A Boca da Noite (2022)

de Carla Camurati
produzido por Júlia Fraga
com Selton Mello e Bárbara Colen
8 de Abril de 2022
🇧🇷 Brasil

Fantasia
Sinopse: Em uma pequena cidade do Sul de Minas, um delegado cético se vê diante de acontecimentos sem explicação lógica que o fazem questionar sua própria realidade.

Vencedor de 9 prêmios, incluindo o Grande Otelo de Melhor Filme.


Consenso da Crítica: Sem nunca cair para a condescendência ou se levar a sério demais, “A Boca da Noite” é um mergulho arrebatador nas tradições, idiossincrasias e crenças do Sul de Minas. Carla Camurati comanda com altivez um elenco numeroso e consistentemente carismático, com destaque para Bárbara Colen e Marco Nanini.

Média da crítica

86

Média do público

Tomatômetro

100%

Pipocômetro


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Ficha Técnica

Direção: Carla Camurati
Roteiro: Júlia Fraga
Produção: Júlia Fraga
Fotografia: Hélène Louvart
Figurino: Luciana Buarque
Distribuição: Downtown Filmes
Plataforma: Catflix

Elenco

Selton Mello como José Eduardo
Bárbara Colen como Adelaide
Regina Braga como Dona Gracinha
Daniel de Oliveira como Antônio Faria Fonseca Jr.
Bemvindo Siqueira como Antônio Faria Fonseca
Marco Nanini como Padre Antônio José
Joana Fomm como Hilda
Chico Diaz como Dito Coveiro
Jackson Antunes como Seu Teodoro
Martha Mellinger como Maria


Proposta Estética

O filme se baseia nas antíteses entre a vida e a morte, o novo e o velho, e como esses elementos se relacionam a fim de criar um ciclo infinito — um ouroboros pintado através da reprodução geracional de padrões conhecidos e confortáveis. Esse tema se entranha na proposta estética de A Boca da Noite ao apresentar uma cidade pequena que vacila em aceitar o novo e se mantém, em sua provincianidade arquitetônica, num passado quase artificial. As casas antigas refletem as roupas demodê que todos vestem e, o único que inicialmente destoa de tudo é José Eduardo, com sua tentativa de se destacar como o rapaz formado na capital ecoando em suas roupas e corte de cabelo elegantes.

Situada no sul de Minas Gerais, Bom Sossego é inspirada em cidades como Lavras, Poços de Caldas e Borda da Mata por carregar consigo a aura de cidade pequena e encrustrada de tradição, aparências e isolamento. Os elementos fantásticos não utilizam qualquer CGI, somente uma boa equipe de maquiagem para gerar um efeito creepypasta já muito presente na cultura mineira (vide ET de Varginha). O tom inicial do filme é ligeiramente cômico dada a peculiaridade da região e a excentricidade dos moradores da cidade mas, conforme a narrativa se embrenha em um campo mais sombrio, o tom segue a claustrofobia fantástica e um pouco assustadora. Como um bom causo mineiro, nem tudo tem explicação e muito, muito mesmo, é varrido para debaixo do tapete. 


Narrativa

Filho da Dona Gracinha Benzedeira, José Eduardo, depois de alguns anos vacilando na vida de concurseiro na capital, tira a sorte grande ao passar no concurso para delegado em sua cidade natal no sul de Minas Gerais, Bom Sossego. A pequena cidade é pacífica, sem muitas ocorrências — José Eduardo lida com roubos de galinha ou bêbados farreando até tarde da noite na praça. Seu dia-a-dia o mostra a ladainha costumeira de todos os moradores da cidade, como as fofocas obscenas das beatas Hilda e Maria do Socorro, as reclamações constantes de Seu Teodoro, o pequeno fazendeiro, sobre a má-gestão do prefeito Antônio Faria Fonseca e as missas longas do Padre Antônio José, que sofria com a língua de chicote do Dito Coveiro sobre seu secreto costume de pintar seus cabelos de acaju.  

