. É a versão soteropolitana de um Bond theme.
“O Seu Amor”, Caetano, Gil, Gal e Betânia
A belíssima canção dos Doces Bárbaros é performada por Políbio e Tora — ele assume as vozes de Caetano e Gil, enquanto ela assume as vozes de Gal e Betânia. Há uma atmosfera meio “Sinfonia da Necrópole”, pois a música é entoada durante um delírio de Políbio com o cadáver reanimado da velha Tora, em meio a um necrotério.
“Depois que o Ilê Passar”, Ilê Aiyê
É a música performada pelos meninos da Casa de Oxumarê durante a visita de Políbio ao terreiro, e também já cria a ponte para o final climático no trio elétrico: aqui, pela primeira vez, a percussão dá alguma vida ao olhar dos personagens, simbolizando o aspecto quase extasiante da música ao longo do filme.
“Swing da Cor”, Daniela Mercury
As fortes batidas da canção de Daniela dão o tom da cena na festa dos ricos, em que Políbio persegue o Forasteiro e, em seguida, depara-se com mais uma visão da jovem Tora. Há uma correlação com a temática do filme, já que Daniela é uma cantora branca cantando sobre o candomblé com o acompanhamento de uma batida característica do Olodum.
“Pra Você”, Gal Costa (ouvir no YouTube)
O ponto de virada do filme, e o momento em que toda a atmosfera de sonho ou alucinação dá um salto. Tora desce da fortaleza como um feixe de luz e performa a música para Políbio, mas a voz que ouvimos não é de Carla Perez, e sim de Gal Costa.
“Faraó, Divindade do Egito”, Margareth Menezes
É a convocação de Tora para a cidade — inspirada no fato de que, ao menos em Salvador, é impossível cantar “Eu falei faraó” sem que alguém responda de imediato “Êeeee, faraó”. Em seguida, entra a percussão dos meninos da Casa de Oxumarê e inicia-se o transe gradual da cidade, com o povo chegando na avenida.
“Chão da Praça”, Armandinho e Moraes Moreira (ouvir no YouTube)
O clímax de tudo. Quem começa cantando é Políbio, que proclama os versos iniciais e, em seguida, faz um elaboradíssimo solo de guitarra baiana. Em seguida, Tora e Políbio entoam juntos boa parte da música, até que ele começa a se desprender do transe e perceber a iminente destruição de tudo. A versão da música no filme é parecida com essa aqui linkada, mas com uma percussão mais vibrante; seu final caótico é multiplicado por 100 na tela, já que o verso final (“balança o chão da praça, ôoooo”) é repetido ainda mais vezes, mais rápido e mais forte, até ser interrompido bruscamente pela ação de Políbio.
“Deixa a Gira Girar”, Os Tincoãs
A Gira, na Umbanda, é a reuniào de vários espíritos que se incorporam numa reunião; a obra-prima dos Tincoãs, nesse sentido, é evocada para referenciar o espírito de Tora, ou das múltiplas Toras , que para sempre terão de pairar sobre a cidade. Os coros iniciais da música são pano de fundo para o plano final, do rosto de Políbio sendo gradualmente iluminado pelo fogo e sorrindo; no exato momento em que entra a percussão, aos 0:47, a tela fica preta, e os créditos começam a subir quando entra o primeiro verso.
Fotografia
Figurino
Notícias e Imagens
Confira todas as notícias da temporada e imagens de campanha nas revistas Visions e That’s Gossip.
Prêmios
Total de 10 prêmios e 39 indicações. Clique aqui para ver todos os prêmios da 4ª temporada.
