de Alice Rohrwacher
produzido por Constância’s Haus of Bürger
com Lupita Nyong’o e Daniel Day-Lewis
20 de junho de 2021 (Especial de 1 Ano)
🇮🇹 Itália, 🇬🇧 Reino Unido
Melodrama / Romance
Sinopse: Professor Burton (Day-Lewis) tem sua solitária e pacata rotina tornada em caos quando a Condessa Marsani (Swinton) o força a alugar o apartamento do segundo andar de seu palazzo, e o filho dela (Driver) se apaixona por Isola, uma imigrante ilegal (Nyong’o).
Nota: esta é uma versão estendida e remasterizada de Attraversato (2020). Clique aqui para ler a obra original e conferir suas críticas, notas e premiações.
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Ficha Técnica
Direção: Alice Rohrwacher
Roteiro: Alice Rohrwacher, François Ozon
Produção: Constância’s Haus of Bürger
Fotografia: Heléne Louvart
Música: Philippe Rombi
Figurinos: Arianne Phillips
Distribuição: Netflix
Plataforma: Constant+
Elenco
Lupita Nyong’o como Isola
Adam Driver como Mario
Daniel Day-Lewis como Prof. Burton
Tilda Swinton como Condessa Marsani
Nota do Produtor
Há um ano, Attraversato vencia 5 Óscares da Academia, incluindo Melhor Filme e Melhor Direção para Alice Rohrwacher. O filme teve uma passagem brilhante pela sua temporada, sendo reconhecido com a Palma de Ouro na ocasião da sua estréia no 2º Festival de Cannes. O inesquecível trabalho visual e a impactante história de amor de uma imigrante dividida entre sua terra natal e sua nova casa, contada através do ponto de vista inconfundível de Rohrwacher tornaram este filme um clássico instantâneo e absoluto.
Apesar do consenso positivo da crítica e a performance arrasadora nas premiações, alguns pecados não foram perdoados ou esquecidos. Esta re-edição vem com a intenção de restaurar o filme à seu espírito original, delineando melhor os personagens, potencializando as performances de medalhões do cinema como Tilda Swinton e Daniel Day-Lewis, e tornando a narrativa mais complexa e rica a partir de novas tecnologias capazes de gerar imagens ainda mais potentes e visualmente preciosas.
Proposta Estética
Alice Rohrwacher desenvolve aqui uma fábula dentro da tradição já delimitada por suas obras amteriores: uma mistura de um neo-realismo áspero com uma suspensão onírica. Entretanto aqui François Ozon aporta um elemento novo de homenagem aos melodramas de Luchino Visconti da década de 1970 (“Violência & Paixão” principalmente).
Helene Louvart retoma a parceria de longa data na fotografia, prezando pelo uso da luz natural, película 16mm e cores quentes e vivas. O palazzo do Professor Burton foi projetado como uma típica construção em estilo barroco do sul da Itália, enquanto que o apartamento remodelado da Condessa Marsani, segue um estilo retro-futurista. O figurino tem como inspiração a coleção de 1971 de Yves St. Laurent, “The Scandal Collection”.
Narrativa
Com a intensificação das imigrações no Mediterrâneo, as ilhas italianas se tornaram regiões altamente militarizadas, no intuito de barrar entradas indesejadas na Europa. No entanto, milionários de todo o mundo têm sua entrada facilitada, superlotando praias e hotéis de luxo.
Os créditos iniciais se desenrolam sobre a água do mar cada vez mais iluminada pela luz dos primeiros raios de sol que surgem no horizonte. Luzes dos fortes holofotes de barcos da guarda costeira ou de fogos de artifício de cruzeiros turisticos eventualmente criam um jogo de reflexos de varias cores e padrões sobre as ondas. Não os vemos, vemos apenas as ondas, mas é possivel percebe-los fora do quadro pela ambientação sonora da cena. Isola (Lupita Nyongo) surge do meio das ondas que se quebram na praia e vem em direção à terra. Ela caminha sem rumo pelas vielas vazias da cidade velha, subindo ladeiras de paralelepipedo e se abrigando em reconditos escuros quando a ronda noturna passa pelas ruas principais. Em determinado momento uma porta de uma casa se abre e ela entra.