Quando o delegado começa a se acostumar com o ritmo de cidade pequena, coisas estranhas acontecem durante uma semana. Todas as galinhas somem, as cabeças de gado se debandam para o outro lado do rio, o dinheiro do dízimo desaparece no meio da missa, os santos de todas as beatas racham ao meio e as árvores de ipê começam a cair em dias sem qualquer brisa. Inicialmente com descaso, José Eduardo começa a investigar todos esses incidentes com a ajuda de uma antiga namorada do colégio, Adelaide, logo depois das queixas do prefeito Antônio Faria Fonseca sobre o sumiço total de todos os pés de milho de seu milharal de mais de sete mil hectares.  Juntos, os dois jovens tentam entender a lógica dos acontecimentos coletando informação de casa em casa. O tempo que os dois passaram longe, cada um em sua faculdade de direito — um na capital e a outra em uma cidade vizinha — fez com que aquela paixão juvenil de tempos atrás virasse uma parceria amigável que auxiliava nos rumos da investigação e fazia com que o delegado deixasse de lado seu ceticismo só para ouvir as teorias de Adelaide.  

A única que não parecia surpresa com aquilo tudo era Dona Gracinha. Desde que tudo começara, ela murmurava consigo mesma, longe dos ouvidos do filho, coisas sobre o passado e orações que só ela entendia. Seu dom, para José Eduardo, era fantasia de uma senhora que queria ficar sozinha, distante do zumzumzum das beatas e das más línguas de uma cidade pequena. Mas até mesmo as beatas, quando as febres dos netos e bisnetos não passavam, recorriam às rezas de Gracinha e pareciam contentes em colocar o papo em dia com a antiga colega de escola. Mas agora, com o mistério rondando a cidade, a mãe de José Eduardo era tratada como parte do problema da cidade, como uma das causas de todos os males que a igreja não conseguia curar.

Os moradores, jovens e velhos, opinam sobre os suspeitos e desenterram histórias do arco da velha. Nenhum morador parece ser muito confiável aos olhos de José Eduardo, já que citam maldições e figuras mitológicas como as razões das estranhezas nos arredores. Para as beatas fofoqueiras aquilo tudo era coisa de Seu Teodoro. Elas afirmavam com veemência, enquanto sentadas em suas cadeiras brancas na calçada de suas casas no centro, que o pequeno fazendeiro estava contratando moleques para fazer a bagunçada na cidade e afetar a imagem boa do prefeito Antônio. Ou sussuravam fazendo o sinal da cruz dizendo que era coisa do unhudo. 

Naturalmente, os dois seguem para ouvir a versão de Seu Teodoro que, com a fúria guardada por anos das palavras afiadas das duas, diz que ambas deveriam se preocupar muito mais com tal santo prefeito e seu estranho filho seminarista que nunca saiu da aba do Padre Antônio José. Seu Teodoro diz que todos esses poderosos — igreja e política — estão mancomunados de algum jeito e que só ele, que está sentindo no bolso por sua banca estar sendo boicotada pelo prefeito, parece lembrar da estranheza do rapaz que hoje serve como seminarista da igreja. Adelaide refresca a memória de José Eduardo, que havia esquecido completamente do colega que tiveram na escola: Antônio Faria Fonseca Jr.. 

O filho do prefeito e atual seminarista era um menino tímido que estava destinado a seguir a carreira política e a assumir um posto na prefeitura como toda a árvore genealógica Faria Fonseca. Sua mãe morrera quando era ainda pequeno e, na adolescência, começou a se rebelar contra o pai e sumiu por muitos anos. Adelaide conta que os rumores são muitos: que ele tinha se metido com drogas, que tinha ido para a capital sem nenhum tostão e feito fortuna com jogo do bicho. Ninguém sabia do paradeiro do rapaz até o dia em que ele interrompera a missa de páscoa — Adelaide estava na igreja e lembra exatamente da cena — maltrapilho e magro. O prefeito, atônito com o aparecimento do filho se levantou e ficou imóvel enquanto Antônio Jr. se dirigia ao altar e se ajoelhava aos pés do Padre Antônio, implorando o perdão de deus e pedindo para se tornar um servo do senhor. Os três Antônios e toda a cidade acreditaram ser o milagre de páscoa e enterraram qualquer fofoca sobre o jovem e sua rebeldia de outrora.  Desde então, Antônio Jr. era o maior tesouro das beatas, do prefeito e principalmente do Padre Antônio José, apesar da estranheza de que nesses mais de dez anos ele se mantivesse como seminarista e nunca tivesse sido promovido a sacerdote. 