4º Festival de Cannes
- Palma de Ouro (venceu, empate com Kisses of a Woman)
- Queer Palm (venceu)
Festival de La Habana
- Primer Premio Coral (venceu)
1º MTV Movie Awards
- Atuação Cômica, Carla Perez (venceu, empate com Catherine O’Hara por Remind Me of The Stars)
- Filme (indicado)
- Herói ou Heroína, Antonio Pitanga (indicado)
- Vilã ou vilão, Carla Perez (indicada)
- Luta, Antonio Pitanga vs. Carla Perez (indicados)
- Momento Musical, “Chão da Praça” (indicado)
- Momento que poderia ser meme: Tora gritando “eu falei faraó” em cima do trio elétrico (indicado)
- Pôster (indicado)
4º Globo de Ouro
- Filme Estrangeiro (indicado)
- Ator de Comédia ou Musical, Antonio Pitanga (indicado)
- Atriz de Comédia ou Musical, Carla Perez (indicada)
- Roteiro, Manuela Dias (indicada)
- Trilha Sonora, Pepeu Gomes (indicado)
4º Screen Actors Guild Awards (SAG)
- Elenco de Dublês (venceu, empate com Odysseia)
- Ator, Antonio Pitanga (indicado)
4º BAFTA
- Ator, Antonio Pitanga (indicado)
- Ator Coadjuvante, Xavier Dolan (indicado)
- Roteiro Original, Manuela Dias (indicada)
- Filme em Língua Não-Inglesa (indicado)
- Fotografia, Hoyte van Hoytema (indicado)
- Figurino, Albert Wolsky (indicado)
- Direção de Elenco (indicado)
4º Oscar
- Filme (indicado)
- Ator, Antonio Pitanga (indicado)
- Roteiro Original, Manuela Dias (indicada)
- Figurino, Albert Wolsky (indicado)
- Trilha Sonora de Compilação, Pepeu Gomes (indicado)
Premiações da Crítica
- Filme (1 prêmio)
- Direção, Monique Gardenberg (1 prêmio)
- Ator, Antonio Pitanga (2 prêmios)
- Atriz, Carla Perez (1 prêmio, 1 vice)
- Filme Estrangeiro (1 prêmio, 1 vice)
- Roteiro, Manuela Dias (2 vices)
Temporadas Posteriores
Nota: por ser uma coprodução brasileira, Baila competiu também na quinta temporada e recebeu um total de 6 prêmios e 13 indicações. Clique aqui para conferir todos os prêmios e indicações da temporada.
Festival de La Habana
- Primer Premio Coral (venceu)
Festival de Lima
- Competencia Oficial
1º Festival do Rio
- Troféu Redentor de Melhor Ator, Antonio Pitanga (venceu)
- Troféu Redentor de Melhor Fotografia, Hoyte van Hoytema (venceu)
1º Prêmio Guarani
- Figurino, Albert Wolsky (venceu)
- Atriz, Carla Perez (indicada)
- Ator, Antonio Pitanga (indicado)
- Fotografia, Hoyte van Hoytema (indicado)
- Trilha Sonora, Pepeu Gomes (indicado)
1º Grande Prêmio do Cinema Brasileiro
- Atriz, Carla Perez (venceu)
- Direção de Arte, Maíra Mesquita (venceu, empate com Algumas Milhas a Oeste de Tordesilhas)
- Ator, Antonio Pitanga (indicado)
- Trilha Sonora, Pepeu Gomes (indicado)
Críticas do Júri
100
Joseph Wilker Film Critics Association
Baila é um filme brasileiro de grande qualidade. Antonio Pitanga em uma atuação excelente ao lado da diva do axé Carla Perez – a eterna cinderela baiana. Um romance que ultrapassa a barreira temporal. O filme permite o telespectador a viver o carnaval de Salvador. Um must see sobre a cultura brasileira!
98
Deep Sea Film Critics Society
Um filme não precisa ser “importante”, pra ser importante, e Baila é a prova disso, ao ser, antes de mais nada, um filme extremamente divertido de assistir. A trama completamente deslocada da realidade e praticamente recortada de um filme antigo do James Bond é um deleite surreal trazido para a realidade brasileira, que trás consigo todos os maiores e melhores clichés desse tipo de suspense. Os planos mirabolantes de Tora expõe a personagem em toda sua glória histriônica de grande vilã: raptos, mudança de aparência, um jeito suicida de salvar o mundo pela destruição. Debaixo do puro entretimento do formato já conhecido, entretanto, se escondem aspectos críticos (sempre presentes no cinema brasileiro). Para além de um discurso óbvio, o filme evita didatismos e deixa a própria estrutura lidar com essas questões. Descrevendo uma Salvador de beleza decadente e envelhecida, banhada na artificialidade do neon, o filme fala dos pesos das grandes mudanças, das hipocrisias sociais, e da solidão da alienação. A personagem de Tora conta em si toda a problemática racial e social, e sua monstruosidade descreve um arco claro de degeneração neste aspecto. A trilha automaticamente reconhecível podia virar na mão de muitos um alívio cômico, mas o axé vem, ao invés disso, com toda amor honesto e com todo o orgulho para dar brilho novo à cidade pelo carnaval. Por fim, o filme merece todos os destaques e todos louros por seu aspecto mais impressionante: fazer sentido de uma absoluta salada tonal de referências e características completamente dispares.