Prólogo
O Prof. Burton (Daniel Day-Lewis) é um historiador inglês aposentado que tem uma vida solitária em um palazzo com vista para o mar no topo da colina onde esta a cidade, junto à praça da Iglesia di San Valentino. Ele desperta rotineiramente as oito horas da manhã, retoca sua barba perfeitamente com a navalha, pentea seu cabelo, veste seu terno de alfaiataria e toma seu café da manhã na biblioteca ao som de um de seus discos com sinfonias de Mahler. A calma daquela manhã é interrompida pelo soar da campainha. Antonina, a governanta da casa, atende a porta e informa que o Professor não está a receber visitas. A rica e vulgar Condessa Marsani (Tilda Swinton) não parece se importar com a informação e, frente a resistência de Antonina, pede para usar o telefone da casa.
A Condessa entra sob juramento de não incomodar o Professor, mas assim que fica sozinha começa a bisbilhotar pela casa. Professor Burton quase derrama seu chá ao vê-la entrando pela porta da biblioteca, e grita por Atonina, sem resposta. A dama da sociedade se apresenta e lhe informa sobre seu desejo em alugar o apartamento desocupado no segundo andar do palazzo. Burton está decidido a não ter inquilinos, mas a Condessa não aceita um não como resposta. Antonina entra na biblioteca em meio ao impasse e o Professor pede que acompanhe a Condessa até a porta. Não tarda até que a campainha soe novamente, Antonina vai atender a porta enquanto a Condessa responde sarcasticamente ao Porfessor que não necessita que a acompanhem, sabe muito bem o caminho de saída.
Antonina retorna acompanhada pelo jovem Mario (Adam Driver loiríssimo), filho da Condessa, que se impressiona pela biblioteca. A atitude entusiastica e ingênua do jovem causa uma transformação nas intenções do Professor, o que a mãe logo percebe e passa a usar a seu favor. As visitas da Condessa e Mario logo se tornam constantes, e apesar de interromperem a vida pacata do Professor, ele encontra no jovem um novo interesse para a vida. O laço entre eles se fortalece de uma maneira que logo podem discutir as questões histórico-sociais que os apaixonam sem se deixar afetar pelo desinteresse da mãe. Passado alguns dias, ao mostrar fotos tiradas por ele em sua juventude, Burton se vira a Condessa, que lê uma revista de moda e fuma alheia a conversação entre os dois, e concede a ela o direito de alugar o apartamento.
A Condessa inicia reformas infernais no apartamento, destruindo de vez a vida pacata do Professor, além de se tornar uma preença constante no palazzo, no qual ela fazia uso das dependências e empregados de Burton como se fossem seus. Durante uma dessas visitas, ao cair da tarde, Mario observa pela janela, enquanto o Professor discorre sobre o processo de descolonização após a Segunda Guerra. O jovem vê uma mulher se sentar em um banco na praça em frente ao palazzo. Ele acredita já ter visto ela outros dias ali.
Noites de Verão
Isola (Lupita Nyongo) é uma das imigrantes ilegais que conseguiu driblar o bloqueio e se estabelecer na Itália. Ela trabalha na casa de uma viúva afro-americana que a abriga da polícia de imigração e dos militares. Todos os dias ao final da tarde ela se arruma e vai até a praça da Catedral, onde se senta em um banco até as 21h, quando começa a noite. Passado alguns dias a observando apaixonado pela janela, Mario cria coragem de aproximar-se.
Isola reage com desconfiança às perguntas de Mario, mas apesar disso permite que ele a acompanhe no dia seguinte. A final, ele é a única pessoa que parece se importar com ela naquela ilha. Os encontros continuam a acontecer e aos poucos a moça começa a não tangenciar mais as perguntas e revelar sua história: as dificuldades que passou para imigrar, atravessando o deserto do Saara e depois o mar Mediterrâneo, e seu grande amor por um homem, Meddur, que conheceu na viagem. Eles foram colocados em barcos separados na hora de atravessar o mar, mas prometeram que ao chegarem na ilha, eles se encontrariam naquela praça – que haviam visto em um folheto turístico envelhecido – custe o que custar. Por este motivo todos os dias ela se sentava lá na esperança de reencontrá-lo. A informação veio tarde demais, Mario já estava apaixonado por Isola.