José Eduardo vacila para entrar na igreja e fica esperando Adelaide na praça central. Ele se lembra da mãe dizendo que todos que entram na igreja tem que estar abertos ao espírito santo. Ele já não se lembrava da última vez que tinha comungado. Já Adelaide, mesmo não sabendo muito bem sobre sua fé e não pensando sobre o assunto, frequentava a igreja e a via como um lugar de comunhão — não do tipo espiritual, mas social. Para ela, era bonito ver a cidade toda junta em um lugar só. Ela entra e já dá de cara com a cabeleira do padre. Após os cumprimentos ela vai direto ao assunto: se o padre saberia algo sobre aqueles acontecimentos e se ela poderia falar com o Antônio Jr.. As respostas foram insatisfatórias e extremamente longas. O padre tinha a fama de fazer curvas com as palavras e nunca chegar ao ponto em seus sermões. Não foi diferente aqui. Enquanto Adelaide escutava e escutava as intermináveis palavras grandiosas do padre, José Eduardo vagueia pela praça até ser pego no papo por Dito Coveiro. 

Dito, sempre com um ar grave e, como as crianças brincavam em sua época de escola, com uma nuvem cinza sobre sua cabeça, conversa com o delegado sobre os acontecidos recentes. Para ele, aquilo tudo era a provação da cidade por estar gestando um mal inerente da cidade. Ele comenta que, pelas suas contas, já caíram sobre a Bom Sossego seis pragas: as galinhas, o gado e o ipê como coisas que afetaram a natureza e que foram causadas pela fúria divina; os santos e o dízimo como uma provação material para a hipocrisia da igreja — ele franzia e apontava para a igreja, repetindo que tudo isso era culpa da vaidade do padre Antônio. Já a sexta ele não conseguia entender o que era: aquele milharal não fazia parte do território da cidade, era terra de ninguém, mas afetava diretamente a vida do prefeito. Dito Coveiro afirma que ainda falta uma das pragas e ele diz ter medo do que pode vir. Ele chega perto e sussura para José Eduardo que a causa disso tudo só podia ser uma coisa: o Corpo Seco tinha voltado para aquelas bandas e ninguém, ninguém da cidade, estava a salvo. O delegado ri e pergunta se aquela história que contavam pra crianças mal educadas estava rondando e importunando os moradores de Bom Sossego. Muito sério, Dito diz que sim e afirma que o Corpo Seco não era só história já que tinha sido o culpado pelo sumiço de uma criança há cinquenta anos. Da mesma forma que agora, a cidade também passou por provações até que a criatura escolhesse sua vítima e a levasse para sempre. Dito diz que seu pai ouviu o som do Corpo Seco e que desmaiou na hora. José Eduardo vê Adelaide saindo da igreja e aproveita para encerrar a conversa estranha com Dito. Ela conta que nada adiantou a conversa com o padre e que ele fora evasivo quando ela pediu uma conversa com Antônio Jr.. Ela pergunta sobre Dito, e José desconversa, falando que os dois só papearam sobre a vida. 