95
Rubens Ewald Son Film Critics Association
Um filme que se passa na cidade de Salvador distribuído pela A24 e produzido em Hollywood. O anúncio do filme foi um daqueles momentos que a gente levanta as sobrancelhas, dá um suspiro e torce por menos estereótipos e uma alternativa à clássica “estética latina” do cinema norte-americano. Mas logo o nome de Monique Gardenberg, soteropolitana, foi o bastante para adentrarmos em uma zona de confiança. E assistindo o filme foi bom admitir que estávamos errados com a primeira impressão.
O filme já nos insere no seu universo de forma arrebatadora com fortes referências culturais brasileiras na trilha e na abertura, essa última sendo um uso genial da estética futurista de Hans Donner, já consolidada como tesouro nacional. Esses elementos interagem com a atmosfera de suspense e ficção como um pastiche brilhantemente executado que reflete a alma do filme enquanto investigador das relações do espaço urbano com o tempo.
Ainda sobre isso, o roteiro de Manuela Dias insere nosso protagonista nos diversos espaços da Salvador quase apocalíptica de forma a observar as pessoas que vivem nesses espaços, as subculturas da cidade deixando para trás qualquer observação rasa da cidade que se poderia ter em um filme de Hollywood. Assim, Políbio – nosso herói – serve como um termômetro dos locais por onde anda a partir de suas interações com as outras pessoas do recinto.
Mas se Políbio nos fala sobre os espaços da Salvador de 2050, Tora nos sinaliza o contraste dos tempos da cidade. Como alucinação de Políbio, ela é a nostalgia dos bons tempos, uma seleção de sentimentos da cidade que nos trazem alegria e saudades. Porém com a grande revelação, Tora nos comunica uma Salvador do ano 2000 lotada de contradições e abismos tão aterrorizantes quanto os de 2050.
É importante destacar Carla Perez no papel como referência direta ao infame Cinderela Baiana. Aqui ela atua autoconsciente da ligação que o filme tem com sua imagem e entrega um Tora perfeita para o universo do filme. Antonio Pitanga também se destaca com a sutileza de seu personagem e brilha em todos os momentos conseguindo dosar os momentos em que comanda e em que apenas sinaliza a cena. Já Xavier Dolan como o Justiceiro atua apenas como link entre Políbio e Tora sendo um personagem necessário porém com um desenvolvimento limitado e em parte frustrante, mas nada que prejudique a história.
Quanto à parte técnica, o filme todo esbanja uma fotografia impecável, trilha marcante e direção de arte exuberante, porém o ápice acontece na cena do trio elétrico com o Carnaval apocalítico. Esse êxtase do fim da cidade possui uma direção tão magnética que é impossível não se arrepiar com a maestria com que Monique e sua equipe registram as sensações físicas e metafísicas da cena e as traduzem na tela.
Baila com certeza figura entre os melhores do festival e consegue além disso figurar entre uma das melhores representações do Brasil no audiovisual internacional.
93
San City Film Critics Association
Ambientado numa Salvador futurística, Baila traz um ar renovado pro gênero sci-fi. Monique Gardenberg nos leva numa viagem cheia de cultura e reflexões sobre a passagem do tempo e como somos sujeitos à algo abstrato mas tangível, que muda tudo e ao mesmo tempo nada. Inclusive, o cuidado com os detalhes sobre a cultura baiana é um ponto forte do longa, misturado com suspense e todas as ideias sobre como seria Salvador em 2050 e as mudanças que o futuro traria pra cidade são bastante interessante. Além da imersão da incrível trilha sonora—você realmente sente que está vivendo um Carnaval, mesmo que diferenciado, ao passar do filme—, o roteiro de Manuela Dias é forte e certeiro. Um filme espetacular, com um elenco afiado, e não tenho a menor dúvida de que virará referência do gênero no futuro.