A Condessa Marsani entra na biblioteca de sopetão. Professor Burton pode notar o desapontamento da aristocrata, quando deixa de trabalhar na restauração de um jogo antigo de prataria e a olha diretamente. Ela se dirige até a janela, dizendo a ele que não tardou até Mario abandona-lo também. Burton a contesta dizendo que ele é jovem e precisa viver sua vida fora da biblioteca de um velho. A Condessa fuma e olha pela janela a praça vazia quando replica: Ele precisa é se meter em problemas. Mario tem uma necessidade inata de se envolver em qualquer coisa que renegue sua própria condição social. Professor confessa que era como ele quando jovem, no que ela lhe pergunta se também quase matava a mãe. Ele continua em tom confessional dizendo que não, pois sua mãe havia morrido quando ainda era criança. A Condessa se faz de entediada pelo tema e escapa com a desculpa de que tem um coquetel em alguns minutos, não sem antes convidar o professor para que a acompanhe. Ele se nega.
Mario e Isola deixam a cidade para passar um dia numa praia isolada. Caminham pela areia, se sentam nas pedras e, observando o mar, conversam sobre seus sonhos na vida. Mario conta a ela sobre sua infância nos Alpes Suiços, e como desde que passou a viver com sua mãe vive uma vida de nômade saltando de avião em avião, de Nova Yorka à Paris, de Paris à Rio, de Rio à Milão… Seu desprezo a esse estilo de vida o levou a juntar-se à resistência organizada e passar informações que conseguia através do pai, um poderoso empresário apoiador do governo facista que usava militarização da região como sua bandeira principal de campanha. Ele conclui dizendo que ela precisava saber de tudo isso antes que ele abrisse o coração e lhe revelasse que a ama. A reação de Isola é de espanto e confusão. A verdade é que ela está completamente dividida: ainda ama Meddur e tem esperança de reencontrá-lo, mas o afeto por Mario cresce muito potente dentro dela.
Isola se levanta em um impulso e volta correndo para a praia, ele a segue. O casal entra em um quiosque onde casais dançam ao som de música italiana ao vivo. A expressão dela se transforma, mascarando a tempestade que se havia formado dentro dela. A jovem se senta em uma mesa tentando performar normalidade. Ele se aproxima e a seduz a levantar-se e o acompanhar até a pista de dança ao som de “Un Giorno Come un Altro”. Mario tenta acalmar o coração aflito de Isola com a dança, ela não sabe bem como reagir e tenta acompanhar os passos lentos. Eles dançam abraçados e por um momento é como se o mundo não existisse ao redor deles, só a felicidade da companhia um do outro. Este momento termina quando Isola se dá conta que o Sol já se pôs no horizonte, e que ela não estava na praça esperando por Meddur.
Nuvens de chuva relampejam, enquanto Mario dirige o conversível em alta velocidade de volta para a cidade. Isola está furiosa por ele não se importar com algo que é tão caro pra ela. Aqui de certa maneira Mario age de maneira tão mesquinha quanto a mãe. Mario crê que é uma grande ingenuidade ela ficar esperando um homem eternamente, considerando que as chances de ele nunca aparecer são muito altas, quando ela tem outro que faria tudo por ela. A discussão é acalorada, inflamada pela adrenalida do automóvel que cruza as colinas azuladas como um raio. Ao entrarem na cidade ela pede que ele a deixe sair do carro, ela prefere caminhar sozinha até casa. Ele a observa se afastar pela rua, de dentro do carro.
Uma Vida em Segredo
Em um sonho, Professor Burton recorda cenas de seu casamento, seus primeiros anos de marido, como sua incapacidade de expressar seus sentimentos dificultava a relação com sua esposa, como tudo mudou quando eles descobriram que ela estava grávida e como tudo mudou novamente no momento que ela e o bebê morreram no parto.
Ele é acordado por batidas violentas na porta, uma tempestade cai do lado de fora. Ele está sozinho em casa e por isso vai diretamente atender o chamado. Encontra Isola carregando Mario coberto de sangue, ensopados pela chuva. Ele a ajuda a trazer Mario, quase desacordado, para dentro. Eles limpam e suturam os ferimentos enquanto ela conta o que passou: ao dirigir-se para casa Isola foi abordada por um facista que a tentou atacar. Mario, que a acompanhava de longe para que não se desse conta, interviu, lutando e o matando para salva-la. O Professor não demonstra surpresa apenas preocupação com as atitudes que serão tomadas pela polícia e pelo exército quando encontrarem o corpo. Ele, então, abriga os dois num quarto escondido, construído durante a Segunda Guerra Mundial para esconder subversivos que fugiam da polícia facista.