A investigação não anda muito mais do que isso porque os moradores apontam dedos um para os outros, sem muita evidência. O delegado cogita arquivar todas as queixas. Adelaide continua, dia após dia, sua pesquisa sem parecer se incomodar com as superstições da cidade. Ela levara a sério o pedido de José. Para ela, a cidade se comportava daquela forma para evitar trazer à tona qualquer coisa que parecesse inexplicável e abalasse a fé e o temor a deus. Ela aproveitava de sua posição no cartório da cidade para receber informações privilegiadas e sempre era a primeira a saber dos filhos bastardos, das dívidas de banco e das crescentes posses do prefeito. Mas, naquele caso, de nada adiantavam os pedaços de papel que corriam por suas mãos diariamente. Tudo parecia estar varrido para debaixo do tapete propositalmente, e ela não gostava disso. Ela conhecia muito bem as mentiras e as omissões daquele povo: por anos foi colocada a margem por ter crescido sem a mãe, que fugira da cidade logo depois de ter parido. Cresceu muito bem com seu pai mas sentia que suas escolhas, aventuras e decisões tinham suas asas cortadas pela responsabilidade de estar sempre próxima dele. A sua vida fora diferente da de seu antigo namorado: ele se lançou no mundo seguindo seu sonho antigo de sair da cidade e ganhar sua liberdade em uma cidade grande. Ela não, ela ficou. Vivia na estrada durante a faculdade, indo e vindo todos os fins de semana para acompanhar seu pai nas missas de domingo. Se formou em direito mas assumiu seu posto como filha do dono do cartório e assim está desde então. Ela não ressentia sua escolha de ter ficado na cidade e abandonado os planos de uma jovem apaixonada por um sonhador. Ainda mais agora que este jovem sonhador se mostrava um estrangeiro em sua própria casa. 

A música que se ouve na quermesse.

Após alguns dias de desconfiança, a cidade toda se reúne na quermesse da igreja. Seu Teodoro, emanando sorrisos e pinga, diz para o delegado ficar despreocupado com a acusação que fizera, que o prefeito e o filho eram pessoas de bem e que ele não queria se meter em nada daquilo, até porque ele sabia que ninguém seria capaz de fazer tanta maldade na cidade. Com a mão no ombro de José e com a voz mais grave, como se tivesse se despertado da embriaguez para tratar de um assunto oficial, diz que sabia muito bem que tudo era obra do “coisa ruim” [1]. José se encuca com aquela fala mas deixa para lá para poder não só servir como a segurança da festa como também aproveitar um pouco. Ele observa, de longe, a destreza e simpatia de Adelaide em entregar as cartelas de bingo de mesa em mesa. Quem chega, silenciosamente atrás do delegado é Gracinha que ri e diz que a sabia muito bem que José estava de novo interessado na moça. Ele ri e encontra o olhar da moça do outro lado da barraca. 

[1]Pronuncia-se “cusaruin” [k´uz′ar̄′ũĩ].

Tudo vai bem — o bingo premia vários pé-quentes, os casaizinhos fogem para os arbustos escuros, as crianças brincam no pula-pula — até que o padre da paróquia benze a igreja. A água que respinga na parede é vermelha como sangue e a festa vira um caos generalizado. Gracinha, diferentemente dos outros à sua volta, se levanta calmamente e ajuda o Padre Antônio que parecia atônito com o baldinho metálico na mão. Adelaide se junta à senhora e tenta acalmar Hilda e Maria.  Assustados, muitos voltam para suas casas, mas alguns mais desesperados vão para a mata que cerca Bom Sossego. A fim de acalmar aqueles que correram sem rumo, José Eduardo se embrenha no mato e encontra aquele que foi apontado como o culpado de todo o mal que recaiu sobre a cidade: o Corpo-Seco. 

O delegado, assustado, se esconde daquela figura pálida e aguda. Sua respiração e alguns poucos ruídos de insetos ressoam em seus ouvidos até que ele ouve o pior som que já ouviu na sua vida e cai com o baque em seu corpo. A dor em seu pescoço é tão intensa que ele demora a focar seus olhos naqueles finos membros que o mantêm imóvel enquanto a criatura suga seu sangue. A imagem que se marcaria como ferro quente na memória do jovem delegado era o reflexo vermelho nos olhos da criatura e o sangue fresco que gotejava daquela boca humana desfigurada pelos afiados dentes que emergiam de uma face deformada pela secura. A figura abruptamente liberta José Eduardo e se desparece na escuridão. Fraco e com dor, ele ouve passos rápidos e uma voz conhecida. Ele sucumbe a escuridão e desmaia. 