88
Saint Catherine Film Critics Society
Baila é um filme que abusa de todos os exageros, e por incrível que pareça funciona muito bem exatamente por isso. Com isso quero dizer desde a representação de uma Bahia distópica escura e com neon, fugindo totalmente da visão que se tem de um cenário brasileiro até a escolha de Carla Perez como atriz principal mesmo após seu fracasso em Cinderela Baiana, e aqui ela repete os mesmos erros de atuação mas que funcionam devido ao roteiro e Xavier Dolan que seu deslocamento do resto do filme só melhorou o tom caricato da situação que seu personagem se envolve. Meu destaque especial fica para a sequência de “Domingo” com swing da cor tecendo o ritmo frenético e muito bem colado por todas os seus significados.
Talvez o maior problema é que o filme ilustra muitas problemáticas mas de fato não desenvolve nenhuma delas e acabam que ficam como pano de fundo da cena quando poderiam dar profundidade aos personagens, o uso de símbolos aqui extremamente importantes para entender o cenário e cultura descritas na narrativa mas ainda me pareceu um tanto raso.
80
Associación de Críticos de Cine Pastuzo
Há 25 anos Caetano Veloso já cantava que em Salvador “tudo ainda é construção, mas já é ruína” e a cidade futurista e absurda de Baila incorpora, com estilo totalmente inovador, as palavras do cantor baiano. As referências ao passado continuam com escolhas inusitadas no elenco. Carla Perez, que atuando é uma grande bailarina, e Antônio Pitanga, que 60 anos depois parece ainda não ter desencarnado o capoeirista de “Barra Vento”, seu filme de estreia, autoconscientes, terminam sendo escolhas certeiras. Os excessos de todas as naturezas são incríveis ao entregar ao espectador uma experiência única, mas também pesam contra o filme quando trazem questões que não conseguem ser devidamente respondidas. Baila se arrisca, extrapola os limites do absurdo e cria algo, pela sua própria definição, “imorrível”.
78
Cinema Contestado – União Catarinense de Críticos de Cinema
Baila abraça o carnaval e a cidade de Salvador com uma atmosfera distópica. Sonhos, flashbacks e realidade se misturam num ritmo acelerado, marcados pelo ritmo do calendário do feriado. A criativa narrativa consegue prestar uma homenagem às referências que toca e guia o público em uma memorável e assombrada fantasia carnavalesca.
Apesar dos êxitos, Baila incorre em questões sociais delicadas, as quais não parece acessar com o cuidado necessário. A figura de Tora pode ser interpretada de maneiras bem problemáticas, especialmente considerando a cena final: uma mulher “embranquecida” artificialmente, acompanhada um grupo de jovens percussionistas negros, liderando uma multidão indistinguível que a segue em transe até depois que o trio elétrico despenca ladeira abaixo.
Entendemos que a equipe de produção tinha em vista uma alusão ao carnaval de Salvador que transcendia esses problemas. Contudo, a temática merecia ser repensada ou trabalhada com mais alertas à audiência.
77
Oz Film Critics Society
A co-produção entre Brasil e EUA que exalta Salvador gerou burburinho e expectativa e não é pra menos. O destaque de “Baila” é sem dúvida o design de produção. A Salvador futurista, decadente, misteriosa, nostálgica e abandonada nos convida a querer saber mais de quem vive ali. O tom sobrenatural e sombrio dos primeiros minutos é hipnotizante, uma pena que o filme não siga por esse caminho.
O filme traz um misticismo que poderia ser explorado de forma crucial para a narrativa e não apenas para servir de ferramenta na criação uma atmosfera enigmática. Quando as perguntas começam a ser respondidas é uma miscelânea de reviravoltas sem originalidade e sem força para justificar as ações de alguns personagens.
De qualquer modo, vale a pena conferir se quiser ser inebriado por uma realidade não vista antes, mas prepare os ouvidos, pois a trilha sonora tem um volume ensurdecedor.
77
Gotham City Film Critics Secret Society
Baila é um filme brasileiro com uma alma realmente brasileira, trazendo o que a gente faz de melhor: festa. A trilha te faz entrar diretamente em Salvador, fazendo você dançar mesmo que sentado na poltrona. A fotografia é um dos pontos mais bonitos do longa, sendo toda ambientada em um período noturno, ela consegue utilizar essa escuridão de ótima forma em certos momentos. Toda a concepção de Salvador em um futurismo não tão futuro, com sua dualidade, é algo notável. As revelações do terceiro ato podem não convencer tanto e ser até um pouco duvidosas, mas a experiência chega a ser interessante. As atuações não trazem nada de muito grandioso, mas ainda assim fazem um ótimo trabalho no conjunto. Um beijo Xavier Dolan. Sou faraó sou faraó.