Não tarda para que a polícia vá até Professor Burton procurando por pistas do paradeiro de Mario. Ele os recebe de maneira a não levantar suspeitas, além disso, apenas ele sabe da existência do quarto secreto, nem mesmo os empregados mais antigos e confiáveis o sabem. Após a saída dos policiais ele sobe para o apartamento completamente redecorado da Condessa, encontrando Antonina trabalhando pra ela. Burton se enfurece e a confronta com a informação da visita da policia e com o fato de que o filho dela estava desaparecido por dois dias e ela não se importou de o procurar. Ela rebate com ainda mais fúria dizendo que ele não sabe o que é ter filhos para se preocupar. Ela revela que estava naquela ilha com Mario para fugir dos problemas causados pela associação dele com grupos políticos de esquerda. E acrescenta que ela está exausta (o diz num tom condescendente) e que, afinal, ele já é adulto e ela não pode impedi-lo de se envolver com criminosos e imigrantes ilegais. Ele se horroriza com a falta de empatia dela e secamente a informa que o filho dela está abrigado com ele no andar de baixo. Logo depois ele se retira, deixando a Condessa e Antonina sozinhas na gélida sala brutalista.
Passada uma semana, Mario está começando a se recuperar dos ferimentos, e Isola passa as noites dormindo com ele. O Professor Burton, depois de se informar com seus contatos no governo, alerta o casal sobre a questão da polícia e chegam a conclusão de que a melhor solução seria tirar Mario da ilha o quanto antes. Eles jantam juntos, numa despedida discreta, porém não menos elegante. A metade do jantar, a Condessa aparece, vestida fabulosamente e pede permissão para se sentar à mesa com eles, apesar de que não vai jantar com eles. Mario lhe apresenta Isola, e a Condessa tenta conter o desgosto. Isola tampouco se deixa afetar, pouco lhe importa a opinião daquela mulher. A mãe de Mario não consegue se conter e desabafa: depois de muito refletir e com muita tristeza ela se vê frente a uma única opção, a de renegar o filho e nunca mais vê-lo. Ela lamenta, gostaria de ser diferente, mas se considera fraca demais para romper o status quo. Ela pode sentir os olhares de pena dos três que se sentam à sua volta, ela há desnudado sua alma por completo. O silêncio é rompido quando a Condessa se levanta, se despede friamente e deixa o palazzo, segurando as lágrimas. Mario se põe a chorar e o Professor Burton o abraça de maneira paternal.
Mais tarde, naquela mesma noite, Mario e Isola dançam abraçados, na bibliotea mal iluminada, ao som de “Un Giorno Come un Altro”. Ela revela que está dividida entre ir com ele e ficar. Ele a responde que está fora de cogitação que ela o acompanhe, por uma questão de segurança, e promete que assim que pudesse retornaria para ela. Isola não parece convencida e o desapontamento transparece em seu rosto. Ele se curva para alcançar os lábios dela, e eles se beijam ternamente uma última vez.
Epílogo
Alguns anos depois, Isola continua a viver com Professor Burton. Ela dedica suas tardes a ler os livros da biblioteca e à restauração de obras de arte, por meio das quais se comunica secretamente com a resistência organizada e colabora com a imigração de compatriotas. Ao final da tarde, ela deixa o palazzo pela porta da frente e se senta na praça. Observa as janelas do apartamento, desocupado desde que Mario e a Condessa se foram, e também o horizonte azul do mar onde o sol se põe. Ela sente a brisa tocar seus cabelos e fecha os olhos por alguns instantes. As imagens de Meddur cruzando o Mar Mediterrâneo em sua barca, levando imigrantes em segurança até a costa, mesmo sob perseguição e tiros disparados pelos militares, se alterna com imagens de Mario comandando barricadas na linha de frente de uma greve operária. Ela abre os olhos lentamente, os ultimos raios de sol somem no horizonte. Ela se levanta e volta pra casa.
Oscar Tapes
Lupita Nyong’o: Isola explode com raiva de Mario no carro, durante a tempestade.
Adam Driver: Mario declara seu amor por Isola, apesar de saber que o coração dela já tem dono.
Daniel Day-Lewis: O professor observa com seus olhos melancólicos de sempre as juras de amor entre Mario e Isola.
Tilda Swinton: Monólogo da Condessa no jantar, sobre como ela é uma mulher fraca apesar de sua aparência fria e calculista.