Depois de alguns dias José acorda em sua cama de infância, com Adelaide sentada ao seu lado e sua mãe na cozinha preparando o café. Seu pescoço, ainda ferido, doí e ele se lembra da noite do ataque, sentando-se rapidamente. Adelaide o acalma e afirma que está tudo bem, que ele fora atacado por algum animal do mato. Mas ele sabia que aquilo não era bicho de mato, aquilo era o Corpo Seco, mas não quis vocalizar aquela verdade para não parecer um louco febril. José Eduardo tenta acalmar seus pensamentos e segura a mão de Adelaide para se confortar com aquela nova realidade que se abriu a sua frente. 

Os dias que se seguem são difíceis para o delegado. Seu corpo e sua mente parecem fracos para lidar com as mais simples tarefas. A papelada na delegacia começa a se acumular e sua casa refletia toda a sua bagunça interna. Flashes daquela noite ainda passavam na sua cabeça e o acordavam de um sono inquieto. Ele não parava de pensar no que tinha visto com seus próprios olhos e sentido em sua própria carne. Aquilo era real e não uma história besta contada para que as pessoas andassem na linha. Ele agora temia que aquela coisa se espalhasse como uma maldição sob sua pele, secando suas veias e deixando seu corpo vazio ainda em vida. 

O que se segue na vida de José Eduardo é um grande caleidoscópio de confusão entre sua vida e sua mente, que flutua ainda naquela noite e tenta compreender o que aconteceu com ele. Ele temia e abraçava a possibilidade de estar com uma maldição ou uma doença que o deixaria como aquele cadáver vivo que o atacou na noite da quermesse. Ele se afasta de Adelaide e de sua mãe com medo do que poderia acontecer com as duas pessoas mais importantes de sua vida e se afunda em uma caçada aos mitos da cidade para tentar entender um pouco mais daquilo tudo, para saber o que seria dele. 

Inserido na realidade fantástica de Bom Sossego, ele conseguia encontrar a lógica em sua loucura. Os rostos e os causos se mostram para ele como um redemoinho que o levavam ainda mais para a beirada do precipício da razão. Se ele se tornasse uma criatura como o Corpo Seco, aquele resto de um homem tão mau que fora expulso tanto do céu quanto na terra obrigado a vagar pelo mundo sem rumo, compreenderia que aquilo era a vontade da cidade. Ele nunca se encaixara em Bom Sossego, mas agora via, através de seus pesadelos e suas alucinações, que aquela aparição o faria parte de algo, finalmente. Ele decide ir até a igreja e encontra Antônio Jr. ajoelhado próximo ao altar. Os dois trocam palavras educadas e o seminarista explica que o Padre Antônio estava se recuperando do grande susto e ainda não estava preparado para assumir às rédeas das missas e, por isso, as rezas estavam acontecendo nas casas dos fiéis. O delegado diz que não estava lá para falar disso e que queria saber de Antônio Jr. sobre o Corpo Seco. O seminarista se afasta e diz que não se deve falar de coisas assim em solo sagrado, mas José Eduardo o segue para atrás do altar onde os aposentos dos padres e as salas do dízimo se encontram. Lá, com um olhar desesperado Antônio Jr. conta sua história. 

O rosto de Antônio Jr. ainda reflete a juventude que tinha há alguns anos quando ainda era um jovem rebelde. Ele sabia que seu destino já tinha sido definido pelo pai e odiava a ideia de seguir como fazendeiro e político de cidade pequena. Vivia erraticamente na bebida até que um dia encontrou aquela coisa que o fez fugir da cidade por quase vinte anos. Foi na mata, depois da bebedeira, que Antônio Jr. acordou com um rosto deformado e esbranquiçado a centímetros de distância. Ele tentara fugir mas, ao se embrenhar naquele matagal, caíra sem jeito e a criatura, o Corpo Seco, o atingira, deixando uma ferida — que agora nos fundos da igreja, Antônio Jr. mostrava: um risco branco na pele clara do seminarista, que se afundava e parecia colada ao osso. Antônio Jr. não contara a ninguém, mas os anos que se seguiram foram abocanhados por uma paranoia que o consumia dia e noite, o deixando desesperado e sem rumo até que um dia decidiu voltar. Seu pedido de socorro na igreja foi a sua libertação daquela maldição e, desde então, ele vivia com medo de pisar fora do solo sagrado e ser acometido pelos pensamentos causados pela criatura. Vacilante, José Eduardo se despede e volta para a sua casa. 