60
Rio Film Critics Circle
Com grandes nomes na produção, Baila surpreende por sua proposta renovadora porém se perde ao tentar justificar os meios – que talvez ficariam melhor sem explicações.
Começarei esta review por enfatizar duas coisas que eu apreciei demais do filme: o primeiro ato – que nos oferece um produto de extrema qualidade – e o casting, que nos traz o grande Antonio Pitanga e também um certo estranhamento quando vemos o nome de Carla Perez, que acaba por dar seu nome e desconstrói a imagem que tinham dela como atriz.
O filme pós-primeiro ato entra em um espaço em branco, onde pode-se fazer muito, mas o que é feito parece ser vazio – digo isso, por exemplo, em relação a introdução da Casa de Oxumarê que depois vamos descobrir o porquê e esse porquê é algo irrelevante.
Sobre as revelações: apenas achei que foram escolhas duvidosas, porém chegaram até convencer – nunca totalmente – em certo ponto.
A vingança e o arrependimento tardio de Tora é algo que não faz sentido, pois destinada a destruição, ela faz do psicológico e da vida da filha um inferno – fazendo-a passar por um branqueamento e cirurgias mil – para no final de tudo ficar desistir? É uma das perguntas retóricas que ficam na minha cabeça sobre o filme.
Comentários do Público
10
boulos50
histórico
10
Supla de Sunga
Belo, vibrante, mágico. Carla Perez tem o comeback mais impressionante da história do cinema.
9,5
União de Críticos do Interior de São Paulo
Baila funciona como sucessor espiritual de Cinderela Baiana. Se em 1998 a Carla Perez tentava se lançar enquanto estrela de cinema no auge de sua carreira, aqui ja bem estabelecida ela tem consciência total de que ela representa uma sátira de si mesma, vemos uma atuação exagerada e que poderia facilmente cair no que chamamos de mal gosto, mas funciona de forma genial. Diferente de seu predecessor que ao ser produzido não sabia que a recepção seria tão dura, Baila se aproveita de modo inteligente da estrutura fantastica para criar um conto de fadas épico pós apocalíptico trasheira. Baila diferente de seu predecessor que se levava a serio demais e acabou falhando por isso, (e também sendo lembrado até hoje pelo mesmo motivo) se arrisca ao se apropriar de elementos do Camp, presentes em diversos níveis ao longo do filme. Antonio Pitanga consegue construir com uma atuação com ares de Nicolas Cage uma performance que não sabemos se é seria demais ou debochada demais, mas no que fim escolhemos amar. O desenvolvimento da personagem de Carla Perez basicamente não existe, mas no fim quem liga? Eu to aqui pela cena do “Eu falei Faraó”, é o espetáculo, o axé. É um conto de fadas moderno sobre o que a busca pela fama pode fazer com uma pessoa? Sim. Mas também é sobre uma sociedade que se construiu e viu sua ruína no espetáculo, esse mesmo espetáculo que lhes mostra a possibilidade de se sentirem vivos de novo.
8
coelhinha_16
A metáfora fantástica e futurista de uma Salvador em pedaços com o conceito de memória é magistralmente tecida sob a direção perspicaz de Monique Gardenberg. Baila nos leva em uma viagem quase psicodélica pelas ladeiras históricas e pelo calor tropical mas, ao tentar se justificar, se perde um pouco em seus planos mirabolantes. Talvez nem tudo precisasse de uma explicação, talvez só um pouco de fé no espectador já bastaria para criar e manter uma aura coerente e até mesmo mais crível. Ao querer demais, o filme escorrega mas seus pontos positivos o mantém nos trilhos. A atuação de Pitanga é fenomenal e merece prêmios e mais prêmios por nos guiar na miríade colorida de um carnaval de embates intrínsecos à construção de seu personagem.
8
Trabalhadora Chinesa Explorada pela Constância Productions
O que é bom pra moral, Dona A24? Foi você quem produziu esse filme? ~A24 responde baixinho que não seria inteligente a esse ponto~ É óbvio que não! É lógico que não!
6
Sushi
Miau Gloria Perez disse uma vez miau “Pobre daquele que não sabe voar” miau e eu não soube miau
2
Dementador
Apavorante no pior dos sentidos