Adelaide e Gracinha, juntas na mesa do café da tarde, conversam sobre o quão preocupadas elas estão com o rapaz e a senhora afirma que a cidade não tem feito bem a José. Adelaide se preocupa e afirma que irá visitá-lo. 

Ela chega na casa de José Eduardo quando os últimos raios de sol somem do céu. Quem atende a porta é um reflexo fraco daquele que um dia fora seu grande amor de juventude e ela, sem entender bem, sente compaixão por aquela figura. Os dois conversam por muito tempo e ela vê que, de fato, ele parece enfraquecido. José, aos poucos, vai se sentindo mais calmo na presença de Adelaide e os dois se aproximam ainda mais. Os dois se despedem com um beijo e, quando os rostos se separam, José olha pela janela e vê seu reflexo no vidro se transformar na criatura, no Corpo Seco. 

O tempo passar e as ideias de José Eduardo parecem ter voltado ao prumo. Os dias e meses que se seguem fazem com que o romance entre o delegado e Adelaide se deselvolva a ponto de virar noivado e, por fim, um casamento. Tudo parece estar entrando nos eixos. A cidade parecia curada de todos os seus problemas e ansiosa para acolher o novo casal. Apesar de estar feliz, Adelaide não conseguia esquecer de todos os elementos estranhos dos meses anteriores e de como tudo aquilo afetara seu noivo, apesar dos pensamentos estarem cada vez mais fracos. No dia da cerimônia, enquanto entrava na igreja, ela obsevava o rosto de todos aqueles personagens da cidade e via, no fundo dos olhos de cada um — Hilda, Maria, Seu Teodoro, o Prefeito, Dito e todos os outros que preenchiam a igreja com seus rostos alheios — que a cidade era aquilo, aquela unidade que se despia de seu próprio passado para acolher o novo e submergí-lo em um controle atemporal da verdade. Ela encontra o olhar sério de Gracinha, agora sua futura sogra e desvia seu olhar, como se soubesse que se olhasse por muito tempo para ela, a verdade viria à tona. No altar, o seminarista Antônio Jr. sorri enquanto segura a bíblia para o padre Antônio. Ela se vira para José Eduardo e nenhuma dúvida resta em sua mente. Felizes, todos saem da igreja junto com os noivos e celebram a união que selava a normalidade da cidade. 

A música da cena final.

Adelaide desperta e percebe que a cama está vazia. Ela procura pela casa toda e não encontra seu marido. Ela percebe então uma fraca iluminação vindo da janela da casa, que dá para um campo vazio. O que ela vê faz ela tremer a ponto de desabar em seus joelhos. Duas figuras pequenas pela distância: José Eduardo e uma criatura, frente a frente, como se estivessem prontas para unir os dois mundos que carregam em seus corpos. A vida e a morte juntas, de novo. 


Trilha Sonora

Nota: esta trilha serve para criar uma ambientação do sentimento de cidade pequena sul-mineira. As músicas destacadas no filme estão denotadas na narrativa.


Notícias e Imagens


Prêmios

Total de 9 prêmios e 25 indicações. Clique aqui para ver todos os prêmios da 5ª temporada.

Festival de Cannes
  • Special Screening
Festival de Tóquio
  • Melhor Atriz, Bárbara Colen (venceu)
1º Festival do Rio
  • Troféu Redentor de Melhor Filme (venceu)
  • Troféu Redentor de Melhor Direção, Carla Camurati (venceu)
1ª Mostra de Cinema de São Paulo
  • Prêmio da Crítica de Melhor Filme Nacional (venceu)
  • Prêmio do Júri de Melhor Direção de Arte, Dina Salem Levy (venceu)
1º Prêmio Guarani
  • Filme (venceu)
  • Roteiro, Júlia Fraga (venceu)
  • Direção, Carla Camurati (indicada)
  • Atriz, Bárbara Colen (indicada)
  • Ator, Selton Mello (indicado)
  • Ator Coadjuvante, Marco Nanini (indicado)
  • Fotografia, Hélène Louvart (indicada)
  • Direção de Arte, Dina Salem Levy (indicada)
  • Figurino, Luciana Buarque (indicada)
  • Trilha Sonora, Tia da Escolinha (indicada)
1º Grande Prêmio do Cinema Brasileiro
  • Filme (venceu)
  • Roteiro, Júlia Fraga (venceu)
  • Direção, Carla Camurati (indicada)
  • Atriz, Bárbara Colen (indicada)
  • Ator, Selton Mello (indicado)
  • Ator Coadjuvante, Marco Nanini (indicado)
  • Fotografia, Hélène Louvart (indicada)
  • Direção de Arte, Dina Salem Levy (indicada)
  • Figurino, Luciana Buarque (indicada)

Críticas do Júri

95

Associação Independente de Críticos do Sertão
Uma história que te deixará pensando por muito tempo após terminá-la. Selton Mello e Barbara Cohen dão duas de suas melhores interpretações. Da a trilha sonora à direção de arte, o filme consegue te emergir de forma violenta na trama levando a uma conclusão épica.

95

Jazzacritics Society of Schitts Creek
Sabe quando lemos ou vemos algo sobre aqueles mitos nórdicos ou, principalmente, gregos? Eu, ao experienciar “Boca da Noite”, me senti fazendo isso. É um pouco estranho já que os mitos são uma criação “própria”, por falta de designação melhor, enquanto “Boca” usa de elementos folclóricos brasileiros para construir, ou melhor, completar a sua narrativa. Uma cidade pequena de Minas, uma população super incrível e divertida, um legado geracional quase imutável e a cola de tudo, o corpo-seco.

É inevitável comparar com outro filme que vi nesta quinta edição, “Sacrilégio”. Também ambientado em Minas Gerais e com elementos folclóricos, o filme trabalha nesse meio, mas com uma abordagem diferente. Em “Sacrilégio”, a fera é única como um evento. Em “Boca”, a fera é um tempo, um povo e uma história que não dão sinais de acabar. É incrível como tudo aqui funciona de maneira tão bem estruturada na filosofia e na poesia (ui) do que se mostra que nada poderia abalar tão gravemente e isso não acontece, ou seja, melhor ainda. E vai além, o fato do ator protagonista ter redescoberto que atuar não significa só engrossar a voz ajuda o desempenho do filme assim como o elenco coadjuvante ser muito carismático.

O filme alterna bastante nos seus tons passando pelo drama/suspense até a comédia das divertidas e fofas de uma maneira muito coesa e sem nos tirar da essência de tudo (Poético), mas a grande beleza satisfatória de “Boca” é de como ela introduz o espectador para um lugar físico geográfico e sentimental aprisionador como se já fossemos visitantes de longa data. O cenário, o figurino, as situações e diálogos e como tudo cria essa sensação de região e unidade fascinante. Neste filme, que posso dizer com boca cheia que é um clássico, o tudo é nada e nada é o tudo. Ao fim, José e o espectador encontram-se mudados para sempre, mas tudo ao redor permanece imóvel e congelado no tempo.

90

Critiques de Cinéma de la Côte d’Azur
Caso você esteve se perguntando como seria um filme de Robert Eggers caso ele fosse mineiro e amigo de Selton Mello, aqui está sua resposta! A Boca da Noite é estranho, engraçado e intrigante, muito como muitas cidades de interior. Não há um momento sequer em que o suspense não acompanhe a narrativa, mesmo quando o que acontece é cômico ou romântico ou quando toca ao fundo de Tião Carreiro & Pardinho. Belissimamente escrito, todos os componentes que recheiam a obra fizeram com que me sentisse parte do dia-a-dia de um lugar ao qual nunca pertenci, como se no momento em que a história começa, toda a atmosfera daquela cidade e daquelas pessoas tivesse sido adicionado ao meu repertório mental. De repente, senti nostalgia por algo que nunca conheci em primeira mão. Essa força que atinge o espectador a mesma que toca José Eduardo e Antonio Jr. durante o longa e que te obriga a aceitar que não como fugir daquilo de há de mais fundamental em sua formação: seu berço cultural.

90

Syndicat Français de la Critique de Cinéma
A boca da noite é a materialização dos causos típicos de cidades interioranas que, de boca em boca, ganham as capitais do país e por onde passam intrigam até mesmo os mais céticos. O tipo de narrativa que acompanhamos com interesse, como quem escuta uma fofoca das boas ou uma história de suspense em volta de uma fogueira. Um filme envolvente, com personagens tão bem desenvolvidos quanto cativantes, figuras familiares a todos nós. Charmoso como uma cidadezinha do interior de Minas Gerais.

83

Associação Cibernética dos Críticos de Kwangya
Com todas as suas fofocas, palpites e causos, em Bom Sossego revela um interior marcado por redes dinâmicas de oralidade que formam, na recusa ao regionalismo inerte, o grande triunfo d’A Boca da Noite. Nunca subestimando o ideário de sua população, o filme convida o espectador a, como o protagonista, adentrar pouco a pouco o as relações mágico-político-religiosas ali engendradas; culminando numa Minas Gerais viva e dinâmica que, capaz de absorver até as mais nefastas forças da natureza, se cristaliza como aterrorizante no desfecho glorioso da trama. Os efeitos práticos são um show à parte, e a presença de Chico Díaz na figura do coveiro é particularmente notória.

74

Rio Film Critics Circle
A Boca da Noite é um filme muito interessante e divertido, mas quando passa para um tom mais sombrio, não convence. Carla Camurati, diretora do projeto – apesar de ser excelente no que faz – não chama muita atenção para sua direção, fazendo que o foco do filme fique muito mais nas mãos dos atores, sendo assim, uma obra muito mais teatral, com seus personagens arquétipos: um delegado durão, senhoras fofoqueiras etc.

É um ótimo entretenimento, mas o filme deixa a desejar em momentos que deveriam ser de suspense e fantasia, como se a obra se firmasse nos momentos cômicos, principalmente no começo do filme. Apesar disso, o filme traz consigo um sentimento de nostalgia, como se estivéssemos na cozinha com nossos parentes e eles contando causos da vida e da pacata cidade onde moravam.

A personagem Adelaide, vivida por Bárbara Colen, é um dos diamantes do filme, como se a atriz fosse feita para fazer aquele papel e, não somente isso, como se o filme fosse feito para focar apenas nela, fazendo com que a ideia do José Eduardo de Selton Mello seja um mero coadjuvante muito viva em nossas cabeças.

Acho que uma das surpresas diante do filme, além da personagem Adelaide, é em retratar cenas comuns de cidades do interior, como na missa, na quermesse da igreja, ou num simples cafezinho entre comadres. Ainda que não se trate de somente uma comédia, o estudo de costumes regionais é bastante bonito de se ver.

Outro ponto importante de notar é que a diretora tenta brincar com o real, colocando sempre em questão se as situações que ocorrem são do plano do real ou do fantástico, o que dá certo em alguns momentos, como no início das investigações dos incidentes por José Eduardo e Adelaide. Como dito anteriormente, o filme se ganha pelo aspecto teatral, com as imagens estão carregadas de exageros, gestos e cenários coloridos demais. Grandes responsáveis desse tom são Hélène Louvart e Luciana Buarque, responsáveis pela fotografia e figurino, com as casas antigas e as roupas de época.

Para os atores deve ter sido divertido trabalhar em um projeto tão rico. Para o público, em alguns momentos, o filme se torna tedioso e um pouco arrastado.

70

Gotham City Film Critics Secret Society
“A Boca da Noite” traz o que Minas inventou de melhor depois do pão de queijo: bichos bizarros assombrando vilarejos. Uma ótima premissa, um ótimo elenco, mas que parece se perder em seu terceiro ato, não me agradando tanto quanto as suas duas primeiras partes estavam. Apesar disso, o longa traz uma ótima ambientação, direção e trilha.


Comentários do Público

Em breve.

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